{"id":28827,"date":"2022-09-26T09:33:04","date_gmt":"2022-09-26T12:33:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=28827"},"modified":"2022-09-26T09:33:04","modified_gmt":"2022-09-26T12:33:04","slug":"dados-de-trabalho-precario-no-brasil-hoje-sao-alarmantes-aponta-pesquisador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/09\/26\/dados-de-trabalho-precario-no-brasil-hoje-sao-alarmantes-aponta-pesquisador\/","title":{"rendered":"\u201cDados de trabalho prec\u00e1rio no Brasil hoje s\u00e3o alarmantes\u201d, aponta pesquisador"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Jornalista conversou com o Brasil de Fato RS sobre seu novo livro que analisa desmonte dos direitos ap\u00f3s o golpe de 2016<\/strong><\/p>\n<p>O jornalista e pesquisador Alexandre Haubrich lan\u00e7ou recentemente seu novo livro\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/forms\/d\/e\/1FAIpQLSfVF1u1dRgUqxieBbLwu6t_Rq5RrDI_SjODfaw1SeNpNMr6Bw\/viewform\">&#8220;Direitos golpeados &#8211; Os ataques aos trabalhadores brasileiros de 2016 a 2022&#8221;<\/a>, publicado pela Editora Insular. Os cap\u00edtulos tratam da reforma trabalhista, da reforma da Previd\u00eancia, da reforma administrativa e de outras medidas desse tipo. A apresenta\u00e7\u00e3o foi escrita pelo ex-governador do RS Tarso Genro. Ao final, uma entrevista com a pesquisadora da Unicamp Marilane Teixeira faz o fecho das discuss\u00f5es do livro.<\/p>\n<p>Alexandre \u00e9 doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o pela Ufrgs e, tamb\u00e9m, escreveu os livros\u00a0M\u00eddias Alternativas \u2013 A Palavra da Rebeldia\u00a0(Insular) e nada ser\u00e1 como antes \u2013 2013, o ano que n\u00e3o acabou na cidade onde tudo come\u00e7ou\u00a0(Libretos).<\/p>\n<p>A origem de todo o processo do livro foi a sua tese de doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o, apresentada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2020. Segundo ele, a\u00a0tese tem como t\u00edtulo \u201cO debate p\u00fablico sobre a reforma trabalhista de 2017 no Brasil: embates discursivos na disputa entre trabalho e capital\u201d. &#8220;Como se percebe pelo t\u00edtulo, essa pesquisa tratou especificamente da reforma trabalhista. Mas eu sempre entendi essa reforma como parte de um projeto maior, de uma ampla agenda de desmonte de direitos e de redirecionamento das fun\u00e7\u00f5es do Estado, implementada a partir do golpe de 2016 \u2013 e que motivou esse golpe, retirando Dilma Rousseff da Presid\u00eancia&#8221;, explica.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o tem o apoio de oito sindicatos: Aserghc, Sindipolo\/RS, Sintrajufe\/RS, STIMMMEC, Sindjus\/RS, Ugeirm, Simpe\/RS e Assufrgs.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; A aprova\u00e7\u00e3o das reformas trabalhista e da Previd\u00eancia me lembram o texto de Bertold Brecht &#8220;Se os tubar\u00f5es fossem homens&#8221;. A partir da tua pesquisa, quais os principais fatores que levaram at\u00e9 mesmo os trabalhadores a acreditar que essas reformas eram necess\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre Haubrich &#8211;<\/strong>\u00a0No in\u00edcio do governo de Michel Temer, quando foram lan\u00e7adas as propostas de reforma trabalhista e previdenci\u00e1ria, houve um forte movimento da m\u00eddia burguesa, ou m\u00eddia hegem\u00f4nica, no sentido de gerar um consenso em torno dessa agenda. A pesquisa apresentada no livro, em especial sobre a reforma trabalhista \u2013 que acabou aprovada, ao contr\u00e1rio da reforma da Previd\u00eancia, que passaria apenas com Jair Bolsonaro \u2013, demonstra que esse setor da m\u00eddia foi um dos impulsionadores e sustent\u00e1culos principais desses projetos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, e mesmo com a m\u00eddia extremamente centralizada que temos no pa\u00eds, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o comprou esse discurso. As pesquisas de opini\u00e3o da \u00e9poca deixavam claro que a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o compreendia o significado da reforma trabalhista \u2013 retirada de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras \u2013 e era pessimista em rela\u00e7\u00e3o aos seus resultados.<\/p>\n<p>Tanto pesquisas do Datafolha quanto do Vox Populi apontaram nessa dire\u00e7\u00e3o. As ruas tamb\u00e9m demonstraram a insatisfa\u00e7\u00e3o, com grandes mobiliza\u00e7\u00f5es que uniram a contesta\u00e7\u00e3o \u00e0s reformas ao chamado por \u201cFora Temer\u201d. Isso n\u00e3o foi suficiente para barrar a reforma porque os interesses envolvidos estavam muito compactados em torno do grande empresariado, da m\u00eddia hegem\u00f4nica, dos parlamentares governistas e de um governo originado em um golpe que foi dado justamente para fazer avan\u00e7ar essa agenda.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; O que te levou a fazer essa pesquisa que deu origem ao livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;\u00a0<\/strong>A origem de todo o processo do livro foi a minha tese de doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o, apresentada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2020. A tese tem como t\u00edtulo \u201cO debate p\u00fablico sobre a reforma trabalhista de 2017 no Brasil: embates discursivos na disputa entre trabalho e capital\u201d. Como se percebe pelo t\u00edtulo, essa pesquisa tratou especificamente da reforma trabalhista. Mas eu sempre entendi essa reforma como parte de um projeto maior, de uma ampla agenda de desmonte de direitos e de redirecionamento das fun\u00e7\u00f5es do Estado, implementada a partir do golpe de 2016 \u2013 e que motivou esse golpe, retirando Dilma Rousseff da Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do livro passa por esse racioc\u00ednio, conectando as discuss\u00f5es sobre os diferentes projetos e propostas que, nos governos Temer e Bolsonaro, retiraram ou tentaram retirar direitos dos trabalhadores. Al\u00e9m disso, me motivou o entendimento de que a pesquisa feita para a tese e o conhecimento organizado a partir da\u00ed precisavam extravasar a universidade, ganhar uma forma de leitura mais amig\u00e1vel e servir como instrumento de den\u00fancia do que foi feito e de luta pelo que temos que recuperar.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/c21e64f13bfd140675744cd08fab335e.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1124\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Livro \u00e9 resultado de sua tese de doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o pela UFRGS \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Quais s\u00e3o os principais interesses envolvidos na aprova\u00e7\u00e3o destas reformas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0H\u00e1 dois eixos centrais em todas as reformas discutidas no livro \u2013 e em outras medidas implementadas ou apresentadas pelos \u00faltimos dois governos. Em primeiro lugar, o desmonte da legisla\u00e7\u00e3o protetiva dos trabalhadores, que permite ao grande empresariado \u2013 urbano e rural \u2013 a contrata\u00e7\u00e3o de trabalhadores de forma prec\u00e1ria, sem oferecer direitos que antes eram garantidos. O interesse \u00f3bvio a\u00ed envolvido \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o da margem de lucro dos empres\u00e1rios, em detrimento das necessidades dos trabalhadores.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>N\u00e3o se trata de esvaziar o Estado, mas de ordenar suas atividades conforme o que buscam os \u201cde cima\u201d, ou seja, acumula\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e simb\u00f3lico<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>O segundo eixo dessa agenda \u00e9 o redirecionamento das fun\u00e7\u00f5es do Estado para atender aos interesses das elites econ\u00f4micas e pol\u00edticas. N\u00e3o que o Estado brasileiro antes fosse uma maravilha, um exemplo de democracia e de garantia de direitos. Claro que n\u00e3o. Mas, desde o governo Temer, e sendo aprofundado por Bolsonaro, h\u00e1 um deslocamento em dire\u00e7\u00e3o a uma parcela cada vez menor da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de esvaziar o Estado, mas de ordenar suas atividades conforme o que buscam os \u201cde cima\u201d, ou seja, acumula\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e simb\u00f3lico. Ent\u00e3o temos, por exemplo, a tentativa de reforma administrativa, felizmente refutada at\u00e9 agora pela luta dos trabalhadores e pela inabilidade de Bolsonaro, um projeto que visa desmontar uma estrutura de Estado voltada \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de direitos da popula\u00e7\u00e3o para reconstru\u00ed-la como currais pol\u00edticos e como meio para alguns \u201camigos do rei\u201d fazerem dinheiro f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Qual o papel do golpe de 2016 na aprova\u00e7\u00e3o da reforma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0\u00c9 central. As \u201cpedaladas\u201d nada mais foram do que uma desculpa para depor um governo leg\u00edtimo que n\u00e3o estava contemplando suficientemente os interesses mais urgentes do capital. Os documentos \u201cUma Ponte para o Futuro\u201d, do PMDB, e \u201c119 propostas para a competitividade com impacto fiscal nulo\u201d, da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), ambos divulgados antes da confirma\u00e7\u00e3o do impeachment de Dilma, s\u00e3o instrumentos de press\u00e3o do empresariado e de sua representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e j\u00e1 apontam nesse sentido, defendendo a necessidade de uma reforma trabalhista e apresentando tamb\u00e9m outras demandas.<\/p>\n<p>O documento do PMDB faz refer\u00eancia \u00e0 \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d do Brasil, incluindo a proposta de \u201cpermitir que as conven\u00e7\u00f5es coletivas prevale\u00e7am sobre as normas legais\u201d. J\u00e1 no caso da CNI, entre as 119 propostas apresentadas, 31 referem-se ao mundo do trabalho, sendo que 14 prop\u00f5em altera\u00e7\u00f5es na CLT, em geral dialogando diretamente com o conte\u00fado da reforma trabalhista que depois seria proposta e aprovada.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>As \u201cpedaladas\u201d nada mais foram do que uma desculpa para depor um governo leg\u00edtimo que n\u00e3o estava contemplando suficientemente os interesses mais urgentes do capital<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>O pr\u00f3prio Temer j\u00e1 admitiu que Dilma n\u00e3o foi retirada da Presid\u00eancia por conta das \u201cpedaladas\u201d ou de corrup\u00e7\u00e3o. O golpe abriu as comportas e, imediatamente, o governo Temer apresentou ao Congresso a proposta de emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o do teto de gastos, a reforma trabalhista e a reforma da Previd\u00eancia \u2013 esta \u00faltima ele n\u00e3o conseguiu aprovar, mas Bolsonaro sim, dificultando a aposentadoria de milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; A promessa de criar mais empregos com a reforma trabalhista foi cumprida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0N\u00e3o. A pesquisa apresentada no livro identifica claramente esse como o maior \u201cargumento\u201d do governo e de seus apoiadores para tentar empurrar a reforma trabalhista para a popula\u00e7\u00e3o. Na verdade, um pretexto para aumentar a margem de lucro dos empres\u00e1rios. E o livro tamb\u00e9m demonstra os resultados disso. As taxas de desemprego, desde 2017, tiveram momentos de oscila\u00e7\u00e3o para cima e para baixo, mas, em geral, podemos falar de um quadro mais ou menos est\u00e1vel \u2013 com exce\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo espec\u00edfico de estouro dessa taxa em meados do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mesmo os estudos s\u00e9rios que apontam que pode ter havido algum n\u00edvel de gera\u00e7\u00e3o de empregos por conta da reforma apresentam n\u00fameros muito inferiores ao que era prometido pelo governo e identificam, tamb\u00e9m, o grande problema gerado pela reforma e que j\u00e1 era advertido pelos opositores ao projeto: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>O Brasil vive uma explos\u00e3o do trabalho por conta pr\u00f3pria, do trabalho informal, e mesmo os postos de trabalho com carteira assinada garantem poucos direitos aos trabalhadores, al\u00e9m de uma renda m\u00e9dia cada vez menor. A reforma legalizou as m\u00e1s pr\u00e1ticas que de fato existiam de forma mais esparsa e, dessa forma, as expandiu como regra a ser normalizada, em vez de exce\u00e7\u00e3o a ser combatida. Os dados de trabalho prec\u00e1rio no Brasil hoje s\u00e3o alarmantes, e o pior \u00e9 que s\u00e3o, em geral, situa\u00e7\u00f5es que operam dentro da lei \u2013 justamente a lei conforme foi formulada no contexto da reforma trabalhista.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Os dados de trabalho prec\u00e1rio no Brasil hoje s\u00e3o alarmantes, e o pior \u00e9 que s\u00e3o, em geral, situa\u00e7\u00f5es que operam dentro da lei<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS &#8211; O ministro da Economia, Paulo Guedes, j\u00e1 disse que se Jair Bolsonaro for reeleito far\u00e1 a reforma administrativa. A campanha contra o servi\u00e7o p\u00fablico e a defesa do Estado M\u00ednimo vem desde a d\u00e9cada de 1990, com a entrada do neoliberalismo no pa\u00eds. Quais os mitos que envolvem esta reforma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0Da mesma forma que a reforma trabalhista foi apresentada pelo governo Temer publicamente a partir de mitos como o da gera\u00e7\u00e3o de empregos, a reforma administrativa tamb\u00e9m tem os seus. Um exemplo \u00e9 a quest\u00e3o da estabilidade, apontada como um caminho para a acomoda\u00e7\u00e3o e a piora de qualidade do trabalho entregue pelos servidores. Na verdade, a estabilidade \u00e9 uma garantia para a sociedade: ela protege os servidores de inger\u00eancias pol\u00edticas, sustenta a manuten\u00e7\u00e3o e a continuidade de pol\u00edticas p\u00fablicas de Estado e a presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os. \u00c9, tamb\u00e9m, uma prote\u00e7\u00e3o contra a corrup\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que, sem ela, servidores poderiam ser mais facilmente pressionados por pol\u00edticos ou outros agentes corruptos.<\/p>\n<p>Um segundo mito que eu destacaria \u00e9 o da &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o&#8221;, em constru\u00e7\u00e3o muito semelhante a feita no contexto da reforma trabalhista. Bolsonaro e Paulo Guedes disseram que a reforma administrativa iria &#8220;modernizar&#8221; os servi\u00e7os p\u00fablicos, uma palavra vazia que tenta passar algo positivo, mas que esconde que essa suposta moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, o desmonte dos servi\u00e7os p\u00fablicos oferecidos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e dos direitos de quem presta esses servi\u00e7os.<\/p>\n<figure style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/2db00e7f0af1e8ecd4ec3029cdb121e6.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"552\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8220;A reforma trabalhista precisa ser revogada se quisermos devolver a dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras&#8221;, defende Alexandre \/ Foto: Bruna Andrade<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Qual seria o caminho para uma democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o e a possibilidade para mais vozes serem ouvidas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;\u00a0<\/strong>A luta pela democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o no Brasil vem de d\u00e9cadas. N\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o simples e \u00e9 preciso ter muito cuidado e responsabilidade com as medidas a serem tomadas nesse sentido. Mas posso apontar como algumas das mais importantes a horizontaliza\u00e7\u00e3o das verbas de publicidade, o lan\u00e7amento de editais e a constru\u00e7\u00e3o de outras pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento \u00e0s m\u00eddias alternativas e comunit\u00e1rias, a realiza\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o de legaliza\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios comunit\u00e1rias, a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho de Comunica\u00e7\u00e3o (aos moldes dos conselhos de outras \u00e1reas, como a Medicina). Tamb\u00e9m \u00e9 preciso avan\u00e7ar em discuss\u00f5es sobre a regula\u00e7\u00e3o das plataformas de redes sociais e da internet em geral.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; \u00c9 poss\u00edvel reverter a reforma trabalhista? Qual seria a melhor forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0A reforma trabalhista precisa ser revogada se quisermos devolver a dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras. Isso pode ser feito por um novo projeto de lei, por uma proposta de emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 que, neste caso, colocaria os direitos recuperados na Constitui\u00e7\u00e3o Federal \u2013 ou mesmo por uma Medida Provis\u00f3ria. De qualquer forma, depende de vontade pol\u00edtica do Executivo e do Congresso. Isso certamente n\u00e3o aconteceria sob o governo Bolsonaro ou sob outro governo neoliberal.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Temos que eleger um presidente e um Congresso comprometidos com as pautas dos trabalhadores<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Assim, temos que eleger um presidente e um Congresso comprometidos com as pautas dos trabalhadores. E, al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso que haja mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas, puxadas pelas centrais sindicais, sindicatos e movimentos populares, para revogar a reforma de 2017 na \u00edntegra e, quem sabe, propor novas altera\u00e7\u00f5es trabalhistas que beneficiem e protejam os trabalhadores que hoje est\u00e3o expostos \u00e0s novas l\u00f3gicas das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, crescentemente precarizadas.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Que caminhos sua pesquisa aponta para a retomada do Estado do Bem-estar social e cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0Um dos caminhos centrais nesse sentido \u00e9, sem d\u00favidas, aprofundar a democracia no pa\u00eds. Al\u00e9m de recuperar o que foi perdido nesse sentido a partir do golpe de 2016, e especialmente sob o governo Bolsonaro, temos que ampliar os mecanismos de participa\u00e7\u00e3o popular nas decis\u00f5es mais importantes para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, a mudan\u00e7a na Constitui\u00e7\u00e3o estadual feita pelo governo de Eduardo Leite, com apoio majorit\u00e1rio na Assembleia Legislativa, \u00e9 um exemplo justamente do oposto: foi derrubada da Constitui\u00e7\u00e3o a necessidade de plebiscito para a privatiza\u00e7\u00e3o das estatais. Isso fecha os caminhos democr\u00e1ticos, torna a pol\u00edtica cada vez mais distante da popula\u00e7\u00e3o e, assim, facilita a quebra de direitos. Ent\u00e3o, a obrigatoriedade da realiza\u00e7\u00e3o de plebiscitos para definir quest\u00f5es como a venda de estatais \u00e9 uma das pautas que pode ser pensada nesse sentido.<\/p>\n<p>Outra \u00e9 a inclus\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas espec\u00edficos e essenciais, de programas de transfer\u00eancia de renda, entre outros itens que garantam dignidade para o trabalho e para a vida das pessoas. Isso pode ser feito tanto por meio de PECs quanto a partir de uma Constituinte Exclusiva, discuss\u00e3o que em algum momento a sociedade brasileira precisar\u00e1 fazer para reorientar os rumos do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>BdF RS &#8211; Hoje, nos EUA, p\u00e1tria do liberalismo, est\u00e1 havendo uma retomada da sindicaliza\u00e7\u00e3o, o que se atribui, por exemplo, \u00e0 infla\u00e7\u00e3o alta. Sob outra presid\u00eancia, voc\u00ea acha que pode ocorrer tamb\u00e9m aqui?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alexandre &#8211;<\/strong>\u00a0O problema da baixa ades\u00e3o dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil a sindicatos n\u00e3o \u00e9 novo, mas vem sendo agravado nos \u00faltimos anos por diversos fatores. Um deles \u00e9, sem d\u00favida, a perda de poder aquisitivo pela classe trabalhadora. Vemos o encolhimento da renda m\u00e9dia, a redu\u00e7\u00e3o ou congelamento de sal\u00e1rios, enquanto a infla\u00e7\u00e3o \u2013 especialmente dos alimentos \u2013 cresce muito. Ent\u00e3o, de fato, em muitos casos, cada real que pode ser economizado com outros gastos \u2013 como o pagamento da filia\u00e7\u00e3o sindical \u2013 \u00e9 importante.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A reforma trabalhista de 2017 acelerou a cria\u00e7\u00e3o de um enorme ex\u00e9rcito de trabalhadores informais, prec\u00e1rios ou \u201cpor conta pr\u00f3pria\u201d<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>Mas h\u00e1 outros fatores que, a meu ver, t\u00eam peso maior, pelo menos no caso brasileiro, para gerar a baixa sindicaliza\u00e7\u00e3o. Estou me referindo, por exemplo, como fator hist\u00f3rico, \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, que divulga todos os dias um ide\u00e1rio antissindical. E, neste momento, a fatores conjunturais \u2013 embora relacionados a quest\u00f5es estruturais \u2013 como as mudan\u00e7as na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, que deixam mesmo os trabalhadores formais, com carteira assinada, crescentemente isolados, em especial se considerarmos os terceirizados.<\/p>\n<p>Para os demais, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior: a reforma trabalhista de 2017 acelerou a cria\u00e7\u00e3o de um enorme ex\u00e9rcito de trabalhadores informais, prec\u00e1rios ou \u201cpor conta pr\u00f3pria\u201d, com rendimentos muito baixos, poucos ou nenhum direito trabalhista e sem qualquer rela\u00e7\u00e3o formal de pertencimento a uma categoria trabalhista, menos ainda \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Para melhorarmos os \u00edndices de sindicaliza\u00e7\u00e3o e fortalecermos os sindicatos, essas entidades precisam enfrentar abertamente essa realidade, adaptar algumas pr\u00e1ticas e ter mais clareza do contexto social em que estamos inseridos, para poder atuar melhor sobre esse contexto. \u00c9 um desafio muito duro, sem d\u00favidas, e que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, mas que \u00e9 necess\u00e1rio para fortalecermos, a partir dos sindicatos e centrais, as lutas coletivas que v\u00e3o conquistar um pa\u00eds melhor para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Katia Marko<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalista conversou com o Brasil de Fato RS sobre seu novo livro que analisa desmonte dos direitos ap\u00f3s o golpe de 2016 O jornalista e pesquisador Alexandre Haubrich lan\u00e7ou recentemente seu novo livro\u00a0&#8220;Direitos golpeados &#8211; Os ataques aos trabalhadores brasileiros de 2016 a 2022&#8221;, publicado pela Editora Insular. 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