{"id":29282,"date":"2022-10-26T12:54:00","date_gmt":"2022-10-26T15:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=29282"},"modified":"2022-10-26T12:54:00","modified_gmt":"2022-10-26T15:54:00","slug":"fazendas-de-cafe-gourmet-e-certificado-em-mg-sao-flagradas-com-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/10\/26\/fazendas-de-cafe-gourmet-e-certificado-em-mg-sao-flagradas-com-trabalho-escravo\/","title":{"rendered":"Fazendas de caf\u00e9 gourmet e certificado em MG s\u00e3o flagradas com trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Opera\u00e7\u00e3o resgatou 27 v\u00edtimas nas Fazendas Olhos D\u2019\u00c1gua e Klem, ambas com selos de boas pr\u00e1ticas socioambientais; em uma das \u00e1reas, trabalhadores relatam ter sido dispensados no dia de visita da certificadora<\/strong><\/p>\n<p>Quando chegam ao consumidor brasileiro ou mesmo aos do exterior, os caf\u00e9s tipo\u00a0<em>premium\u00a0<\/em>vindos de duas fazendas de Minas Gerais est\u00e3o embalados em pacotes gourmet, com selos de qualidade, certificados de origem e slogans de sustentabilidade. Mas na outra ponta do processo, nos cafezais, equipes de fiscaliza\u00e7\u00e3o encontraram uma realidade bem diferente: trabalho escravo.<\/p>\n<p>Ao todo, 27 trabalhadores foram submetidos a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o nas fazendas Olhos D\u2019\u00c1gua e Klem, nas cidades mineiras de Campos Altos e Manhumirim, respectivamente. As duas propriedades contam com a certifica\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.rainforest-alliance.org\/pt-br\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Rainforest Alliance<\/a>, principal organiza\u00e7\u00e3o internacional que fiscaliza cadeias produtivas de alimentos e atesta que o caf\u00e9 \u00e9 cultivado sob boas pr\u00e1ticas socioambientais.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><figcaption>Em um dos flagrantes, na Fazenda Klem, a fiscaliza\u00e7\u00e3o trabalhista encontrou parte do grupo resgatado colhendo caf\u00e9 de meias e descal\u00e7os, pois n\u00e3o havia oferta de equipamentos de seguran\u00e7a, como botas. Aliciados na Bahia, os safristas atuavam na informalidade, sem registro em carteira ou garantia de direitos trabalhistas.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Procurada, a Rainforest Alliance disse que n\u00e3o sabia sobre os casos de trabalho escravo e que tomaria as medidas necess\u00e1rias \u201cde acordo com a severidade do caso\u201d (<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?p=62321\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">leia a resposta na \u00edntegra<\/a>).<\/p>\n<h1>Caf\u00e9 tipo exporta\u00e7\u00e3o<\/h1>\n<p>O caf\u00e9 produzido nas duas fazendas \u00e9 exportado para diversos pa\u00edses, especialmente na Europa e Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>A Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua tem o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cerradomineiro.org\/index.php?pg=produtor&amp;p=734&amp;f=643\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">selo de origem Cerrado Mineiro<\/a>, que garante acesso a mercados que buscam qualidade \u2013 e que aceitam pagar um pre\u00e7o maior por isso. O caf\u00e9 com essa denomina\u00e7\u00e3o de origem s\u00f3 pode ser comercializado por exportadoras credenciadas. \u00c9 o caso da Ally Coffee, que pertence ao Grupo Montesanto Tavares, uma das\u00a0<a href=\"https:\/\/forbes.com.br\/forbesagro\/2022\/01\/veja-a-lista-forbes-as-100-maiores-empresas-do-agro\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">maiores empresas do agro no Brasil<\/a>, al\u00e9m da multinacional NKG, fornecedora de gigantes do caf\u00e9, como Nestl\u00e9 e Lavazza.<\/p>\n<p>Em suas redes sociais, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/B_P7OrLAEYl\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Ally Coffee ressalta a parceria comercial com a Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua<\/a>. A propriedade tem como dono Marcelo Assis Nogueira, autuado pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Previd\u00eancia pela submiss\u00e3o de 20 trabalhadores a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o entre 13 de julho e 4 de agosto. Nogueira \u00e9 s\u00f3cio, junto com o cafeicultor Flavio Ferreira da Silva, da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/biomacafe\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Bioma Caf\u00e9<\/a>. Segundo descri\u00e7\u00e3o nas redes sociais, a empresa tem a \u201csustentabilidade como premissa\u201d.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_62327\" aria-describedby=\"caption-attachment-62327\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-62327\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Ally-Coffee.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 511px) 100vw, 511px\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Ally-Coffee.jpg 511w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Ally-Coffee-89x150.jpg 89w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Ally-Coffee-179x300.jpg 179w\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"857\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62327\" class=\"wp-caption-text\">Publica\u00e7\u00e3o no Instagram da Ally Coffee destaca parceria comercial com a fazenda onde 20 trabalhadores foram submetidos a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o, segundo auditores fiscais (Foto: Instagram\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><figcaption>\nOutra rela\u00e7\u00e3o comercial da Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua se d\u00e1 com a <a href=\"https:\/\/www.nucoffee.com\/pt-br\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Nucoffee<\/a>, programa de qualidade da Syngenta, uma das maiores fabricantes de agrot\u00f3xicos do mundo. O mercado norte-americano \u00e9 o principal destino do produto adquirido pela empresa no Brasil, por meio da sua subsidi\u00e1ria Nutrade Comercial Exportadora. Um v\u00eddeo publicado no Youtube da Nucoffee\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4ebq5ZTInf8\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">mostra a propriedade e apresenta detalhes<\/a>\u00a0da produ\u00e7\u00e3o da Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua e de outros cafezais ligados \u00e0 Bioma Caf\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Questionada sobre o caso, a Nucoffee afirmou apenas que o produtor autuado lhe disse que j\u00e1 regularizou a situa\u00e7\u00e3o com os \u00f3rg\u00e3os competentes. Tamb\u00e9m declarou que n\u00e3o aceita fornecedores cadastrados na\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2022\/10\/cafetinas-clientes-do-bndes-e-procurado-pela-interpol-quem-sao-os-empregadores-na-nova-lista-suja-do-trabalho-escravo\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">\u201clista suja\u201d do trabalho escravo<\/a>\u00a0e que apoia pr\u00e1ticas de sustentabilidade na cultura de caf\u00e9 por meio de um programa voltado para produtores rurais.<\/p>\n<p>A Ally Coffee n\u00e3o respondeu aos questionamentos enviados pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>.<\/p>\n<p>O produtor Marcelo Assis Nogueira negou a pr\u00e1tica de trabalho escravo na Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua. Em nota, a advogada de Nogueira, Ana Paula Rezende, afirmou que os auditores fiscais n\u00e3o flagraram os safristas trabalhando de maneira irregular. \u201cOs entendimentos dos fiscais basearam-se em depoimentos de trabalhadores encontrados em fazenda diversa e desconhecida deste empregador, que supostamente haviam trabalhado na fazenda no m\u00eas anterior ao da fiscaliza\u00e7\u00e3o\u201d, disse.\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?p=62321\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Veja as respostas na \u00edntegra<\/a>.<\/p>\n<p>Segundo registros alfandeg\u00e1rios acessados pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>, uma subsidi\u00e1ria espanhola da multinacional NKG, uma das principais compradoras mundiais de caf\u00e9 em gr\u00e3os, possui hist\u00f3rico de compra de caf\u00e9 da Fazendas Klem Importa\u00e7\u00e3o e Exporta\u00e7\u00e3o de Caf\u00e9s. A fam\u00edlia Klem \u00e9 dona de diversos cafezais na regi\u00e3o das Matas de Minas e ostenta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fazendasklem.com\/certificacoes\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">dez selos de certifica\u00e7\u00e3o em seu site.<\/a>\u00a0A empresa tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/www.klemorganicos.com\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">produz e comercializa o seu pr\u00f3prio caf\u00e9 org\u00e2nico<\/a>. Em 6 de julho, 7 trabalhadores foram resgatados em uma das propriedades do grupo, em Manhumirim (MG).<\/p>\n<p>Procurada pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>, a NKG disse que pelo menos uma das companhias ligadas ao grupo j\u00e1 comprou caf\u00e9 das Fazendas Klem no passado, mas que a \u00faltima aquisi\u00e7\u00e3o ocorreu em 2020. A multinacional tamb\u00e9m disse que a sua subsidi\u00e1ria brasileira, a NKG Stockler, removeu a Fazendas Klem do seu sistema de fornecedores ap\u00f3s ter sido informada pela\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil\u00a0<\/strong>sobre o caso de trabalho escravo.\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?p=62321\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Leia a \u00edntegra<\/a>.<\/p>\n<h1>Certifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante respeito aos direitos trabalhistas<\/h1>\n<p>\u201cCaf\u00e9 premiado ou certificado n\u00e3o \u00e9 nenhuma garantia de dignidade aos trabalhadores e de respeito aos direitos trabalhistas\u201d, critica o sindicalista Jorge Ferreira dos Santos Filho, coordenador da Articula\u00e7\u00e3o dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere\/MG).<\/p>\n<p>O coordenador afirma ainda que a Adere recebe com frequ\u00eancia den\u00fancias de desrespeito aos direitos trabalhistas em propriedades rurais que produzem e comercializam mercadorias de alto valor agregado. Entre os motivos, segundo ele, est\u00e3o as poucas fiscaliza\u00e7\u00f5es por parte do governo federal, a falta de transpar\u00eancia das certificadoras, a omiss\u00e3o de grandes empresas que compram de fazendas que desrespeitam a lei e a garantia de impunidade na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEstamos diante de um modelo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, em que o dinheiro vale mais que a sa\u00fade e a vida dos seres humanos, que o meio ambiente e que a dignidade das pessoas\u201d, diz Santos Filho.<\/p>\n<h1>Sem banheiro, nem EPIs<\/h1>\n<p>A lista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CMkwHpVhhaR\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">pr\u00eamios da Fazenda Olhos d\u2019\u00c1gua-Bioma<\/a>\u00a0contrasta com a situa\u00e7\u00e3o trabalhista encontrada na lavoura. Na propriedade, conforme apuraram auditores fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho e Previd\u00eancia (MTP), em uma opera\u00e7\u00e3o conjunta com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e agentes da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal, 20 pessoas foram submetidas a situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o na colheita do caf\u00e9. Tr\u00eas das v\u00edtimas tinham menos de 18 anos de idade, sendo uma delas uma menina adolescente de 15 anos.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_62350\" aria-describedby=\"caption-attachment-62350\" style=\"width: 770px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-62350\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 770px) 100vw, 770px\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1.jpg 770w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1-116x150.jpg 116w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1-232x300.jpg 232w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1-640x827.jpg 640w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/depoimento_trabalhadores_olhosdagua-1-400x516.jpg 400w\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"995\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62350\" class=\"wp-caption-text\">Auditor fiscal toma depoimento de trabalhadores safristas que colheram caf\u00e9 na Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua-Bioma. (Foto: Projeto Trabalho Escravo \u2013 SRTMG)<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio da fiscaliza\u00e7\u00e3o, foi constatado uma \u201csupress\u00e3o generalizada de direitos trabalhistas\u201d. Aliciados por um intermedi\u00e1rio que atua na regi\u00e3o, os safristas n\u00e3o tinham carteira de trabalho assinada e nem pagamento regular dos sal\u00e1rios. \u201cOs trabalhadores faziam suas refei\u00e7\u00f5es no ch\u00e3o, embaixo dos p\u00e9s de caf\u00e9s; faziam suas necessidades fisiol\u00f3gicas no mato; precisavam comprar seus equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual [\u2026] pois n\u00e3o eram fornecidos pelo empregador; n\u00e3o havia reposi\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pot\u00e1vel\u201d, afirma um trecho do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os depoimentos dos trabalhadores foram tomados dias ap\u00f3s o fim do contrato de trabalho na Fazenda Olhos D\u2019\u00c1gua, no dia 4 de agosto. O empregador Marcelo Assis Nogueira foi autuado pelas viola\u00e7\u00f5es indicadas e teve que custear a passagem de volta dos trabalhadores para a Bahia, al\u00e9m de realizar o pagamento de multas.<\/p>\n<p>As v\u00edtimas disseram, ainda segundo o relat\u00f3rio, que durante o per\u00edodo em que permaneceram na fazenda receberam um dia de dispensa do gerente local. O objetivo seria evitar que eles fossem vistos por uma vistoria agendada pela certificadora Rainforest Alliance.<\/p>\n<p>A advogada do empres\u00e1rio negou que isso tenha acontecido: \u201cDesconhecemos e discordamos por completo de tal afirma\u00e7\u00e3o\u201d. J\u00e1 a Rainforest Alliance afirmou que requisitou \u00e0 auditoria respons\u00e1vel que apurasse esta informa\u00e7\u00e3o. Leia as respostas na \u00edntegra\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?p=62321\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/p>\n<h1>Org\u00e2nicos de um lado, precariedade de outro<\/h1>\n<p>No dia 6 de julho, sete trabalhadores foram resgatados ap\u00f3s fiscaliza\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho e Previd\u00eancia, com apoio da Pol\u00edcia Militar, no cafezal das Fazendas Klem em Manhumirim (MG).<\/p>\n<p>Arregimentadas no munic\u00edpio baiano de Caetanos com a promessa de bons sal\u00e1rios, as v\u00edtimas n\u00e3o receberam cal\u00e7ados ou outros equipamentos de seguran\u00e7a para trabalhar. Tampouco dispunham de um abrigo para prote\u00e7\u00e3o contra sol e chuva ou para realizar as refei\u00e7\u00f5es na lavoura.<\/p>\n<p>No primeiro dia de servi\u00e7o, os trabalhadores relataram que, ap\u00f3s chegar \u00e0 fazenda, tiveram que ir a p\u00e9 para a zona urbana de Manhumirim para comprar mantimentos, como comida, roupas e produtos de higiene. J\u00e1 o alojamento da fazenda era bastante prec\u00e1rio: a \u00e1gua da torneira era de m\u00e1 qualidade, com colora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o havia onde armazenar os alimentos; o banheiro n\u00e3o funcionava, o que levava as pessoas a terem que realizar as necessidades fisiol\u00f3gicas no mato, ao relento.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de trabalho em que as v\u00edtimas se encontravam destoam da impress\u00e3o causada pelos dez selos de certifica\u00e7\u00e3o de boas pr\u00e1ticas que a fazenda exibe em seu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fazendasklem.com\/certificacoes\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">site<\/a>, onde se l\u00ea que \u201ca m\u00e3o-de-obra humana [\u2026] \u00e9 uma aliado fundamental na produ\u00e7\u00e3o, onde o homem e o caf\u00e9 convivem em perfeita harmonia\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Rainforest Alliance, o cumprimento de padr\u00f5es socioambientais das Fazendas Klem tamb\u00e9m \u00e9 chancelado pela UTZ (que pertence \u00e0 Rainforest). O grupo tamb\u00e9m possui outros tr\u00eas selos que permitem a venda de produtos org\u00e2nicos no Brasil, EUA e Uni\u00e3o Europeia, bem como outros cinco selos que atestam o cultivo de gr\u00e3os especiais.<\/p>\n<p>Em uma segunda nota enviada \u00e0 reportagem, a Rainforest Alliance afirmou que a propriedade rural onde foi encontrado trabalho escravo n\u00e3o \u00e9 a mesma para a qual concedeu o selo de certifica\u00e7\u00e3o. De acordo com a entidade, as Fazendas Klem s\u00e3o um grupo de empresas que pertencem a uma mesma holding e a \u00e1rea certificada se encontra em Luisburgo (MG). O munic\u00edpio fica a 31 km de Manhumirim, onde ocorreu o flagrante de trabalho escravo.<\/p>\n<p>Outro dos selos usados pela Fazendas Klem, o de org\u00e2nicos, \u00e9 concedido pela Divis\u00e3o de Org\u00e2nicos do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (MAPA). Procurado, o \u00f3rg\u00e3o afirmou que teve acesso \u00e0s infra\u00e7\u00f5es emitidas pelos auditores fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho e retirou o nome do produtor do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/agricultura\/pt-br\/assuntos\/sustentabilidade\/organicos\/cadastro-nacional-produtores-organicos\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Cadastro Nacional dos Produtores Org\u00e2nicos<\/a>.<\/p>\n<p>A pasta tamb\u00e9m informou que investigar\u00e1 o ocorrido para decidir sobre manter ou retirar o certificado da fazenda. \u201cUma vez conclu\u00eddo o processo e confirmadas as irregularidades, o autuado ser\u00e1 penalizado pelo descumprimento da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e ter\u00e1 seu certificado de produtor org\u00e2nico cancelado\u201d, declarou a assessoria de imprensa do MAPA.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_62303\" aria-describedby=\"caption-attachment-62303\" style=\"width: 844px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-62303\" src=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1040px) 100vw, 1040px\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem.jpg 1040w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem-150x71.jpg 150w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem-300x142.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem-800x378.jpg 800w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/alojamento-Fazendas-Klem-640x303.jpg 640w\" alt=\"\" width=\"844\" height=\"399\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62303\" class=\"wp-caption-text\">Exterior da casa onde as v\u00edtimas de trabalho escravo permaneciam nas Fazendas Klem. (Foto: Projeto Trabalho Escravo \u2013 SRTMG )<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ap\u00f3s o resgate dos trabalhadores, o empregador das v\u00edtimas e s\u00f3cio da fazenda, Cesar Viana Klem, realizou o pagamento das verbas rescis\u00f3rias e multas trabalhistas e custeou a passagem de volta delas para o seu munic\u00edpio de origem.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>\u00a0questionou a administra\u00e7\u00e3o da propriedade, que negou que se tratava de trabalho escravo e afirmou que: \u201cestes fatos n\u00e3o condizem com a verdade, haja vista que a empresa prop\u00f5e sempre o bem-estar dos funcion\u00e1rios e possui o comprometimento com as normas legislativas\u201d.\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?p=62321\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Confira a resposta na \u00edntegra<\/a>.<\/p>\n<p>www.reporterbrasil.org.br\/Guilherme Zocchio,colaborou Poliana Dallabrida<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opera\u00e7\u00e3o resgatou 27 v\u00edtimas nas Fazendas Olhos D\u2019\u00c1gua e Klem, ambas com selos de boas pr\u00e1ticas socioambientais; em uma das \u00e1reas, trabalhadores relatam ter sido dispensados no dia de visita da certificadora Quando chegam ao consumidor brasileiro ou mesmo aos do exterior, os caf\u00e9s tipo\u00a0premium\u00a0vindos de duas fazendas de Minas Gerais est\u00e3o embalados em pacotes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":29283,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[183],"class_list":["post-29282","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-combate-ao-trabalho-escravo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29282"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29284,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29282\/revisions\/29284"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}