{"id":29824,"date":"2022-12-07T12:15:08","date_gmt":"2022-12-07T15:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=29824"},"modified":"2022-12-07T12:15:08","modified_gmt":"2022-12-07T15:15:08","slug":"as-condicoes-degradantes-das-relacoes-de-trabalho-no-catar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2022\/12\/07\/as-condicoes-degradantes-das-relacoes-de-trabalho-no-catar\/","title":{"rendered":"As condi\u00e7\u00f5es degradantes das rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Catar"},"content":{"rendered":"<p><strong>A realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo 2022 no Catar foi objeto de calorosas pol\u00eamicas e fortes cr\u00edticas ao controvertido pa\u00eds \u00e1rabe, c\u00e9lebre pelo desrespeito aos direitos humanos, misoginia, homofobia e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o. Mas cumpre destacar as formas desumanas de explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidos trabalhadores e trabalhadoras do pa\u00eds, principalmente as camadas mais pobres e vulner\u00e1veis da classe.<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com levantamento de ONGs independentes mais de 6.500 trabalhadores imigrantes da \u00cdndia, Nepal, Bangladesh, Paquist\u00e3o e Sri Lanka morreram na constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios e outras obras da Copa.<\/p>\n<p>A reportagem reproduzida abaixo, da\u00a0BBC, \u00e9 uma fotografia, ainda que parcial. da infame realidade que orienta o cotidiano de quem n\u00e3o tem fortuna na sede da Copa do Mundo 2022, que h\u00e1 poucos dias tamb\u00e9m foi palco de uma festan\u00e7a com picanha recheada a ouro, no valor de R$ 9 mil, comandada por Ronaldo Fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Enquanto os olhos do mundo analisam o hist\u00f3rico de direitos humanos do Catar em meio \u00e0 Copa do Mundo, as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho das empregadas estrangeiras que trabalham para a elite do do pa\u00eds tamb\u00e9m entram em pauta. A correspondente de g\u00eanero e identidade da BBC, Megha Mohan, conversou com duas dom\u00e9sticas e ouviu relatos sobre uma vida de longas horas sem dias de folga.<\/p>\n<p>Gladys (nome fict\u00edcio) conversa com a reportagem tarde da noite, depois que seus patr\u00f5es v\u00e3o dormir.<\/p>\n<p>Em uma breve conversa virtual, ela me conta que trabalha das 8h \u00e0s 23h todos os dias; limpa, ajuda a preparar a comida e cuida das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Gladys relata que come o que sobra da refei\u00e7\u00e3o que prepara para a fam\u00edlia e diz que n\u00e3o tira folga desde o primeiro dia em que come\u00e7ou a trabalhar, h\u00e1 18 meses.<\/p>\n<p>\u201cA senhora [para quem eu trabalho] \u00e9 louca\u201d, diz Gladys, uma mulher filipina na casa dos 40 anos, sobre sua patroa. \u201cEla grita comigo todos os dias.\u201d<\/p>\n<p>Antes do Catar vencer a competi\u00e7\u00e3o para sediar a Copa do Mundo de 2022, os trabalhadores estrangeiros n\u00e3o podiam mudar de emprego ou deixar o pa\u00eds sem a permiss\u00e3o do empregador. Ainda \u00e9 assim na maioria dos estados do Golfo.<\/p>\n<p>Sob escrut\u00ednio, o Catar come\u00e7ou a introduzir reformas, mas nem sempre aplicadas na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Por exemplo, os patr\u00f5es de Gladys confiscaram seu passaporte. Se o pedisse de volta, n\u00e3o tinha certeza de que o documento seria devolvido.<\/p>\n<p>Mas Gladys ainda diz que se considera sortuda. Pelo menos, teve permiss\u00e3o para manter seu telefone, diz, ao contr\u00e1rio de algumas outras empregadas estrangeiras. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 abusada fisicamente. No Catar, isso acontece com frequ\u00eancia com as empregadas dom\u00e9sticas, lembra.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra raz\u00e3o pela qual Gladys quer permanecer em seu emprego atual \u2014 ela acha improv\u00e1vel que na sua idade consiga algo melhor. Ela ganha 1.500 rials por m\u00eas (cerca de R$ 2 mil) e consegue enviar tudo para casa para sustentar sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Estima-se que existam 160 mil trabalhadores dom\u00e9sticos no Catar, de acordo com dados de 2021 da Autoridade de Planejamento e Estat\u00edstica do Catar.<\/p>\n<p>Em 2017, o Catar introduziu a Lei dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos, que teoricamente limita a jornada de trabalho a 10 horas por dia e exige pausas di\u00e1rias, folga semanal e feriados remunerados.<\/p>\n<p>Em 2020, tamb\u00e9m introduziu um sal\u00e1rio m\u00ednimo e deu aos trabalhadores o direito no papel de mudar de emprego ou deixar o pa\u00eds sem pedir permiss\u00e3o aos empregadores.<\/p>\n<p>No entanto, a ONG Anistia Internacional diz que essas leis nem sempre s\u00e3o observadas e que o excesso de trabalho, a falta de descanso e o tratamento abusivo e degradante continuam.<\/p>\n<p>Joanna Concepcion, da ONG Migrante International, uma organiza\u00e7\u00e3o que apoia os trabalhadores filipinos no exterior, diz que muitos se calam sobre as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho porque ganhar dinheiro para suas fam\u00edlias \u00e9 sua principal prioridade.<\/p>\n<p>Mas quando as pessoas nos estados do Golfo se sentem confiantes o suficiente para falar sem censura, diz ela, muitas vezes mencionam abusos graves. Uma mulher disse que sua patroa enfiava a cabe\u00e7a dela em um vaso sanit\u00e1rio e negava comida e \u00e1gua quando estava com raiva.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/FB00\/production\/_127865246_maid2-nc.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de empregada dom\u00e9stica trabalhando por Marta Klawe Rzeczy\" \/><figcaption><em>Ilustra\u00e7\u00e3o de Marta Klawe Rzeczy<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Longas jornadas em \u201cpal\u00e1cios de Cinderela\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Althea (nome fict\u00edcio) pinta um quadro muito diferente de sua vida como empregada dom\u00e9stica no Catar. Empregada pela fam\u00edlia real Al Thani, ela faz videochamadas para a BBC do por\u00e3o de uma resid\u00eancia real.<\/p>\n<p>Sorridente e animada, ela explica que eles lhe deram um iPhone, roupas, joias e sapatos de um tipo que ela n\u00e3o poderia pagar se morasse nas Filipinas.<\/p>\n<p>Como no caso de Gladys, \u00e9 a dificuldade de ganhar um sal\u00e1rio digno em casa que a trouxe para o Catar.<\/p>\n<p>Enquanto falamos, outras empregadas dom\u00e9sticas filipinas, que dividem um quarto grande nos aposentos de Althea, dizem oi e se juntam \u00e0 liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Elas t\u00eam seus pr\u00f3prios quartos e uma cozinha privada. Isso \u00e9 importante. As empregadas dom\u00e9sticas que Althea v\u00ea no TikTok e no Facebook implorando por comida e por algu\u00e9m que as resgate n\u00e3o t\u00eam tanta sorte.<\/p>\n<p>\u201cVejo esses v\u00eddeos online o tempo todo, e \u00e9 por isso que me sinto t\u00e3o sortuda\u201d, diz ela. \u201cPara mim, cada dia parece um conto de fadas.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, a jornada de trabalho \u00e9 longa nesses \u201cpal\u00e1cios da Cinderela\u201d, como ela os descreve, com seus tetos altos e lustres, antiguidades incrustadas de ouro, tampos de mesa de madrep\u00e9rola e flores rec\u00e9m-colhidas.<\/p>\n<p>Um dia de trabalho geralmente come\u00e7a \u00e0s 6h30, quando os funcion\u00e1rios preparam o caf\u00e9 da manh\u00e3 para a fam\u00edlia. Althea come assim que a fam\u00edlia termina. Ap\u00f3s a limpeza, elas limpam os quartos e organizam os preparativos para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um trabalho leve porque somos muitas\u201d, ressalva Althea.<\/p>\n<p>As empregadas descansam em seus apartamentos entre 15h e 18h, depois se preparam para o jantar. Assim que os patr\u00f5es terminam a refei\u00e7\u00e3o, seu turno chega ao fim e ela est\u00e1 livre para deixar o complexo, se quiser.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia real n\u00e3o ret\u00e9m seu passaporte. Mas Althea trabalha todos os dias, inclusive nos finais de semana. Ela n\u00e3o tem direito ao dia de folga que a lei do Catar agora deveria garantir, a menos que opte por ficar em casa e n\u00e3o receber. \u00c9 um pre\u00e7o que ela paga para sustentar financeiramente sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mary Grace Morales, uma recrutadora em Manila que conecta funcion\u00e1rios filipinos com fam\u00edlias endinheiradas no Golfo, descreve trabalhar para o pal\u00e1cio como \u201cinvej\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o muitas regalias. A fam\u00edlia \u00e9 generosa\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>\u201cAs meninas engordam enquanto est\u00e3o no pal\u00e1cio. A fam\u00edlia as alimenta bem\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Mas a realeza tem alguns requisitos muito espec\u00edficos, diz Morales.<\/p>\n<p>\u201cAs meninas enviadas para trabalhar para a fam\u00edlia real do Catar t\u00eam entre 24 e 35 anos e s\u00e3o muito bonitas\u201d, diz Morales.<\/p>\n<p>Ela faz uma pausa enquanto conversa comigo por videochamada.<\/p>\n<p>\u201cMais bonita que voc\u00ea\u201d, diz ela, sorrindo.<\/p>\n<p>Mais tarde, envia uma mensagem no WhatsApp para se desculpar, pois seus filhos a escutaram e disseram que ela havia sido rude. Garanto a ela que n\u00e3o fiquei ofendida \u2014 e deixo de mencionar que contratar pessoas com base em sua apar\u00eancia seria ilegal em muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u201cElas precisam ser jovens porque a fam\u00edlia real do Catar precisa de indiv\u00edduos altamente en\u00e9rgicos e saud\u00e1veis que possam lidar com o ambiente movimentado do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u201cE as candidatas t\u00eam que ser bonitas \u2014 muito bonitas\u201d, repete ela.<\/p>\n<p>Joanna Concepcion, da ONG Migrante International, diz esperar que o relato de Althea sobre trabalhar como empregada real seja verdadeiro, mas acrescenta: \u201c\u00c9 improv\u00e1vel que possamos saber com certeza enquanto ela ainda estiver no Catar e trabalhando para uma fam\u00edlia t\u00e3o poderosa\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sustento da fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Alguns funcion\u00e1rios reais se queixaram depois de deixar o pa\u00eds. Em 2019, tr\u00eas trabalhadores brit\u00e2nicos e americanos \u2014 um guarda-costas, um personal trainer e um professor particular \u2014 processaram a irm\u00e3 do emir, Sheikha al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani e seu marido, alegando que foram obrigados a trabalhar longas horas sem horas extras. A fam\u00edlia negou as acusa\u00e7\u00f5es e reivindicou imunidade diplom\u00e1tica quando eles deram entrada no processo em Nova York.<\/p>\n<p>\u201cDenunciar e abordar casos de viol\u00eancia e ass\u00e9dio, falta de seguran\u00e7a e sa\u00fade ocupacional e falta de acomoda\u00e7\u00f5es decentes pode ser um desafio\u201d, diz Ruba Jaradat, diretora regional da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) para os pa\u00edses \u00e1rabes.<\/p>\n<p>A OIT diz que est\u00e1 trabalhando com o Catar para implementar as novas regras que garantem um sal\u00e1rio m\u00ednimo, um dia de folga semanal, licen\u00e7a m\u00e9dica e pagamento de horas extras, embora isso continue sendo \u201cum desafio\u201d.<\/p>\n<p>Althea, em seu pal\u00e1cio real, diz estar feliz apesar das longas horas.<\/p>\n<p>Quando ela for dormir, enviar\u00e1 uma mensagem para um de seus irm\u00e3os ou pais nas Filipinas. Muitas vezes, Althea sente saudades de casa \u2014 um pal\u00e1cio de conto de fadas n\u00e3o \u00e9 um lar.<\/p>\n<p>No entanto, continua a ser uma fonte crucial de renda.<\/p>\n<p>\u201cNunca poderia sustentar minha fam\u00edlia sem este trabalho\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>A BBC questionou a fam\u00edlia real do Catar e a embaixada do Catar em Londres sobre o conte\u00fado desta reportagem, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p>www.ctb.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo 2022 no Catar foi objeto de calorosas pol\u00eamicas e fortes cr\u00edticas ao controvertido pa\u00eds \u00e1rabe, c\u00e9lebre pelo desrespeito aos direitos humanos, misoginia, homofobia e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o. 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