{"id":31320,"date":"2023-04-03T20:40:50","date_gmt":"2023-04-03T23:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=31320"},"modified":"2023-04-03T20:40:50","modified_gmt":"2023-04-03T23:40:50","slug":"abril-vermelho-como-a-reforma-agraria-popular-pode-contribuir-na-superacao-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2023\/04\/03\/abril-vermelho-como-a-reforma-agraria-popular-pode-contribuir-na-superacao-da-fome\/","title":{"rendered":"&#8216;Abril Vermelho&#8217;: como a Reforma Agr\u00e1ria Popular pode contribuir na supera\u00e7\u00e3o da fome?"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>A fome \u00e9 fruto de um fen\u00f4meno social e estrutural que atravessa a nossa hist\u00f3ria\u00a0enquanto povo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>Esse texto se coloca como uma convoca\u00e7\u00e3o para pensar a fome enquanto um problema coletivo, busca\u00a0dialogar e abrir o debate durante o &#8216;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/27\/entenda-por-que-quando-o-mst-faz-uma-ocupacao-nao-e-o-mesmo-que-invasao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Abril Vermelho<\/a>&#8216;,\u00a0dando\u00a0import\u00e2ncia para o tema da\u00a0Reforma Agr\u00e1ria Popular\u00a0e supera\u00e7\u00e3o\u00a0da fome. O texto procura\u00a0tamb\u00e9m apresentar a centralidade da juventude camponesa na constru\u00e7\u00e3o de uma Reforma Agr\u00e1ria capaz de superar a fome.<\/p>\n<p>\u00c9 parte de nossa discuss\u00e3o tratar\u00a0de reconhecer o enunciado da fome como forma de visibilizar o grito de milh\u00f5es de brasileiros que vivem na incerteza da pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o e sustentar na defesa da Soberania Alimentar um projeto oposto ao hegem\u00f4nico. Para tanto, ele est\u00e1 dividido em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es. Sendo a primeira uma abordagem sobre os aspectos hist\u00f3ricos e estruturais da fome no Brasil, a segunda sobre a import\u00e2ncia de uma reforma agr\u00e1ria popular e a terceira onde dialogamos sobre a necessidade de um programa da juventude camponesa para superar a fome.<\/p>\n<p>A fome voltou a ser um problema nacional ap\u00f3s o golpe pol\u00edtico de 2016 e instaura\u00e7\u00e3o de uma agenda neoliberal, em que inclu\u00edam, a Emenda Constitucional 95 mais conhecida como a PEC dos gastos, reforma trabalhista, terceiriza\u00e7\u00e3o, reforma da previd\u00eancia, desindustrializa\u00e7\u00e3o e um verdadeiro desmonte do Estado brasileiro. Destacamos \u00a0o sucateamento do Incra, inviabilizando qualquer possibilidade de Reforma Agr\u00e1ria nesses \u00faltimos 6 anos e o fim do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA) acabando com qualquer pol\u00edtica para a agricultura familiar camponesa.\u00a0O resultado foi a volta do Brasil ao mapa da fome\u00a0com mais de 33 milh\u00f5es de pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o\u00b9, a tamb\u00e9m\u00a0precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, o que\u00a0agravou com a\u00a0pandemia da covid-19, que deixou para tr\u00e1s mais de 600 mil v\u00edtimas em\u00a0uma pol\u00edtica genocida.<\/p>\n<p>A fome \u00e9 fruto de um fen\u00f4meno social e estrutural que atravessa a nossa hist\u00f3ria enquanto povo brasileiro. A heran\u00e7a colonial do latif\u00fandio combinada com monocultura para exporta\u00e7\u00e3o e somada \u00e0 raiz escravocrata, \u00e9 respons\u00e1vel por manter um projeto de fome no Brasil que persiste h\u00e1 s\u00e9culos. Portanto, \u00e9 importante demarcar que a fome no Brasil \u00e9 anterior \u00e0 pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o capitalista tem por natureza mercantilizar os processos de vida, presentes nas rela\u00e7\u00f5es humanas e n\u00e3o humanas. Dessa forma, o alimento \u00e9 mais um produto a circular no mercado sob a l\u00f3gica do capital, como um valor de troca e n\u00e3o de uso, deixando parte da popula\u00e7\u00e3o desfavorecida e sem acesso, mesmo o alimento um direito inerente \u00e0 dignidade humana, al\u00e9m da subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o da fome passa fundamentalmente pela supera\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio com a democratiza\u00e7\u00e3o, por meio de uma Reforma Agr\u00e1ria Popular.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/f654f277a3b0c30d04d95ea381541618.jpeg\" \/><br \/>\nA fome \u00e9 fruto de um fen\u00f4meno social e estrutural que atravessa a nossa hist\u00f3ria\u00a0enquanto povo brasileiro\u00a0\/ T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><strong>Reforma Agr\u00e1ria Popular para superar a fome<\/strong><\/p>\n<p>A luta pela terra est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 quest\u00e3o do combate \u00e0s desigualdades e por sua vez ligado ao combate \u00e0 fome,\u00a0ao passo que, enquanto\u00a0esses importantes atores emergem no cen\u00e1rio nacional,\u00a0a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as permanece desfavor\u00e1vel. O agroneg\u00f3cio brasileiro, nesse per\u00edodo, passou por um grande impulso e alavancou o seu desenvolvimento, avan\u00e7ando na amplia\u00e7\u00e3o do controle das terras e na monocultura para a exporta\u00e7\u00e3o, cada vez mais se conformando enquanto um projeto de poder.<\/p>\n<p>Dessa forma, o primeiro caminho para superar a fome passa pela\u00a0Reforma Agr\u00e1ria Popular. N\u00e3o existe outro caminho que n\u00e3o seja o de democratiza\u00e7\u00e3o da terra, produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis e trabalho cooperado. A luta pela Reforma Agr\u00e1ria se faz necess\u00e1ria para uma mudan\u00e7a radical na estrutura fundi\u00e1ria brasileira. Terra para quem nela trabalha com distribui\u00e7\u00e3o equitativa da terra para a garantia da qualidade de vida dos povos.<\/p>\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o da terra precisa ser combinada de pol\u00edticas p\u00fablicas que possibilitem a promo\u00e7\u00e3o da dignidade para o povo brasileiro. Isso acontecer\u00e1 com incentivos a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, a defesa dos territ\u00f3rios e, consequentemente, a soberania alimentar\u00b2. Portanto, a pauta da Reforma Agr\u00e1ria \u00e9 central para o abastecimento alimentar brasileiro, reside nela a capacidade de obstruir as estruturas sociais alicer\u00e7adas na concentra\u00e7\u00e3o de terras e na desigualdade social.<\/p>\n<p>Algumas pol\u00edticas p\u00fablicas essenciais para \u00a0Reforma Agr\u00e1ria Popular\u00a0s\u00e3o: \u00a0o cr\u00e9dito a juros baixos; fomento a agroindustrializa\u00e7\u00e3o; fortalecimento do mercado institucional\u00b3<em>\u00a0<\/em>\u00a0(PAA e PNAE), para que esses alimentos possam ser ofertados a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de fome; Assessoria t\u00e9cnica garantida e que tenha como fonte de inspira\u00e7\u00e3o a pedagogia Freireana, e com isso seja dial\u00f3gica, comunicativa e emancipadora; a produ\u00e7\u00e3o de Bioinsumos naturais para caminharmos para produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica longe do uso de venenos; Bancos de sementes crioulas, para os agricultores e agricultoras familiares terem autonomia sobre as suas sementes; Cozinhas Populares e Solid\u00e1rias nas periferias brasileiras doando refei\u00e7\u00f5es dignas para a popula\u00e7\u00e3o com fome; fomento ao Cooperativismo. S\u00f3 avan\u00e7aremos no combate \u00e0 fome quando tivermos rela\u00e7\u00f5es de trabalho saud\u00e1veis sem explora\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/b606eb8759c4408998e2263c277346d3.jpeg\" \/><br \/>\nA luta pela terra est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 quest\u00e3o do combate \u00e0s desigualdades e por sua vez ligado ao combate \u00e0 fome\u00a0\/ Foto: Marcelo Ferreira<\/p>\n<p>A Reforma Agr\u00e1ria Popular tamb\u00e9m perpassa a dimens\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es humanas emancipat\u00f3rias, em que LGBTQs, quilombolas, mulheres, popula\u00e7\u00e3o negra e jovens sejam sujeitos de direitos. Portanto, sem a reprodu\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias cometidas pelo machismo, misoginia, LGBTfobia e sem racismo. \u00a0Al\u00e9m disso, precisa refletir sobre a perman\u00eancia da juventude camponesa no campo. N\u00e3o tem como pensar em supera\u00e7\u00e3o da fome e constru\u00e7\u00e3o de soberania alimentar se a juventude continuar migrando do campo para a cidade. Por isso, \u00e9 fundamental um programa para a juventude do campo. Um Programa para a Juventude Camponesa que tenha pol\u00edticas estruturais e estruturantes. Precisamos atualizar o Plano Nacional de Juventude e Sucess\u00e3o Rural \u00a0adequando as necessidades da juventude camponesa nos tempos atuais.<\/p>\n<p>Precisamos de um plano que possibilite na materialidade a supera\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio do saber, com uma educa\u00e7\u00e3o que seja do campo e no campo, que de forma contextualizada forme e eduque os sentidos da juventude camponesa, levando em considera\u00e7\u00e3o, sua rela\u00e7\u00e3o com a terra e com os bens naturais. Precisamos de pol\u00edticas que valorizem e fomentem a cultura camponesa e, onde, a cultura hegem\u00f4nica n\u00e3o seja a do \u201cagro \u00e9 pop\u201d. Por fim, uma Reforma Agr\u00e1ria Popular em que tenha centralidade na juventude e, consequentemente, na produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nesse 1\u00b0 de abril, quando se rememora o golpe civil militar de 1964, reafirmamos que a defesa da democracia brasileira \u00e9 central para n\u00f3s, sobretudo, depois dos atos golpistas e fascistas que aconteceram em Bras\u00edlia no dia 08 de janeiro. Atos esses financiados e protagonizados por setores do agroneg\u00f3cio, assim como foi a participa\u00e7\u00e3o da burguesia agr\u00e1ria em 1964. Ficou claro, mais uma vez, o car\u00e1ter golpista, sin\u00f4nimo de fome e de morte do Agro. A juventude brasileira precisa estar em constante processo de mobiliza\u00e7\u00e3o para defender a democracia, cobrar verdade, mem\u00f3ria e justi\u00e7a. Trata-se de assumir uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e existencial que deve ser garantida pela luta, pela indigna\u00e7\u00e3o, pela contesta\u00e7\u00e3o e pela imensa vontade de manter viva a solidariedade e a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m, mobilizada para exigir Reforma Agr\u00e1ria Popular, atuando no combate das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, denunciando o agro hidromineral e as suas crueldades contra a vida: humana, terrestre, aqu\u00e1tica, animal e vegetal. Ao mesmo tempo, plantar \u00e1rvores, construir sistemas agroflorestais, produzir alimentos saud\u00e1veis e os tornar acess\u00edveis ao povo atrav\u00e9s das feiras agroecol\u00f3gicas, de redes de comercializa\u00e7\u00e3o e do mercado institucional. A juventude camponesa precisa voltar a poder ter o direito a sonhar com a op\u00e7\u00e3o de \u00a0permanecer no campo, para tanto, terra e p\u00e3o s\u00e3o indispens\u00e1veis, para se ter dignidade!<\/p>\n<p>Portanto, a supera\u00e7\u00e3o da fome e a promo\u00e7\u00e3o da dignidade humana passa fundamentalmente pela Reforma Agr\u00e1ria Popular!<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/<em>Paulo Rom\u00e1rio de Lima, dire\u00e7\u00e3o estadual do MST-PB, assessoria nacional da PJR; <\/em><em>\u00a0Larissa de Padilha Brito, educadora no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Josu\u00e9 de Castro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fome \u00e9 fruto de um fen\u00f4meno social e estrutural que atravessa a nossa hist\u00f3ria\u00a0enquanto povo brasileiro Esse texto se coloca como uma convoca\u00e7\u00e3o para pensar a fome enquanto um problema coletivo, busca\u00a0dialogar e abrir o debate durante o &#8216;Abril Vermelho&#8216;,\u00a0dando\u00a0import\u00e2ncia para o tema da\u00a0Reforma Agr\u00e1ria Popular\u00a0e supera\u00e7\u00e3o\u00a0da fome. 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