{"id":31619,"date":"2023-05-08T18:07:33","date_gmt":"2023-05-08T21:07:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=31619"},"modified":"2023-05-08T18:07:33","modified_gmt":"2023-05-08T21:07:33","slug":"artigo-por-que-o-mst-assusta-tanto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2023\/05\/08\/artigo-por-que-o-mst-assusta-tanto\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Por que o MST assusta tanto?"},"content":{"rendered":"<p><strong>No artigo, o frade dominicano, jornalista e escritor Frei Betto fala sobre o trabalho do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que hoje congrega cerca de 500 mil fam\u00edlias assentadas e 100 mil acampadas.<\/strong><\/p>\n<p>O MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que vi nascer e ao qual permane\u00e7o vinculado, \u00e9 o mais popular, combativo e democr\u00e1tico movimento popular do Brasil. Congrega, hoje, cerca de 500 mil fam\u00edlias assentadas e 100 mil acampadas. Luta por um direito elementar, jamais efetivado no Brasil, um pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais e onde h\u00e1 muita gente sem terra e muita terra sem gente &#8211; a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9, no m\u00ednimo, uma vergonha constatar que no s\u00e9culo XXI os \u00fanicos pa\u00edses que n\u00e3o fizeram reforma agr\u00e1ria na Am\u00e9rica Latina foram Brasil, Argentina e Uruguai. O modelo de propriedade da terra que ainda perdura em nosso pa\u00eds \u00e9 o das capitanias heredit\u00e1rias. E a rela\u00e7\u00e3o de muitos propriet\u00e1rios de terras com seus empregados pouco difere dos tempos de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Nascido em 1984 e prestes a completar 40 anos em 2024, o MST sabe, desde seus prim\u00f3rdios, que governo \u00e9 como feij\u00e3o, s\u00f3 funciona na panela de press\u00e3o&#8230; Ainda que tenha contribu\u00eddo decisivamente para eleger Lula presidente, o MST jamais se deixou cooptar pelo governo. Mant\u00e9m a sua autonomia e sabe muito bem que a rela\u00e7\u00e3o de governo com movimentos sociais n\u00e3o pode ser de \u201ccorreia de transmiss\u00e3o\u201d e, sim, de representa\u00e7\u00e3o das bases sociais junto \u00e0s inst\u00e2ncias governamentais. Muitos pol\u00edticos enchem a boca com a palavra \u201cdemocracia\u201d, mas temem que passe de mera ret\u00f3rica para ser, de fato, um governo cujo principal protagonista \u00e9 o povo organizado.<\/p>\n<p>O MST se destaca tamb\u00e9m pelo cuidado que dedica \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de seus militantes, o que muitos movimentos e partidos de esquerda negligenciam. Os sem-terra mant\u00eam, inclusive, um espa\u00e7o pr\u00f3prio para o trabalho pedag\u00f3gico, a Escola Florestan Fernandes, em Guararema (SP). E em todos os eventos que promove, o movimento valoriza a \u201cm\u00edstica\u201d, ou seja, atividades l\u00fadicas (cantos, hinos, pain\u00e9is etc.) e s\u00edmbolos (fotos, artesanato etc.) de car\u00e1ter emulador.<\/p>\n<p>O MST segue rigorosamente os ditames da Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988. A Carta defende o uso social da terra, que deve respeitar o meio ambiente e ser produtiva. E exige algo ainda em compasso de espera e imprescind\u00edvel se o Brasil quiser alcan\u00e7ar o desenvolvimento sustent\u00e1vel e abandonar sua submiss\u00e3o aos ditames das na\u00e7\u00f5es metropolitanas, que nos imp\u00f5em a mera condi\u00e7\u00e3o de exportadores de produtos prim\u00e1rios, hoje elegantemente chamados de commodities&#8230;<\/p>\n<p>Ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o. Jamais o MST ocupa terras produtivas. Hoje, o movimento \u00e9 o maior produtor de arroz org\u00e2nico na Am\u00e9rica Latina e defende a Reforma Agr\u00e1ria Agroecol\u00f3gica, capaz de facilitar o acesso \u00e0 terra como direito humano; produzir alimento saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel para toda a sociedade brasileira; oferecer ao mercado \u00a0alimentos salubres e livres de agrot\u00f3xicos; valorizar o papel da mulher trabalhadora do campo; expandir o n\u00famero de cooperativas de agroecologia; e ampliar a soberania e a biodiversidade alimentares no combate \u00e0 fome e \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>A campanha do \u201cAbril Vermelho\u201d n\u00e3o usa o adjetivo como evoca\u00e7\u00e3o da cor preferida dos s\u00edmbolos comunistas (e, tamb\u00e9m, das vestes solenes dos cardeais), como querem interpretar os detratores do MST. \u00c9, sim, a cor do sangue dos 19 sem-terra cruelmente assassinados pela Pol\u00edcia Militar em Eldorado dos Caraj\u00e1s, no sul do Par\u00e1, a 17 de abril de 1996. Sete v\u00edtimas foram mortas por foices e fac\u00f5es, e os demais por tiros \u00e0 queima-roupa.<\/p>\n<p>Cerca de 100 mil fam\u00edlias aguardam assentamento no Brasil. E \u00e9 no m\u00ednimo um desservi\u00e7o o agroneg\u00f3cio promover o desmatamento de nossas florestas para expandir a fronteira agr\u00edcola, usufruir de isen\u00e7\u00e3o fiscal na exporta\u00e7\u00e3o de seus produtos e concentrar sua produ\u00e7\u00e3o em apenas cinco mercadorias: soja, milho, trigo, arroz e carne, controladas por grandes empresas transnacionais.<\/p>\n<p>A fome cresce no mundo. J\u00e1 s\u00e3o quase 1 bilh\u00e3o de pessoas afetadas. E isso n\u00e3o resulta da falta de alimentos. O planeta produz o suficiente para alimentar 12 bilh\u00f5es de bocas. Resulta da falta de justi\u00e7a. No sistema capitalista, o faminto morre na cal\u00e7ada \u00e0 porta do supermercado. Porque o alimento tem valor de troca e n\u00e3o de uso. Ora, enquanto a produ\u00e7\u00e3o alimentar n\u00e3o seguir os padr\u00f5es agroecol\u00f3gicos e a terra e a \u00e1gua, recursos naturais limitados, n\u00e3o forem considerados patrim\u00f4nios da humanidade, a desigualdade tende a se agravar e, com ela, toda sorte de conflitos. Paz rima com p\u00e3o.<\/p>\n<p>O MST assusta tanto porque luta para que o Brasil, uma das na\u00e7\u00f5es mais ricas do mundo, e que figura entre as cindo maiores produtoras de alimentos, deixe de ser um pa\u00eds perif\u00e9rico, colonizado, marcado por abissal desigualdade social.<\/p>\n<p>Tomara que, um dia, nunca mais se torne realidade os versos cantados por Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto em \u201cFuneral de um lavrador\u201d: \u201cN\u00e3o \u00e9 cova grande \/ \u00c9 cova medida \/ \u00c9 a terra que querias \/ Ver dividida\u201d.<\/p>\n<p><em>* Carlos Alberto Lib\u00e2nio Christo, Frei Betto, \u00e9 frade dominicano, jornalista e escritor<\/em><\/p>\n<p>www.bancariosbahia.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No artigo, o frade dominicano, jornalista e escritor Frei Betto fala sobre o trabalho do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que hoje congrega cerca de 500 mil fam\u00edlias assentadas e 100 mil acampadas. 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