{"id":32138,"date":"2023-06-19T19:35:52","date_gmt":"2023-06-19T22:35:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=32138"},"modified":"2023-06-19T19:35:52","modified_gmt":"2023-06-19T22:35:52","slug":"vozes-silenciadas-quem-quer-calar-a-luta-dos-sem-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2023\/06\/19\/vozes-silenciadas-quem-quer-calar-a-luta-dos-sem-terra\/","title":{"rendered":"Vozes silenciadas: quem quer calar a luta dos sem-terra?"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Intervozes analisa a cobertura da imprensa sobre a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito criada para perseguir o MST<\/strong><\/p>\n<p>Desde o \u00faltimo 17 de maio, a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o da luta pela terra no Brasil ganhou mais um cap\u00edtulo. Neste dia, foi instalada, na C\u00e2mara dos Deputados, uma CPI sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Com tudo que representa o MST e a composi\u00e7\u00e3o extremamente conservadora do Congresso Nacional, o Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social decidiu monitorar a cobertura da imprensa sobre o tema.<\/p>\n<p>Nesta nova edi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie Vozes Silenciadas, retomamos o assunto da nossa primeira publica\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie, lan\u00e7ada em 2011 acerca da ent\u00e3o Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito (CPMI) sobre o MST. Desta vez, acompanhamos a cobertura simultaneamente com o desenrolar dos acontecimentos. Em parceria com o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, a partir de hoje, vamos publicar artigos semanais para compartilhar este monitoramento.<\/p>\n<p>Nossa an\u00e1lise inclui o acompanhamento da vers\u00e3o online dos impressos\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>,<em>\u00a0Folha de S. Paulo\u00a0<\/em>e<em>\u00a0O Globo<\/em>; do\u00a0<em>Jornal Nacional<\/em>; dos portais<em>\u00a0R7<\/em>, do\u00a0<em>Grupo Record<\/em>, e\u00a0<em>Agromais<\/em>, do\u00a0<em>Grupo Bandeirantes<\/em>; e da\u00a0<em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>, ve\u00edculo da (t\u00e3o massacrada no per\u00edodo recente) comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Na primeira etapa desta pesquisa que se inicia agora, ainda antes do in\u00edcio da CPI de 2023, vimos nos dias 17 e 18 de abril que 100% das mat\u00e9rias utilizam termos que criminalizam o MST: &#8220;invasores&#8221;, &#8220;barb\u00e1rie&#8221;, &#8220;atos criminosos&#8221;, &#8220;invadiu propriedades&#8221;, &#8220;invas\u00e3o de terras&#8221;, &#8220;crime&#8221;, &#8220;MST invade fazendas&#8221;, &#8220;a invas\u00e3o traz preju\u00edzos&#8221;, &#8220;a invas\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 prejudicando&#8221;, &#8220;invas\u00f5es em abril&#8221;. As mat\u00e9rias causam as seguintes impress\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao Movimento: 86,4% negativa; 9,1% equilibrada; 0% positiva e, em 4,5%, n\u00e3o houve posicionamentos mais expl\u00edcitos que nos permitissem identificar.<\/p>\n<p>Nas mat\u00e9rias analisadas, 66% das fontes ouvidas s\u00e3o contr\u00e1rias ao movimento, enquanto 34% fazem um contraponto. Em 24% das mat\u00e9rias, apenas ataques ao MST foram publicados. Em mais da metade da cobertura (52%), \u00e9 produzido um discurso em prol da propriedade privada. Enquanto isso, apenas 4,5% contextualizam a reforma agr\u00e1ria; somente 29% discutem temas como grilagem de terras, agrot\u00f3xicos e crimes ambientais e apenas 18% das mat\u00e9rias abordam a agricultura familiar e cuidados com o meio ambiente.<\/p>\n<p>A escolha dos dias desta primeira etapa da an\u00e1lise buscou incluir a cobertura sobre a jornada de lutas intitulada pelo MST de &#8220;Abril Vermelho&#8221;: uma forma de dar visibilidade \u00e0 necessidade da reforma agr\u00e1ria e lembrar o massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, ocorrido no dia 17 de abril de 1996, no sul do Par\u00e1, quando 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados.<\/p>\n<p>Temos alguns aprendizados que trazemos do Vozes Silenciadas de 2011 e de nossas conversas com o MST, como o fato de percebermos que antes do per\u00edodo de funcionamento da Comiss\u00e3o j\u00e1 se formava uma narrativa importante. Naquele per\u00edodo, a criminaliza\u00e7\u00e3o do MST se deu principalmente na prepara\u00e7\u00e3o para a Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito (CPMI). Depois de instalada, ela n\u00e3o foi o foco da cobertura, tendo prevalecido o tema das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2010 (disputada, no segundo turno, por Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Serra). O Abril Vermelho foi o tema relacionado ao MST que mais ganhou destaque (ainda assim, apenas 42 mat\u00e9rias de um total de 301; 24 delas citavam atos violentos dos quais o MST era colocado como autor, seja de forma direta ou atrav\u00e9s de varia\u00e7\u00f5es da palavra &#8220;invas\u00e3o&#8217;. Ou seja, o fato de os sem-terra terem sido assassinados em 1996 n\u00e3o era mencionado na maioria dos casos).<\/p>\n<p>Portanto, em 2023, quisemos tamb\u00e9m analisar como foi a repercuss\u00e3o do Abril Vermelho, n\u00e3o s\u00f3 pela sua relev\u00e2ncia para o Movimento, mas tamb\u00e9m por ser o per\u00edodo em que estavam ainda em gesta\u00e7\u00e3o as propostas da bancada ruralista para investigar o MST.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Falta diversidade no campo e na m\u00eddia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voltar a estudar uma CPI do MST traz uma reflex\u00e3o importante sobre o per\u00edodo que vivemos. Afinal, ap\u00f3s a derrota de Jair Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, deixando para tr\u00e1s um per\u00edodo de pouca transpar\u00eancia e grande investimento em estrat\u00e9gias de desinforma\u00e7\u00e3o por sujeitos pol\u00edticos de relev\u00e2ncia nacional, surgiu uma esperan\u00e7a de que o Brasil poderia exercer um papel de lideran\u00e7a internacional no enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e na defesa de biomas como o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e do dilema da propriedade, \u00e9 importante destacar que os sem-terra assumiram a bandeira da agroecologia e passaram a ser refer\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de produtos org\u00e2nicos e saud\u00e1veis, atrav\u00e9s de feiras e espa\u00e7os alternativos como os Armaz\u00e9ns do Campo. Seria uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia da pauta ambiental no mundo a cria\u00e7\u00e3o de CPIs como a do MST e mais recentemente uma voltada para fiscalizar ONGs que atuam na Amaz\u00f4nia?<\/p>\n<p>A disputa ideol\u00f3gica pela reforma agr\u00e1ria ganha tamb\u00e9m a companhia de temas como a prote\u00e7\u00e3o dos biomas e dos povos origin\u00e1rios j\u00e1 t\u00e3o associados aos sem-terra. No outro lado, est\u00e3o pol\u00edticos e empres\u00e1rios que defendem a propriedade privada, organizados em grupos poderosos como a Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA). Mesmo que as diversas CPIs com tem\u00e1ticas ambientais n\u00e3o sejam uma estrat\u00e9gia de gerar pautas negativas sobre o tema, \u00e9 evidente que o caminho ser\u00e1 longo e tortuoso para o Brasil se tornar refer\u00eancia mundial no debate das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de estrat\u00e9gias sustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e regenera\u00e7\u00e3o dos solos desertificados.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 importante pensarmos em um termo que vem sendo utilizado no cotidiano pela m\u00eddia. O que \u00e9 &#8220;agro&#8221;? Originalmente, existiam milhares de culturas agr\u00edcolas. Conforme descrito pelo engenheiro agr\u00f4nomo e analista ambiental Walter Steenbock, no livro\u00a0<em>A Arte de Guardar o Sol<\/em>, estas culturas se associavam em diferentes biomas, mas representavam s\u00edmbolos dos povos t\u00e3o ricos como a gastronomia, a m\u00fasica ou o modo de vida de uma regi\u00e3o. A partir da d\u00e9cada de 1950, a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde passa a propagar uma tecnologia que industrializa o modo de fazer produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e aproveita os restos de ind\u00fastrias como a da guerra e a da minera\u00e7\u00e3o: \u00e9 a chamada agricultura industrial com agrot\u00f3xicos, fertilizantes e outros produtos qu\u00edmicos, financiada por empresas que apoiaram diversas ditaduras na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O crescimento na regi\u00e3o do movimento agroecol\u00f3gico \u00e9 impulsionado no Brasil pelo MST, que j\u00e1 tinha pr\u00e1ticas e din\u00e2micas ambientais e assume no seu VI Congresso em 2014 que a \u00fanica possibilidade para a agricultura brasileira que responda aos anseios e necessidades do povo passa n\u00e3o somente pela reforma agr\u00e1ria, mas tamb\u00e9m pela soberania alimentar e pela agroecologia. Portanto, s\u00e3o quase dez anos desde que o MST assumiu como bandeira a luta por agriculturas diversas, que incluem o feminismo e o debate de g\u00eanero e se contrap\u00f5em \u00e0s monoculturas do &#8220;agro&#8221;.<\/p>\n<p>Portanto, o termo &#8220;agro&#8221;\u00a0n\u00e3o \u00e9 tudo e parece simbolizar um reducionismo que tenta dificultar a compreens\u00e3o das disputas ideol\u00f3gicas do presente. As agriculturas das centenas de povos ind\u00edgenas brasileiros, das comunidades que receberam influ\u00eancia das diversas etnias que vieram para o Brasil da \u00c1frica, formam um conjunto riqu\u00edssimo e \u00fanico de agriculturas (silenciadas ou n\u00e3o). O termo &#8220;agro&#8221;\u00a0n\u00e3o somente vem sendo utilizado como forma de afirmar a uniformiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas atrav\u00e9s dos produtos qu\u00edmicos, mas tamb\u00e9m de silenciar as din\u00e2micas riqu\u00edssimas que hoje s\u00e3o vistas como fundamentais para o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como a dos sistemas agroflorestais ind\u00edgenas em biomas brasileiros como o Cerrado, a Caatinga e a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O &#8220;agro&#8221;, portanto, longe de ser pop, est\u00e1 associado a poderes pol\u00edticos, econ\u00f4micos e culturais. Parte dos donos do agroneg\u00f3cio, por exemplo, s\u00e3o tamb\u00e9m donos da m\u00eddia, como apontamos na pesquisa MOM Brazil e iremos abordar em nossas pr\u00f3ximas an\u00e1lises. Dessa forma, a aus\u00eancia de diversidade na propriedade no campo e o silenciamento das agriculturas e conhecimentos tradicionais e ancestrais tamb\u00e9m est\u00e3o relacionados \u00e0 inexist\u00eancia de pluralidade de vis\u00f5es de mundo na m\u00eddia. A falta de espa\u00e7o \u2013 ou silenciamento \u2013 das bandeiras de luta dos movimentos sociais, muitas descontextualizadas pela imprensa, \u00e9 simb\u00f3lica da viola\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e do direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o de parcela significativa da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/ Eduardo Amorim, jornalista, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela UFPE e associado ao Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intervozes analisa a cobertura da imprensa sobre a Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito criada para perseguir o MST Desde o \u00faltimo 17 de maio, a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o da luta pela terra no Brasil ganhou mais um cap\u00edtulo. Neste dia, foi instalada, na C\u00e2mara dos Deputados, uma CPI sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). 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