{"id":3360,"date":"2018-11-13T00:28:58","date_gmt":"2018-11-13T02:28:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=3360"},"modified":"2018-11-13T00:37:50","modified_gmt":"2018-11-13T02:37:50","slug":"sociologo-robson-camara-analisa-os-130-anos-da-abolicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2018\/11\/13\/sociologo-robson-camara-analisa-os-130-anos-da-abolicao\/","title":{"rendered":"Soci\u00f3logo Robson Camara analisa os 130 anos da Aboli\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3361\" aria-describedby=\"caption-attachment-3361\" style=\"width: 332px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3361\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robson-camara-3-300x148.jpg\" alt=\"\" width=\"332\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robson-camara-3-300x148.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robson-camara-3-768x379.jpg 768w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/robson-camara-3.jpg 790w\" sizes=\"auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3361\" class=\"wp-caption-text\">Soci\u00f3logo Robson Camara<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O Portal CTB lan\u00e7a a partir desta segunda-feira (12) uma s\u00e9rie especial de artigos e reportagens para marcar o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, celebrado no dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi, o principal l\u00edder do Quilombo dos Palmares, o mais longevo e conhecido da hist\u00f3ria do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Abre este especial uma entrevista com o professor Robson Camara sobre os 130 anos da Aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil.\u00a0Camara \u00e9 doutor em Sociologia pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), com pesquisa na \u00e1rea de Sociologia do Trabalho e da Educa\u00e7\u00e3o e secret\u00e1rio de Forma\u00e7\u00e3o da CTB-DF. Ele\u00a0destaca a marginaliza\u00e7\u00e3o em pleno s\u00e9culo 21 pelos descendentes dos seres humanos escravizados, vindos da \u00c1frica em condi\u00e7\u00f5es desumanas nos por\u00f5es dos navios negreiros.<\/p>\n<p>\u201cSer colocado no por\u00e3o de um navio e atravessar o Atl\u00e2ntico em condi\u00e7\u00f5es insalubres \u00e9 um ato passivo? Volunt\u00e1rio?\u201d, questiona ao lembrar que o presidente eleito Jair Bolsonaro afirmou que os pr\u00f3prios africanos \u00e9 que se entregaram \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Camara tem ainda est\u00e1gio doutoral no Centro de Estudos Interdisciplinares em Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento (CeiED) da Universidade de Humanidades e Tecnologia (ULHT), de Lisboa\/Portugal e \u00e9 Mestre em Educa\u00e7\u00e3o (UnB). Al\u00e9m de ser membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho (GEPT) do Departamento de Sociologia da UnB, ligado ao Instituto de Ci\u00eancias Sociais (ICS). \u00c9 tamb\u00e9m professor da Escola de Aperfei\u00e7oamento dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o (EAPE).<\/p>\n<p>Na entrevista ele diz tamb\u00e9m que a Aboli\u00e7\u00e3o foi inconclusa para amainar a f\u00faria da elite escravocrata e frear o avan\u00e7o dos setores mais avan\u00e7ados contra o escravismo e por isso\u00a0deixou a desejar do ponto de vista humano e de justi\u00e7a social. \u201cA Aboli\u00e7\u00e3o veio para desfazer essa tens\u00e3o, essa panela de press\u00e3o, mas n\u00e3o resolveu o problema do negro. Objetivamente, n\u00e3o houve contrapartida do Estado brasileiro. Nos soltaram \u00e0 pr\u00f3pria sorte\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>A de \u00d3<\/em>, do disco &#8220;Missa dos Quilombos&#8221;, de Milton Nascimento, Pedro Tierra e Dom Pedro Casald\u00e1liga<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/igoIWAi3Nyo\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Leia a entrevista na \u00edntegra abaixo:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Portal CTB: Nos 130 anos da Aboli\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o negra se sente reparada pelo Estado e pela sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Robson Camara:<\/strong>\u00a0Em primeiro lugar, temos que compreender o processo de Aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o sobre a perspectiva econ\u00f4mica e socio-hist\u00f3rica. Como nos ensina Cl\u00f3vis Moura, em sua obra\u00a0<em>Dial\u00e9tica Radical do Brasil Negro<\/em>, que o escravismo estava dentro da l\u00f3gica do processo de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza, primeiramente para a metr\u00f3pole e depois para elite econ\u00f4mica do pa\u00eds, do s\u00e9culo 16 at\u00e9 1888 (em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei \u00c1urea, pondo fim \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil, que foi o \u00faltimo pa\u00eds do Ociedente a faz\u00ea-lo).<\/p>\n<p>Os escravizados eram o capital fixo (marxianamente falando) da engrenagem da economia pol\u00edtica brasileira. Outro autor, Jacob Gorender afirma que temos que ver que a pr\u00f3pria Lei \u00c1urea n\u00e3o garantia indeniza\u00e7\u00e3o para os escravizados, mas \u00e0queles que haviam se beneficiado pelo processo de escraviza\u00e7\u00e3o de seres humanos ao garantir-lhes indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o os elementos econ\u00f4micos se expressando em ato pol\u00edtico. Foi o que fez Ruy Barbosa (No dia 14 de dezembro de 1890, ele determinou que dever\u00edamos queimar livros de matr\u00edcula, de controle aduaneiro e de recolhimento de tributos que envolvessem pessoas escravizadas. Documentos que estavam no minist\u00e9rio da Fazenda). Como mostra uma mat\u00e9ria publicada no jornal conservador \u201cO Estado de S. Paulo\u201d, de 19\/12\/1890, onde diz que \u201cO\u00a0<em>Di\u00e1rio Oficial<\/em>\u00a0publicou ontem uma resolu\u00e7\u00e3o do governo no sentido de fazer desaparecer os \u00faltimos vest\u00edgios da escravid\u00e3o representados pelos diversos documentos existentes nas reparti\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Fazenda\u201d. O que existia por tr\u00e1s disso era impossibilitar documentalmente a indeniza\u00e7\u00e3o do Estado aos senhores propriet\u00e1rios de escravizados.<\/p>\n<p><strong>Isso significa que os ex-escravos foram abandonados pelo Estado?<\/strong><\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que os escravizados, com a Aboli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tiveram direito a indeniza\u00e7\u00e3o, nem a terra e nem a educa\u00e7\u00e3o ou qualquer outro benef\u00edcio social da suposta liberdade. Digo suposta, porque entendo a liberdade como exerc\u00edcio da cidadania. E n\u00e3o a liberdade de morrer de fome, de n\u00e3o ter sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o ter onde morar. Foi isso o que aconteceu com os escravizados.<\/p>\n<p><strong>De qualquer forma, a Aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi uma simples concess\u00e3o do sistema n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. J\u00e1 existia uma press\u00e3o nas senzalas e grandes quilombos se formavam pelo Brasil. Os escravocratas j\u00e1 tinham not\u00edcia do que ocorreu no Haiti. E temiam que aqui ocorresse o mesmo. A popula\u00e7\u00e3o negra j\u00e1 era maior que a popula\u00e7\u00e3o branca. A Aboli\u00e7\u00e3o veio para desfazer essa tens\u00e3o, essa panela de press\u00e3o, mas n\u00e3o resolveu o problema do negro. Objetivamente, n\u00e3o houve contrapartida do Estado brasileiro. Nos soltaram \u00e0 pr\u00f3pria sorte.Certamente a luta dos escravos foi intensa para a supera\u00e7\u00e3o do escravagismo, mas houve concilia\u00e7\u00e3o das elites nacionais e internacionais para impedir maiores progressos.<\/p>\n<p><strong>Quais as consequ\u00eancias dessa Aboli\u00e7\u00e3o na vida da popula\u00e7\u00e3o negra atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>A desigualdade social que submete o povo negro ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 a prova maior que a d\u00edvida hist\u00f3rica n\u00e3o foi paga. Basta ver os indicadores sociais e onde est\u00e1 o negro na pir\u00e2mide social; nos dados estat\u00edsticos sobre educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia e a qualidade de emprego, que dignamente exerce, est\u00e3o sempre nas extremidades de baixo.<\/p>\n<p>As marcas da escravid\u00e3o ainda est\u00e3o presentes. As consequ\u00eancias s\u00e3o, por exemplo, ser o maior n\u00famero da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, ser aqueles que ganham menos na escala salarial e o menor n\u00famero de professores universit\u00e1rios, para citar alguns casos. Fomos exclu\u00eddos e substitu\u00eddos por trabalhadores europeus quando a m\u00e3o de obra livre se tornou predominante.<\/p>\n<p>Isso teve grande impulso com a Aboli\u00e7\u00e3o. Tudo isso foi refor\u00e7ando a desigualdade hist\u00f3rica e ainda h\u00e1 resist\u00eancia a essa repara\u00e7\u00e3o. O governo Lula foi fundamental em lan\u00e7ar um olhar diferenciado para saldar essa d\u00edvida hist\u00f3rica e teve continuidade no governo Dilma.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3362\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/algemas-negros-libertacao-escravos-300x203.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/algemas-negros-libertacao-escravos-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/algemas-negros-libertacao-escravos-768x519.jpg 768w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/algemas-negros-libertacao-escravos.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Ent\u00e3o a Aboli\u00e7\u00e3o tirou os escravizados da senzala e os jogou na rua?<\/strong><\/p>\n<p>Como disse anteriormente, essa liberdade foi relativa. Liberdade para sofrer a exclus\u00e3o social e se tornar um sujeito de segunda classe em uma pa\u00eds que insiste em n\u00e3o pagar a sua d\u00edvida hist\u00f3rica. Tivemos avan\u00e7os, mas que est\u00e3o constantemente amea\u00e7ados pelo conservadorismo que utiliza artif\u00edcios ret\u00f3ricos para negar a d\u00edvida hist\u00f3rica com a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 correto dizer que nada mudou?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. A grande mudan\u00e7a que tenho visto \u00e9 a crescente autodenomina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao identificar-se como negra. Isso ganhou for\u00e7a com as pol\u00edticas de cotas. N\u00e3o percebo como oportunismo, como tem sido acusado por alguns setores que fazem oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa.<\/p>\n<p><strong>A atua\u00e7\u00e3o do movimento negro valoriza a luta antirracista?<\/strong><\/p>\n<p>Os movimentos sociais em defesa da igualdade, como a Unegro (Uni\u00e3o de Negros e Negras pela Igualdade), t\u00eam feito lutas e problematiza\u00e7\u00f5es importantes. Tivemos a Seppir (Secretaria de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial) com status de minist\u00e9rio em governos democr\u00e1ticos e populares, o que fez que o modelo fosse copiado por v\u00e1rios governos para empreender pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a quest\u00e3o com conselhos e secret\u00e1rias de estado.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de cotas \u00e9 face mais contundente desse processo. Levou negros para as universidades e para os empregos p\u00fablicos. Isso permitir\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o de uma classe m\u00e9dia negra e, qui\u00e7\u00e1, politizada. Como isso \u00e9 percebido pelos defensores da meritocracia (que de m\u00e9rito n\u00e3o tem nada), eles reagem para se perpetuarem nos espa\u00e7os sociais e econ\u00f4micos em condi\u00e7\u00f5es privilegiadas em detrimento dos negros que t\u00eam o seu ponto de partida na escala social bem mais atr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Tem gente defendendo que os negros aceitavam passivamente a escravid\u00e3o, isso \u00e9 verdade? Quais os n\u00edveis de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, teve um candidato que disse que n\u00e3o tinha d\u00edvida hist\u00f3rica com o povo negro, pois nunca escravizou ningu\u00e9m. E sugeriu que os negros entraram nos navios negreiros quase que voluntariamente, um absurdo. Isso demonstra como o conservadorismo compreende a processo de Aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Que n\u00e3o h\u00e1 d\u00edvida hist\u00f3rica, que n\u00e3o precisa de cotas. \u00c9 por esse caminho que o discurso conservador tenta justificar o seu contraponto \u00e0s pol\u00edticas afirmativas. Ou seja, s\u00e3o, contra as pol\u00edticas que buscam reparar essa d\u00edvida. O escravagismo ainda n\u00e3o foi superado pelas elites.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o n\u00e3o foi uma situa\u00e7\u00e3o passiva, muito ao contr\u00e1rio. Ela foi violenta. Ser colocado no por\u00e3o de um navio e atravessar o Atl\u00e2ntico em condi\u00e7\u00f5es insalubres \u00e9 um ato passivo? Volunt\u00e1rio?<\/p>\n<p><strong>Essa ret\u00f3rica visa justificar o racismo?<\/strong><\/p>\n<p>Esse discurso visa justificar o n\u00e3o compromisso com direitos humanos fundamentais e reverter os avan\u00e7os que houveram. \u00c9 a luta pela conserva\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os e impor sua hegemonia nos espa\u00e7os historicamente ocupados pela elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica que tinham as universidades e empregos p\u00fablicos de maior proje\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica como deles.<\/p>\n<p><strong><em>As Caravanas<\/em>, de Chico Buarque<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6TtjniGQqAc\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>\u00c9 importante compreender a di\u00e1spora negra para avan\u00e7ar na luta antirracista?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, sem d\u00favida. A di\u00e1spora negra representa o apartamento violento de toda uma coletividade e toda uma cultura para o outro lado do Atl\u00e2ntico para, de homens e mulheres livres, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escravos. Mesmo aqueles que eram prisioneiros de guerras intertribais, de na\u00e7\u00f5es africanas n\u00e3o poderiam ter um destino t\u00e3o vil. Isso muito foi incentivado e oportunizado pelas pot\u00eancias imperiais que viam no mercado negreiro uma grande fonte de lucros.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer o contexto da di\u00e1spora negra. A luta antirracista \u00e9 a busca de direitos para que a igualdade social seja de fato exercida e praticada. O Brasil \u00e9 uma pa\u00eds desigual, mas a desigualdade mais contundente ocorre com os negros e todos aqueles que n\u00e3o se enquadram na perspectiva do bi\u00f3tipo branco de cor de pele. Os asi\u00e1ticos, por exemplo, parecem ter melhor sorte que n\u00f3s. Os negros s\u00e3o estigmatizados at\u00e9 hoje por sua cor. A luta antirracista \u00e9 cavar o espa\u00e7o social que merecemos.<\/p>\n<p><strong>Por que a elite menospreza a influ\u00eancia africana na<\/strong><strong>\u00a0forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Temos que lembrar que desde a coloniza\u00e7\u00e3o, a proposta era catequizar o \u00edndio e apart\u00e1-lo das suas cren\u00e7as originais. J\u00e1 come\u00e7a nas religi\u00f5es para impor\u00a0 a cultura do dominador. O Deus crist\u00e3o era o \u00fanico verdadeiro e subjugava todos os outros. Foi esse mesmo Deus crist\u00e3o que foi utilizado para definir que as religi\u00f5es africanas eram pag\u00e3s e que precisavam ser cristianizadas. A escraviza\u00e7\u00e3o era uma forma de depura\u00e7\u00e3o desse paganismo demon\u00edaco sob essa \u00e9tica da igreja.<\/p>\n<p><strong>Mas a resist\u00eancia se fez forte e inteligente.<\/strong><\/p>\n<p>O sincretismo religioso foi a forma encontrada pelos negros em manter sua religi\u00e3o encapsulada pelos santos cat\u00f3licos. O candombl\u00e9 e a umbanda resistiram nesse contexto de hegemonia do cristianismo. As religi\u00f5es de matrizes africanas sobreviveram a todas as persegui\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e sobreviveram. Somente com o a emenda na Constitui\u00e7\u00e3o de 1946, o ent\u00e3o deputado Jorge Amado, conseguiu inserir a liberdade religiosa no nosso marco legal.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o fez, necessariamente, com que as discrimina\u00e7\u00f5es das religi\u00f5es de matriz africana cessassem.<\/p>\n<p><strong>Com o golpe de 2016, as religi\u00f5es de matriz africana passaram a ser perseguidas com mais agressividade. Isso faz parte da implanta\u00e7\u00e3o de um projeto autorit\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma disputa por esse espa\u00e7o religioso como um projeto de poder. Boa parte do povo deposita sua f\u00e9 nos orix\u00e1s e nos caboclos, entre outras varia\u00e7\u00f5es que n\u00e3o saberia enumerar aqui. Mas o mercado da f\u00e9, atualmente, tem como alvo preferencial as religi\u00f5es de matriz africana tentando impor um s\u00f3 Deus dentro das tradi\u00e7\u00f5es judaico-crist\u00e3.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia cultural continua. Ela est\u00e1 presente na forma\u00e7\u00e3o social do povo. Hoje, n\u00e3o s\u00f3 negros devotam sua f\u00e9 \u00e0s divindades de matriz africana, mas um amplo espectro social. Isso foge do controle. Essas pessoas t\u00eam mais autonomia sobre suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, pois comp\u00f5em um n\u00facleo de resist\u00eancia cultural que se espraia na m\u00fasica, na dan\u00e7a, nas comidas e nas rela\u00e7\u00f5es sociais do nosso povo.<\/p>\n<p><strong>Que perspectivas v\u00ea com o acesso ao poder da extrema direita?<\/strong><\/p>\n<p>Os setores mais reacion\u00e1rios se apegam \u00e0 tese da meritocracia para enganar o nosso povo negro. Falam isso como se o nosso ponto de partida hist\u00f3rico fosse igual ao deles. Para combater essa tese e o racismo institucional, temos muito a avan\u00e7ar. Porque sem desenvolvimento social e econ\u00f4mico, as contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas vigentes tendem a se aprofundar e a vida dos menos privilegiados pode piorar e muito com aumento da concentra\u00e7\u00e3o de renda e nenhuma contrapartida para proporcionar chances iguais no mercado de trabalho e na vida.<\/p>\n<p><strong>Marcos Aur\u00e9lio Ruy \u2013 Portal CTB<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Portal CTB lan\u00e7a a partir desta segunda-feira (12) uma s\u00e9rie especial de artigos e reportagens para marcar o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, celebrado no dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi, o principal l\u00edder do Quilombo dos Palmares, o mais longevo e conhecido da hist\u00f3ria do Brasil. 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