{"id":34704,"date":"2023-12-01T18:01:50","date_gmt":"2023-12-01T21:01:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=34704"},"modified":"2023-12-01T18:01:50","modified_gmt":"2023-12-01T21:01:50","slug":"prevencao-ao-hiv-o-papel-da-saude-publica-e-a-luta-contra-o-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2023\/12\/01\/prevencao-ao-hiv-o-papel-da-saude-publica-e-a-luta-contra-o-preconceito\/","title":{"rendered":"Preven\u00e7\u00e3o ao HIV: o papel da sa\u00fade p\u00fablica e a luta contra o preconceito"},"content":{"rendered":"<p><strong>Se n\u00e3o fosse o SUS, no Brasil, maios de 90% das pessoas que vivem com o HIV n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00e3o de bancar o tratamento. Dezembro Vermelho refor\u00e7a desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos<\/strong><\/p>\n<p>O dia 1\u00b0 de Dezembro, Dia Mundial de Preven\u00e7\u00e3o e Combate ao HIV\/Aids, \u00e9 uma data celebrada todos os anos desde 1988. \u201cPessoas em todo o mundo se unem para mostrar apoio \u00e0s pessoas que vivem com HIV e para lembrar quem se foi por doen\u00e7as relacionadas \u00e0 AIDS\u201d, diz a apresenta\u00e7\u00e3o do Unaids, programa da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). A cada ano, ag\u00eancias da ONU, governos e sociedade civil se unem para fazer campanhas em torno de temas espec\u00edficos relacionados ao HIV, com atividades de conscientiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o para arrecada\u00e7\u00e3o de fundos ao redor do mundo.<\/p>\n<p>A CUT, este ano, concentra sua mobiliza\u00e7\u00e3o, entre outras a\u00e7\u00f5es ao combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, fator que \u00e9 determinante para a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus em mulheres e meninas. V\u00edtimas de viol\u00eancia sexual, elas se tornam mais vulner\u00e1veis ao HIV.<\/p>\n<p>A fita vermelha\u00a0\u00e9 s\u00edmbolo universal de conscientiza\u00e7\u00e3o, apoio e solidariedade com as pessoas que vivem com HIV e uma forte simbologia para que este grupo de pessoas se fa\u00e7am ouvidas sobre quest\u00f5es importantes sobre suas vidas.<\/p>\n<p>No Brasil, de 1980 at\u00e9 junho de 2022, segundo dados do Boletim Epidemiol\u00f3gico HIV\/Aids do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, foram detectados 1.088.536 casos de aids.<\/p>\n<p>Atualmente, cerca de um milh\u00e3o de pessoas vivem com HIV no Brasil, sendo 650 mil homens e 350 mil mulheres.<\/p>\n<p>Por aqui, a data, que d\u00e1 in\u00edcio ao Dezembro Vermelho, refor\u00e7a ainda mais a import\u00e2ncia do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) no combate \u00e0 doen\u00e7a. Foi o SUS que garantiu do acesso integral e gratuito aos medicamentos para tratar os pacientes, fez campanhas de enfrentamento, testagem r\u00e1pida e gratuita e dezenas de outras a\u00e7\u00f5es, que contribu\u00edram para reduzir taxa de transmiss\u00e3o e mortalidade ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Portal CUT, em 2020, o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Institucionais, ex-ministro da Sa\u00fade e m\u00e9dico infectologista, Alexandre Padilha, um dos respons\u00e1veis pela amplia\u00e7\u00e3o da rede de acolhimento aos portadores do HIV, afirmou que o n\u00famero de infectados seria muito maior do que os atuais se a rede p\u00fablica n\u00e3o oferecesse o tratamento<\/p>\n<p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o hoje poderia ser mais grave. Tivemos \u00eaxito na pol\u00edtica de enfrentamento ao HIV no Brasil, ampliada durante os governos Lula e Dilma, que refor\u00e7aram a import\u00e2ncia do SUS e s\u00e3o reconhecidas internacionalmente\u201d, disse Padilha.<\/p>\n<p>Ele afirmou ainda que se n\u00e3o fosse o SUS, mais de 90% dos brasileiros que vivem com o HIV n\u00e3o teriam a menor condi\u00e7\u00e3o de bancar o tratamento. \u201cMais de 90% n\u00e3o teriam tido acesso sequer \u00e0 testagem do HIV\/Aids\u201d, disse Padilha.<\/p>\n<p>Em 2013, o Brasil chegou \u00e0 vanguarda mundial na resposta \u00e0 AIDS por ter adotado a estrat\u00e9gia de ampliar o acesso ao tratamento da forma mais r\u00e1pida poss\u00edvel e isso fez com que o pa\u00eds pudesse reduzir o n\u00famero de mortes causadas pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>PREP<\/strong><\/p>\n<p>Uma das formas de se prevenir contra o HIV \u00e9 fazendo uso da\u00a0<strong>\u00a0Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o no Brasil, a PrEP<\/strong>, m\u00e9todo que consiste em tomar comprimidos antes da rela\u00e7\u00e3o sexual, que permitem ao organismo estar preparado para enfrentar um poss\u00edvel contato com o HIV. A pessoa em PrEP realiza acompanhamento regular de sa\u00fade, com testagem para o HIV e outras infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, entre os avan\u00e7os conquistados no primeiro semestre de 2023, tamb\u00e9m est\u00e1 a disponibiliza\u00e7\u00e3o da profilaxia nos ambulat\u00f3rios que acompanham a sa\u00fade de pessoas trans. Em todos os estados h\u00e1 servi\u00e7os de sa\u00fade ofertando a PrEP.<\/p>\n<p>De acordo com o boletim epidemiol\u00f3gico, a Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 mais acessada pela popula\u00e7\u00e3o branca (55,6%), em compara\u00e7\u00e3o com as pessoas pardas (31,4%), pretas (12,6%) e ind\u00edgenas (0,4%),\u00a0<strong>dado que refor\u00e7a a import\u00e2ncia do detalhamento dos registros no SUS e a necessidade de amplia\u00e7\u00e3o de acesso para pessoas pretas e pardas<\/strong>.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a pasta garantiu que 5.533 novos usu\u00e1rios entrassem em PrEP at\u00e9 outubro de 2023, 77% a mais do que em outubro de 2022. Com isso, 73.537 usu\u00e1rios est\u00e3o em PrEP atualmente, o que representa aumento de 45% comparado com o ano anterior. Entre os usu\u00e1rios de PrEP em 2023, h\u00e1 somente 12,6% de popula\u00e7\u00e3o preta, 3,3% de mulheres transexuais, 2% de homens trans, 0,4% de popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e 0,3% de travestis.<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00e3o que salva vidas<\/strong><\/p>\n<p>Ao Portal CUT, o\u00a0psic\u00f3logo Eduardo Oliveira, do Projeto Demonstrativo PrEP1519, e integrante de grupo de ativistas que atua nas redes sociais com o nome de Doutor Maravilha (<a href=\"https:\/\/instagram.com\/doutormaravilha?igshid=pc7zl07a7h7j\">@doutormaravilha<\/a>\u00a0no Instagram), para orientar, acolher e desconstruir preconceitos contra pessoas que vivem com o v\u00edrus,\u00a0<strong>afirmou que n\u00e3o existe um rosto para o HIV.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO HIV pode acontecer com qualquer pessoa, independe da classe, cor, express\u00e3o ou identidade de g\u00eanero\u201d, diz Eduardo, que tamb\u00e9m atua em um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>De acordo com ele, \u00e9 importante que toda a sociedade tenha consci\u00eancia sobre isso para que grupos sociais, como os heterossexuais, n\u00e3o se sintam \u201cimunes\u201d ao v\u00edrus. \u201cL\u00e1 nos anos 1980, quando apareceu o HIV, havia a ideia muito forte de que existiam grupos sociais disseminadores [os gays] e a concep\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>peste gay<\/em>,\u00a0<em>castigo divino<\/em>\u00a0e a gente vem combatendo essa ideia porque ela afasta esses grupos, como os heterossexuais, de acharem que podem se infectar\u201d, diz o psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>O conceito principal, portanto, \u00e9 de que ningu\u00e9m est\u00e1 imune e os m\u00e9todos de preven\u00e7\u00e3o t\u00eam de ser praticados por todos e todas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 casos que fogem \u00e0 preven\u00e7\u00e3o individual, por livre arb\u00edtrio. Exemplo, os casos que envolvem viol\u00eancia. A Secret\u00e1ria da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, refor\u00e7a, nesse aspecto, que \u00e9 preciso a sociedade tamb\u00e9m ter consci\u00eancia de que as mulheres est\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0 infec\u00e7\u00e3o e com o agravante de serem v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O 1\u00b0 de Dezembro faz parte do calend\u00e1rio de lutas da campanha da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que tem participa\u00e7\u00e3o da CUT, 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Viol\u00eancia Contra a Mulher,<\/p>\n<p>Profissionais de sa\u00fade v\u00eam refor\u00e7ando ao longo dos anos a ideia de que o HIV pode &#8211; e est\u00e1 \u2013 em qualquer grupo social e levar informa\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade sobre preven\u00e7\u00e3o, tratamento e para acabar com estigmas acerca da doen\u00e7a \u00e9 o principal instrumento de luta contra o HIV. Mas Eduardo diz tamb\u00e9m que a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se restringir aos servi\u00e7os de sa\u00fade e precisa ganhar espa\u00e7os como a escola e o trabalho. \u201cIsso pode ajudar pessoas saberem que \u00e9 poss\u00edvel viver com o HIV\u201d, diz o psic\u00f3logo.<\/p>\n<p><strong>Estigmas e preconceito<\/strong><\/p>\n<p>Um dos principais objetivos das campanhas realizadas durante o Dezembro Vermelho \u00e9 justamente o combate ao preconceito. Quem vive com o HIV sabe a dor que sente. E, muitas vezes, o medo de ficar estigmatizado, sofrer preconceito faz com que a pessoas n\u00e3o v\u00e1 fazer o teste por medo ser positivo e ser visto pela fam\u00edlia, pelos amigos, pelos colegas de trabalho como algu\u00e9m a ser evitado.<\/p>\n<p>Por isso acabar com o preconceito e garantir acesso ao tratamento e aos cuidados s\u00e3o fatores fundamentais para o enfrentamento ao v\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>Indetect\u00e1vel = Intransmiss\u00edvel (I=I)<\/strong><\/p>\n<p>Quando a pessoa vivendo com HIV faz o uso correto dos medicamentos antirretrovirais, \u00e9 muito prov\u00e1vel que ela consiga o controle do HIV. Isso \u00e9 medido regularmente pelo exame de carga viral, cujo resultado expressa a quantidade de v\u00edrus presente no sangue. Estima-se que, ap\u00f3s seis meses do in\u00edcio do tratamento antirretroviral (TARV) adequado, o exame de carga viral tenha seu resultado \u201cindetect\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p><strong>O resultado indetect\u00e1vel quer dizer que n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar v\u00edrus naquela amostra de sangue.\u00a0<\/strong>No entanto, as evid\u00eancias cient\u00edficas obtidas a partir de estudos que inclu\u00edram v\u00e1rios pa\u00edses, comprovaram que\u00a0<strong>n\u00e3o h\u00e1 risco de transmiss\u00e3o do HIV por via sexual para as pessoas<\/strong>\u00a0com adequada ades\u00e3o aos antirretrovirais e com carga viral indetect\u00e1vel por pelo menos seis meses.<\/p>\n<p>Significa, em outras palavras que a quantidade de c\u00f3pias do v\u00edrus por mililtro de sangue \u00e9 t\u00e3o \u00ednfima de modo que o HIV se torna intransmiss\u00edvel por vias sexuais.<\/p>\n<p>De acordo com a Unaids, &#8220;a consci\u00eancia de que o HIV n\u00e3o mais pode ser transmitido sexualmente pode dar a essas pessoas com carga viral indetect\u00e1vel um forte senso de que elas s\u00e3o\u00a0<em><strong>agentes de preven\u00e7\u00e3o em sua abordagem perante relacionamentos novos ou j\u00e1 existentes<\/strong><\/em>&#8220;.<\/p>\n<p><strong>Peguei, e agora?<\/strong><\/p>\n<p>O psic\u00f3logo Eduardo Oliveira, contou ao Portal CUT, em 2020, durante entrevista especial, que cada pessoa lida de uma forma diferente ao saber o resultado do exame.<\/p>\n<p>\u201cAlguns manifestam tristeza, o medo aparece com mais frequ\u00eancia, a culpa e at\u00e9 medo da morte. Cada um d\u00e1 um sentido e o que contribui \u00e9 justamente a quest\u00e3o social onde pouco se fala sobre o HIV e quando se fala \u00e9 numa perspectiva ruim ou negativa\u201d, ele disse, refor\u00e7ando a necessidade di\u00e1logo social sobre o tema.<\/p>\n<p>Por isso, a hora de comunicar o resultado, de acordo com o psic\u00f3logo, \u00e9 um momento crucial. \u201cO acolhimento na primeira fase precisa ser um momento de bastante cautela, de ouvir a pessoa, saber o que ela pensa sobre o HIV para poder construir um caminho para que ela consiga iniciar e se manter no tratamento\u201d, explicou o profissional.<\/p>\n<p>Mas o acolhimento nas outras fases tamb\u00e9m \u00e9 importante. \u201cMesmo depois de iniciado o tratamento reflex\u00f5es mais profundas podem acontecer a qualquer momento. S\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es em que a pessoa que vive com HIV precisa decidir sobre falar do HIV com o namorado, a namorada, a fam\u00edlia e em outras situa\u00e7\u00f5es. Por isso, acolhimento e acompanhamento psicol\u00f3gico, tamb\u00e9m gratuitos pelo SUS, s\u00e3o importantes em todas as fases\u201d, ele refor\u00e7ou.<\/p>\n<p><strong>Lei garante prote\u00e7\u00e3o contra o preconceito<\/strong><\/p>\n<p>De autoria da ex-senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), a Lei 12.894, que criminaliza o preconceito contra pessoas com HIV, foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em 2014.<\/p>\n<p>De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o, \u00e9 crime pun\u00edvel com reclus\u00e3o de um a quatro anos, al\u00e9m de multa, recusar, cancelar ou segregar alunos em estabelecimentos de ensino; negar emprego ou trabalho ou demitir trabalhadores; segregar em ambiente de trabalho ou escolar; recusar atendimento de sa\u00fade e, em especial, \u201cdivulgar a condi\u00e7\u00e3o do portador do HIV ou de doente de aids, com intuito de ofender-lhe a dignidade\u201d.<\/p>\n<p>Em caso de viola\u00e7\u00e3o de qualquer direito, a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer um Boletim de Ocorr\u00eancia (BO) na delegacia mais pr\u00f3xima e entrar com a\u00e7\u00e3o criminal.<\/p>\n<p><strong>Sigilo no trabalho e Sigilo m\u00e9dico<\/strong><\/p>\n<p>A pessoa com HIV tem o direito de manter em sigilo a sua condi\u00e7\u00e3o sorol\u00f3gica no ambiente de trabalho. Isso inclui testes de admiss\u00e3o, testes peri\u00f3dicos ou de demiss\u00e3o. O m\u00e9dico tem a obriga\u00e7\u00e3o de somente averiguar a capacidade laborativa do trabalhador nos exames legais, sem refer\u00eancia ao estado sorol\u00f3gico. \u00c9 o que diz o Art.168 da CLT.<\/p>\n<p>Em caso de viola\u00e7\u00e3o, deve-se registrar o ocorrido na Delegacia do Trabalho mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>www.cut.org.br\/Andre Accarini<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se n\u00e3o fosse o SUS, no Brasil, maios de 90% das pessoas que vivem com o HIV n\u00e3o teriam condi\u00e7\u00e3o de bancar o tratamento. 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