{"id":36139,"date":"2024-03-27T17:05:49","date_gmt":"2024-03-27T20:05:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=36139"},"modified":"2024-03-27T17:05:49","modified_gmt":"2024-03-27T20:05:49","slug":"a-relacao-entre-os-brazao-rivaldo-barbosa-o-crime-organizado-e-as-milicias-no-caso-marielle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2024\/03\/27\/a-relacao-entre-os-brazao-rivaldo-barbosa-o-crime-organizado-e-as-milicias-no-caso-marielle\/","title":{"rendered":"A rela\u00e7\u00e3o entre os Braz\u00e3o, Rivaldo Barbosa, o crime organizado e as mil\u00edcias no caso Marielle"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_36140\" aria-describedby=\"caption-attachment-36140\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-36140\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/BRAZAO-300x197.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/BRAZAO-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/BRAZAO.jpg 673w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-36140\" class=\"wp-caption-text\">Domingos Braz\u00e3o acumula suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o, fraude, improbidade administrativa e compra de votos &#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\/ Alerj<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"description\"><strong>O caso Marielle descortina os meandros da corrup\u00e7\u00e3o latente nas for\u00e7as policiais<\/strong><\/p>\n<p>A mentira como artimanha pol\u00edtica se transformou em um m\u00e9todo para as disputas eleitorais e, tamb\u00e9m, em um mecanismo para desacreditar seus advers\u00e1rios. A pris\u00e3o dos suspeitos da autoria intelectual do assassinato de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/14\/seis-anos-do-assassinato-de-marielle-franco-por-que-o-caso-ainda-nao-foi-solucionado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marielle Franco<\/a>\u00a0e Anderson Gomes representa n\u00e3o apenas a possibilidade da justi\u00e7a t\u00e3o esperada.<\/p>\n<p>Significa a quebra de um sil\u00eancio imposto pela cumplicidade do governo passado e pelo envolvimento das pr\u00f3prias for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica. Essas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/26\/o-caso-marielle-e-a-contaminacao-das-instituicoes-do-rj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pris\u00f5es<\/a>\u00a0podem simbolizar, ainda, a vit\u00f3ria da verdade sobre todas as cal\u00fanias proferidas contra Marielle.<\/p>\n<p>Desde seu assassinato, em 14 de mar\u00e7o de 2018, in\u00fameras foram as \u201cfake news\u201d espalhadas a respeito da ent\u00e3o vereadora carioca. Cr\u00edtica das mil\u00edcias e da interven\u00e7\u00e3o militar nas favelas do Rio de Janeiro, Marielle foi v\u00edtima de uma campanha difamat\u00f3ria perpetrada pelas mil\u00edcias digitais, principalmente ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro (2018). Marielle passou a ser: \u201ca ex-mulher do traficante Marcinho VP\u201d;\u201d a vereadora eleita pelo Comando Vermelho\u201d; \u201cusu\u00e1ria de maconha\u201d; \u201cdefensora de bandidos\u201d; \u201cfilha do traficante Fernandinho Beira-Mar\u201d; etc. Era preciso relacion\u00e1-la com o crime organizado para deslegitimar o seu assassinato como um crime pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O mais recente ataque \u00e0 mem\u00f3ria de Marielle foi dito pelo deputado federal\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/03\/16\/reu-por-transfobia-nikolas-acusa-promotores-que-o-denunciaram-de-expor-a-adolescente-trans\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nikolas Ferreira<\/a>\u00a0(v\u00e1rias vezes multado por fake news e processado por pronunciamentos preconceituosos), no qual procurou vincular um dos mandantes de seu assassinato ao Partido dos Trabalhadores (PT). Seu objetivo \u00e9 n\u00edtido: desviar poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es do crime com a fam\u00edlia Bolsonaro, t\u00e1tica adotada desde as primeiras investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A fala do referido deputado e a a\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias digitais s\u00e3o express\u00e3o do m\u00e9todo da mentira como arma pol\u00edtica em contextos de acirrada disputa. Os fatos reais e objetivos, aquilo que realmente existe e acontece, parecem exercer menor influ\u00eancia na percep\u00e7\u00e3o das pessoas acerca da realidade. Aquilo que realmente acontece na sociedade, a verdade dos fatos registrados por c\u00e2meras, em discursos, em entrevistas e reportagens, torna-se irrelevantes. A verdade \u00e9 aquilo que eu acredito e, se eu acredito, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Essa relativiza\u00e7\u00e3o da verdade \u00e9 impulsionada pelas bolhas digitais por meio das quais se interage apenas com aqueles que pensam igual, e reproduzida por meio dos algoritmos que direcionam conte\u00fados de acordo com a bolha digital.<\/p>\n<p>Soma-se a isso, uma esp\u00e9cie de \u201cinquisi\u00e7\u00e3o popular\u201d, em que todos se sentem empoderados a julgar tudo e todos, inclusive indo \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, como o caso da mulher que faleceu ap\u00f3s ser espancada por dezenas de moradores em Guaruj\u00e1, S\u00e3o Paulo, em 2014, motivados por uma not\u00edcia divulgada em rede social que a vinculava ao sequestro de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>As fake news acabam, de certa forma, imputando \u00e0s v\u00edtimas a necessidade de comprovarem a sua inoc\u00eancia, tamanha \u00e9 a relativiza\u00e7\u00e3o da verdade. Um caso bastante emblem\u00e1tico \u00e9 do adolescente Marcos Vin\u00edcius da Silva, de 14 anos, baleado em uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil no Complexo da Mar\u00e9, Rio de Janeiro, em 2018. Ao ser atingido, o menino teria perguntado: \u201cEles n\u00e3o viram que eu estava de uniforme, m\u00e3e?\u201d Enquanto o filho era operado no hospital, a m\u00e3e se deparou com uma fake news associando-o ao crime organizado. Uma foto postada em rede social mostrava um menino segurando um fuzil e identificado como sendo seu filho.<\/p>\n<p>As pris\u00f5es de Chiquinho Braz\u00e3o, Domingos Braz\u00e3o e Rivaldo Barbosa, suspeitos de mandar assassinar a vereadora carioca Marielle Franco, poder\u00e3o dissipar as brumas que ainda pairam sobre o caso. Desde os interesses imediatos dos mandantes at\u00e9 suas rela\u00e7\u00f5es mais estreitas com o crime organizado e com chefes pol\u00edticos poder\u00e3o ser desvendados.<\/p>\n<p>Chiquinho Braz\u00e3o \u00e9 deputado federal pelo Uni\u00e3o Brasil, partido pol\u00edtico que surgiu da fus\u00e3o entre o Democratas (DEM) e o Partido Social Liberal (PSL), em 6 de outubro de 2021, mas cuja ess\u00eancia est\u00e1 na Alian\u00e7a Renovadora Nacional (ARENA), ou seja, no partido de sustenta\u00e7\u00e3o da Ditadura empresarial militar (1964-1985) e no subsequente Partido da Frente Liberal (PFL), das oligarquias Bornhausen e Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>A base eleitoral de Chiquinho, que tem garantido cargos pol\u00edticos n\u00e3o s\u00f3 a ele, mas ao irm\u00e3o tamb\u00e9m, fica na regi\u00e3o de Jacarepagu\u00e1, no Rio de Janeiro, \u00e1rea dominada por milicianos. O sobrenome da fam\u00edlia j\u00e1 havia aparecido em outros processos, inclusive na CPI das Mil\u00edcias, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), em 2008.<\/p>\n<p>Antes de seus dois mandatos para a C\u00e2mara federal, Chiquinho exerceu o mandato de vereador no Rio por 12 anos. Em 2019, o sobrenome Braz\u00e3o voltou a ser relacionado \u00e0 mil\u00edcia num caso de propina a um funcion\u00e1rio da prefeitura. Em 2023, Chiquinho ocupou um cargo de confian\u00e7a na gest\u00e3o municipal de Eduardo Paes.<\/p>\n<p>Domingos Braz\u00e3o acumula suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o, fraude, improbidade administrativa, compra de votos, etc. Em 2011, teve seu mandato cassado depois de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre compra de votos. Anos antes, em 2004, seu nome j\u00e1 havia sido associado \u00e0 m\u00e1fia dos combust\u00edveis. Em 2019, Domingos foi denunciado por interferir nas investiga\u00e7\u00f5es do caso Marielle. Assim como seu irm\u00e3o, Domingos iniciou na vida pol\u00edtica como vereador, logo ascendendo ao cargo de deputado na Alerj, de onde s\u00f3 saiu 17 depois para assumir o cargo no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Como vice-presidente do TCE, acabou preso, acusado de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, parece ter havido premedita\u00e7\u00e3o por parte dos irm\u00e3os Braz\u00e3o. Em 2017, um ano antes do assassinato de Marielle e Anderson, os dois trabalharam para infiltrar um miliciano nos quadros do Partido Socialismo e Liberdade (PSol), a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Marielle, com o objetivo de monitorar seus passos. O desagravo dos irm\u00e3os estaria relacionado ao enfrentamento da vereadora \u00e0s atividades das mil\u00edcias e da grilagem de terras. A firme determina\u00e7\u00e3o de Marielle para destina\u00e7\u00e3o de terras para moradias populares se contrapunha ao esquema da fam\u00edlia Braz\u00e3o de grilar terras para fins comerciais. Trata-se de uma \u00e1rea aonde a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e as constru\u00e7\u00f5es ilegais v\u00eam crescendo enormemente, motivadas, sobretudo, pela a\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias e de traficantes.<\/p>\n<p>Rivaldo Barbosa foi nomeado pelo General Braga Netto chefe da Pol\u00edcia Civil do estado do Rio de Janeiro um dia antes do assassinado de Marielle e Anderson. Foi para Rivaldo que o ent\u00e3o deputado estadual, Marcelo Freixo, ligou para informar sobre o crime. Um ano depois, Rivaldo foi denunciado por receber propina para atrapalhar as investiga\u00e7\u00f5es sobre o caso e por fraudes em licita\u00e7\u00f5es. Rivaldo \u00e9 acusado, tamb\u00e9m, de firmar acordos com infratores para encobrir crimes ligados aos jogos ilegais, como o do bicho, por exemplo. Barbosa foi contra a transfer\u00eancia das investiga\u00e7\u00f5es sobre o assassinato de Marielle para a esfera federal e, ainda, forjou uma testemunha para atrapalhar as investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dos suspeitos com o crime organizado e com as mil\u00edcias diz muito sobre como a pol\u00edtica, o crime organizado e as mil\u00edcias est\u00e3o entrela\u00e7ados. Essa situa\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro deve servir de alerta para pensar como um sujeito sem express\u00e3o pol\u00edtica alguma, sem a capacidade cognitiva de fazer um discurso, mesmo quando lido, que, ao longo de sua atividade pol\u00edtica em quase trinta anos como parlamentar, aprovou apenas dois projetos, tenha conseguido se reeleger tantas vezes e ainda, chegar \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Ao analisar o resultado da \u00faltima elei\u00e7\u00e3o presidencial, \u00e9 poss\u00edvel verificar que nos bairros cariocas controlados pelas mil\u00edcias, Bolsonaro recebeu mais votos que seu opositor, Lula.<\/p>\n<p>O autor dos disparos que vitimaram Marielle, Ronnie Lessa, sargento reformado da Pol\u00edcia Militar do Rio, morava no mesmo condom\u00ednio do ex-presidente, cujo filho mais novo namorou com a filha de Ronnie. Lessa carrega consigo uma longa lista de crimes envolvendo tentativa de tr\u00e1fico internacional de armas, venda ilegal de armas e duplo homic\u00eddio numa disputa por zonas de influ\u00eancia de mil\u00edcias rivais.<\/p>\n<p>Ronnie foi formado pelo Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais e, juntamente com Adriano da N\u00f3brega, ex-capit\u00e3o do Bope, morto em uma opera\u00e7\u00e3o da PM baiana envolta em contradi\u00e7\u00f5es, d\u00favidas e mist\u00e9rios, atuava no Escrit\u00f3rio do Crime, uma esp\u00e9cie de for\u00e7a paramilitar de matadores de aluguel a servi\u00e7o de bicheiros, milicianos, pol\u00edticos e outros poderosos do Rio. Interessante observar que N\u00f3brega liderava a mil\u00edcia desde sua cria\u00e7\u00e3o em 2007, sendo que sua m\u00e3e e sua esposa passaram a exercer cargos de confian\u00e7a no gabinete do deputado estadual Fl\u00e1vio Bolsonaro somente a partir de 2012, e por l\u00e1 ficaram at\u00e9 novembro de 2018.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental ainda ressaltar a proximidade das fam\u00edlias Bolsonaro e Braz\u00e3o, que estiveram lado a lado dividindo carros de som e palanques eleitorais na campanha presidencial de Bolsonaro e possuem interesses na \u201cregulariza\u00e7\u00e3o\u201d de terras para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria ilegal na regi\u00e3o oeste do Rio, base eleitoral de ambas as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, cabe relembrar a exig\u00eancia de Bolsonaro para que seu ministro da Justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, trocasse o comando da Pol\u00edtica Federal do Rio de Janeiro que vinha investigando alguns aspectos do assassinato, al\u00e9m da espionagem da Ag\u00eancia Brasileira de Informa\u00e7\u00e3o (Abin) sobre a promotora do caso Marielle.<\/p>\n<p>Quando a not\u00edcia do assassinato de Marielle e Anderson vieram a p\u00fablico, as redes sociais foram tomadas por uma esp\u00e9cie de distopia, na qual pessoas, intencionalmente, passaram a fabricar e propagar inverdades sobre as v\u00edtimas, sobre a autoria, sobre o caso. Para cada not\u00edcia falsa desmentida uma nova surgia. Mesmo com a possibilidade de acesso a toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o, com toda a possibilidade de certifica\u00e7\u00e3o da veracidade dos fatos, as mentiras continuavam a ser espalhadas. Nem mesmo a credibilidade de interlocutores ou de alguns poucos meios de comunica\u00e7\u00e3o mais sensatos conseguiam quebrar o ciclo da reprodu\u00e7\u00e3o das fake news. Estes, como contraditores da \u201cnova verdade\u201d, eram logo desqualificados, e a bolha virtual se encarregava de garantir acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es diretamente nas fontes criadoras e propagadoras da mentira. Sinal obscuro de uma \u00e9poca na qual a credibilidade est\u00e1 naquele que diz o que eu penso.<\/p>\n<p>Esse quadro torna urgente a aprova\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei (PL) n\u00ba 2630, de 2020, que prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transpar\u00eancia na internet, conhecido tamb\u00e9m como o PL das fake news. Na sess\u00e3o que votou o regime de urg\u00eancia do referido PL, os partidos Uni\u00e3o Brasil, Progressista, Partido Liberal (de Bolsonaro e tantos outros bolsonaristas, como Nikolas Ferreira), Cidadania e Novo, votaram majoritariamente contra. O partido de Bolsonaro, que possui a maior bancada na C\u00e2mara Federal, registrou 79 votos contr\u00e1rios para o regime de urg\u00eancia do PL das fake news, que continua parado na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dos suspeitos pela morte de Marielle e Anderson com o crime organizado e com as mil\u00edcias diz muito sobre a forma como as express\u00f5es pol\u00edtica, jur\u00eddica e legal das contradi\u00e7\u00f5es sociais atuam para perpetuar o atual estado de coisas. Longe de representar a possibilidade de solu\u00e7\u00e3o dos conflitos presentes na sociedade, tais institui\u00e7\u00f5es agem para reproduzi-los. Enquanto parlamentares e militares investigarem e julgarem a si pr\u00f3prios, a justi\u00e7a ser\u00e1 apenas uma dissimula\u00e7\u00e3o, um fingimento, uma simula\u00e7\u00e3o. Enquanto os mandatos parlamentares n\u00e3o estiverem submetidos \u00e0 revogabilidade popular e ao financiamento p\u00fablico, sem possibilidade alguma de investimento empresarial ou privado, essa democracia continuar\u00e1 restrita aos grupos econ\u00f4micos e \u00e0s oligarquias familiares.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a perman\u00eancia da imunidade parlamentar, mecanismo que visa impedir que pol\u00edticos sejam julgados por eventuais crimes comuns, poder\u00e1 perpetuar a impunidade que reina quando, sobre o infrator, recaem olhares de cumplicidade.<\/p>\n<p>O infrator j\u00e1 sabe, de antem\u00e3o, que ser\u00e1 julgado por seus iguais. N\u00e3o a igualdade de posi\u00e7\u00e3o, como parlamentar, mas uma igualdade nas infra\u00e7\u00f5es, nos crimes, na ilegalidade. Se n\u00e3o fosse assim, o que explicaria a exist\u00eancia de partidos cujos quadros s\u00e3o formados por patrocinadores da grilagem, do garimpo ilegal, da invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas e quilombolas, do assassinato de lideran\u00e7as populares e tantas outras barb\u00e1ries. A complac\u00eancia, a desfa\u00e7atez, com a criminalidade \u00e9 tanta que teve partido indicando para a presid\u00eancia de uma de suas sess\u00f5es o assassino de Chico Mendes, ambientalista e sindicalista, reconhecido internacionalmente pela sua luta em defesa da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>O assassinato de Marielle e Anderson escancara um outro problema que parece longe de ser resolvido: a impunidade de agentes das for\u00e7as de seguran\u00e7a, agravada por um c\u00f3digo militar que caracteriza den\u00fancias contra a oficialidade como insubordina\u00e7\u00e3o, por um justi\u00e7a pr\u00f3pria, na qual parceiros de farda julgam seus pares, resultando, quase sempre, em penas brandas ou mesmo no arquivamentos dos processos.<\/p>\n<p>Quanto mais alta a patente, mais certa \u00e9 a impunidade. A mil\u00edcia denominada Escrit\u00f3rio do Crime foi formada por um capit\u00e3o e por um major da PM carioca enquanto ainda faziam parte da corpora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode esquecer dos \u201cbicos\u201d exercidos por servidores da seguran\u00e7a p\u00fablica em favor de empresas, bicheiros, donos de bares, boates e afins.<\/p>\n<p>O caso Marielle descortina os meandros da corrup\u00e7\u00e3o latente nas for\u00e7as policiais que ligam crime organizado, for\u00e7as de seguran\u00e7a e as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e jur\u00eddicas. Mais grave que isso, \u00e9 a evidente reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia desmedida contra todos aqueles e aquelas que se levantam contra as injusti\u00e7as que marcam nossa hist\u00f3ria. Que o legado de Marielle, e de tantos outros lutadores do povo, siga servindo de exemplo e inspirando a luta por uma sociedade livre das desigualdades sociais, da mis\u00e9ria, da opress\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Rossano Rafaelle Sczip, graduado em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006). Possui Especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, Arte e Cultura pela Universidade Estadual de Ponta Grossa &#8211; UEPG (2018). Mestre em Ensino de Hist\u00f3ria &#8211; UFPR (2020). Doutorando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Paran\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso Marielle descortina os meandros da corrup\u00e7\u00e3o latente nas for\u00e7as policiais A mentira como artimanha pol\u00edtica se transformou em um m\u00e9todo para as disputas eleitorais e, tamb\u00e9m, em um mecanismo para desacreditar seus advers\u00e1rios. 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