{"id":36153,"date":"2024-04-03T16:54:00","date_gmt":"2024-04-03T19:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=36153"},"modified":"2024-04-03T16:54:00","modified_gmt":"2024-04-03T19:54:00","slug":"imprensa-foi-grande-entusiasta-do-golpe-de-1964-e-da-ditadura-diz-historiador-joao-teofilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2024\/04\/03\/imprensa-foi-grande-entusiasta-do-golpe-de-1964-e-da-ditadura-diz-historiador-joao-teofilo\/","title":{"rendered":"&#8220;Imprensa foi grande entusiasta do golpe de 1964 e da ditadura\u201d, diz historiador Jo\u00e3o Te\u00f3filo"},"content":{"rendered":"<p class=\"bajada\"><strong>No marco de 60 anos do golpe militar no Brasil, F\u00f3rum entrevista o historiador Jo\u00e3o Te\u00f3filo, que crava: \u201cA grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contr\u00e1rio\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Quando se estuda a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/temas\/ditadura-militar-no-brasil-56.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ditadura civil-militar brasileira (1964-1985)<\/a>, seja na escola, na universidade, por meio de livros ou filmes, a quest\u00e3o da\u00a0<strong>censura \u00e0 liberdade de express\u00e3o e \u00e0 imprensa<\/strong>\u00a0consta como uma das principais ferramentas do regime em prol de sua manuten\u00e7\u00e3o no poder.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa especificamente, muito se fala sobre a censura aos jornais e persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas, e logo vem \u00e0 mente a figura de Vladimir Herzog, que em 1975 foi preso, torturado e assassinado nas depend\u00eancias do Departamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00e3o &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi), em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<div class=\"content-banner\"><\/div>\n<p>Se \u00e9 verdade que jornais e jornalistas foram censurados, perseguidos e torturados, tal como Vlado, \u00e9 tamb\u00e9m inconteste que\u00a0<strong>a maior parte da chamada \u2018grande imprensa\u2019 apoiou a ditadura civil-militar brasileira<\/strong>. At\u00e9 mesmo ve\u00edculos que sofreram censura. E n\u00e3o s\u00f3 silenciando sobre as atrocidades cometidas pelos militares ou publicando mat\u00e9rias e editoriais elogiosos \u00e0s medidas do governo dos anos de chumbo, mas fornecendo at\u00e9 mesmo apoio material, como o not\u00f3rio caso da Folha de S. Paulo, que emprestou seus carros \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, a Oban, um centro de investiga\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito que combatia organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n<div class=\"content-banner\"><\/div>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre imprensa e ditadura militar no Brasil s\u00e3o exatamente o objeto de estudo do professor e\u00a0historiador<strong>\u00a0Jo\u00e3o Te\u00f3filo<\/strong>. Mestre em Hist\u00f3ria Social pela PUC-SP e membro do N\u00facleo de Estudos Culturais: Hist\u00f3ria, Mem\u00f3ria e Perspectiva de Presente (NEC) da universidade, Te\u00f3filo \u00e9 doutor em Hist\u00f3ria pela UFMG e autor do livro \u201cNem tudo era censura: imprensa, Cear\u00e1 e ditadura militar\u201d (2019).<\/p>\n<div class=\"content-banner\"><\/div>\n<p>Em entrevista\u00a0\u00e0\u00a0<strong>F\u00f3rum<\/strong>, ele explica n\u00e3o s\u00f3 como se dava a censura ao jornalismo na ditadura, bem como detalha quais eram os ve\u00edculos mais perseguidos e analisa o papel de colabora\u00e7\u00e3o de setores da imprensa ao regime da \u00e9poca.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDiferentemente do que sugere certa mem\u00f3ria de uma imprensa oprimida pela censura, a grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contr\u00e1rio. Embora tenha havido epis\u00f3dios de censura pr\u00e9via, os atritos foram pontuais. No geral, ela foi uma grande entusiasta do golpe e da ditadura\u201d, sentencia o historiador.<\/p><\/blockquote>\n<p>Confira a \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p><strong>F\u00f3rum &#8211; Como a ditadura civil-militar brasileira atacava especificamente a liberdade de imprensa? Quais eram as principais estrat\u00e9gias e estruturas de controle?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Te\u00f3filo &#8211;<\/strong>\u00a0A imprensa foi bastante atacada ap\u00f3s o golpe de 64. N\u00e3o somente a imprensa escrita propriamente, mas r\u00e1dio e televis\u00e3o tamb\u00e9m foram afetados. Sem contar as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, como teatro, cinema e m\u00fasica. Sobretudo porque preocupava a ditadura fazer a defesa da chamada moral e dos costumes. Quer dizer, a liberdade de express\u00e3o estava sendo tolhida nas mais diferentes \u00e1reas, de modo que se expressar virou uma atividade de risco.<\/p>\n<p>N\u00e3o que em outros momentos da hist\u00f3ria, \u00e9 importante falar, isso n\u00e3o tenha acontecido. O mesmo se deu, por exemplo, no per\u00edodo do Estado Novo de Get\u00falio Vargas. Mas a ditadura militar aperfei\u00e7oou esses ataques e os instrumentos cens\u00f3rios. Eu concordo com o historiador Carlos Fico, que \u00e9 professor da UFRJ, quando ele afirma em alguns de seus trabalhos que a censura no Brasil n\u00e3o foi estabelecida propriamente durante a ditadura. Mas os militares fizeram uma adequa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para os militares, tratou-se muito mais de uma adequa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de uma cria\u00e7\u00e3o. No caso da imprensa, esse ataque ocorreu, sobretudo, por meio da censura. Embora tamb\u00e9m a gente possa citar persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas, depreda\u00e7\u00e3o de reda\u00e7\u00f5es em determinados momentos, press\u00e3o econ\u00f4mica. E ainda que, ao longo da ditadura militar, embora a atividade cens\u00f3ria tenha variado de intensidade, ela foi praticada desde o princ\u00edpio. Foram criadas estruturas de controle que foram aperfei\u00e7oando essa atividade cens\u00f3ria.<\/p>\n<p>E a gente pode citar, por exemplo, a lei de imprensa. Essa lei de imprensa, que \u00e9 a Lei n\u00ba 5.250, de fevereiro de 1967, j\u00e1 foi editada pelo primeiro ditador, Castelo Branco. Entre outras coisas, ela passou a considerar crime as publica\u00e7\u00f5es que faziam propaganda dos processos de subvers\u00e3o da ordem pol\u00edtica e social. Foi uma lei que, em termos gerais, restringiu a liberdade de express\u00e3o. Posterior a isso, podemos citar tamb\u00e9m o ato institucional n\u00ba 5, o AI-5, de dezembro de 1968, que foi editado pelo ditador Costa e Silva. E o AI-5 permitiu uma atividade cens\u00f3ria mais sistem\u00e1tica. Ele instituiu a censura pr\u00e9via, que seria formalizada a partir de uma portaria publicada em 1970. Os jornais que ofereciam maior resist\u00eancia \u00e0 ditadura tiveram de conviver, em muitos casos, com um censor em suas reda\u00e7\u00f5es, que estava ali acompanhando a atividade jornal\u00edstica, mesmo antes do\u00a0 jornal ser publicado. Ent\u00e3o, nesse rol da censura pr\u00e9via, podemos citar jornais como o Tribuna da Imprensa, o Pasquim, Opini\u00e3o. O pr\u00f3prio Estad\u00e3o, que era um jornal amigo da ditadura, tamb\u00e9m n\u00e3o esteve a salvo da censura pr\u00e9via. Al\u00e9m dessa censura pr\u00e9via, a censura tamb\u00e9m era feita por meio do envio dos famosos \u2018bilhetinhos\u2019.<\/p>\n<p>Esses \u2018bilhetinhos\u2019 tinham determina\u00e7\u00f5es sobre o que n\u00e3o poderia ser publicado. Mas a censura se dava tamb\u00e9m, em algumas ocasi\u00f5es, atrav\u00e9s de telefonemas que eram feitos para as reda\u00e7\u00f5es dos jornais. E essas atividades eram realizadas por um setor chamado Sevi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o do Gabinete (SIGAB), que era do diretor-geral do Departamento de Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Muitos jornais, jornalistas, foram censurados, perseguidos, sobretudo aqueles ligados \u00e0 chamada imprensa alternativa. Basta lembrar que, em 1970, por exemplo, a maior parte da reda\u00e7\u00e3o do Pasquim, que provavelmente \u00e9 um dos maiores representantes dessa imprensa alternativa, foi presa porque publicou uma s\u00e1tira do famoso quadro do imperador Dom Pedro I, \u00c0s margens do Rio Ipiranga.<\/p>\n<p>E h\u00e1 quem tenha sido morto pela ditadura em decorr\u00eancia das torturas praticadas pelos agentes da repress\u00e3o. E o caso mais marcante foi o do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975, em pleno per\u00edodo de abertura pol\u00edtica. O que n\u00e3o significa, necessariamente, que tenha sido um per\u00edodo mais brando, apesar de haver, por parte do regime, promessas de liberaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quais jornalistas ou ve\u00edculos mais perseguidos voc\u00ea elencaria?<\/strong><\/p>\n<p>O jornal mais visado pela ditadura foi o Pasquim. N\u00e3o s\u00f3 o Pasquim, ali\u00e1s, o Pasquim e todos os seus colaboradores jornalistas foram bastante perseguidos. N\u00e3o por acaso, eles tiveram parte da reda\u00e7\u00e3o presa, o que \u00e9 bastante significativo e evidencia o n\u00edvel de persegui\u00e7\u00e3o. Mas a gente pode citar tamb\u00e9m jornais como o Movimento, Lampi\u00e3o da Esquina, enfim, todos esses jornais que compunham a imprensa alternativa, que tinham como tra\u00e7o caracter\u00edstico uma oposi\u00e7\u00e3o intransigente \u00e0 ditadura militar, foram mais visados pela ditadura e pelos militares.<\/p>\n<p><strong>Quais ve\u00edculos voc\u00ea citaria que prestaram apoio mais not\u00f3rio, de um jeito ou de outro, ao regime militar? E como\u00a0essa colabora\u00e7\u00e3o se manifestava?<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7o de conversa, \u00e9 importante colocar que os principais ve\u00edculos da chamada grande imprensa apoiaram n\u00e3o apenas o golpe, mas tamb\u00e9m a ditadura ao longo de sua vig\u00eancia. A grande imprensa foi um elemento central na coaliz\u00e3o civil-militar que atuou para a derrubada do presidente Jo\u00e3o Goulart em 1964. Podemos citar o Globo, o Estad\u00e3o, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo. S\u00e3o jornais que tiveram um papel importante nesse apoio. H\u00e1 v\u00e1rios outros, mas estou citando aqui os que considero principais. Mas n\u00e3o somente esses jornais no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Podemos citar, por exemplo, o jornal Zero Hora, do Sul, e o jornal O Povo, no Nordeste, que foi um dos ve\u00edculos estudados no meu livro &#8220;Nem tudo era censura&#8221;, que trata do apoio da imprensa \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Diferentemente do que sugere certa mem\u00f3ria de uma imprensa oprimida pela censura, a grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contr\u00e1rio. Embora tenha havido epis\u00f3dios de censura pr\u00e9via, os atritos foram pontuais. No geral, ela foi uma grande entusiasta do golpe e da ditadura. Isso n\u00e3o significa que esses jornais que apoiaram o regime n\u00e3o tiveram atritos com a censura, mas isso n\u00e3o os colocava no campo de oposi\u00e7\u00e3o ou de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, pois as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito mais complexas e n\u00e3o se resumem a leituras bin\u00e1rias ou simplistas.<\/p>\n<p>Esse apoio manifestava-se, por exemplo, por meio da divulga\u00e7\u00e3o de editoriais que legitimavam as a\u00e7\u00f5es golpistas, endossando a campanha pela desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo Jo\u00e3o Goulart e criando um clima favor\u00e1vel na opini\u00e3o p\u00fablica para que o golpe acontecesse. Tamb\u00e9m se manifestava por meio da condena\u00e7\u00e3o das atividades de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, criticando o comunismo e as esquerdas em geral, e, claro, por meio do apoio \u00e0s propostas da ditadura e aos pr\u00f3prios ideais que nortearam a chamada &#8216;Revolu\u00e7\u00e3o de 1964&#8217;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, houve apoio material, como o fornecimento de ve\u00edculos pelo Grupo Folha \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban), um centro de investiga\u00e7\u00f5es ligado ao Ex\u00e9rcito que combatia organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Esses ve\u00edculos eram utilizados na repress\u00e3o, conforme relatado pela historiadora Beatriz Kushnir em seu livro &#8220;C\u00e3es de Guarda&#8221;. Essa vers\u00e3o foi corroborada pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade em 2014.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era apenas uma quest\u00e3o de apoio ideol\u00f3gico; havia tamb\u00e9m compensa\u00e7\u00f5es financeiras por meio de an\u00fancios governamentais, o que indica um interesse material envolvido. Muitos grupos de comunica\u00e7\u00e3o prosperaram durante a ditadura, como o Grupo Globo, sendo um exemplo cl\u00e1ssico de um grupo de comunica\u00e7\u00e3o que se expandiu significativamente durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Hoje, muitos desses ve\u00edculos que voc\u00ea citou, que colaboraram com a ditadura de alguma maneira, se colocam como defensores da democracia. Inclusive usam isso em propaganda, para vender o jornal. Como enxerga esse movimento?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse movimento pode ser visto como uma opera\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, na qual esses jornais tentam forjar para si uma imagem de defensores da democracia que nem sempre corresponde \u00e0 realidade factual. Essa constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria tende a silenciar o apoio ao regime militar e destaca os momentos em que a imprensa combateu a ditadura ou teve atritos com ela, o que faz parte de uma narrativa que nem sempre reflete a complexidade das rela\u00e7\u00f5es entre imprensa e poder durante esse per\u00edodo da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Eu percebo que h\u00e1 muito disso, a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria que acaba silenciando sobre esses apoios e p\u00f5e em evid\u00eancia justamente esses momentos em que a imprensa combateu a ditadura, teve atritos com a ditadura. Folha de S. Paulo fez isso, o Globo fez isso. S\u00e3o jornais que se dizem a favor da democracia, mas at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo estavam colaborando e sustentando regimes que, de democr\u00e1ticos, n\u00e3o t\u00eam nada.<\/p>\n<p><strong>Qual considera que tenha sido o papel da imprensa no processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Falando em grande imprensa, num processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o com a ditadura j\u00e1 bastante desprestigiada socialmente, muitos desses jornais se adaptaram \u00e0s mudan\u00e7as que estavam acontecendo. \u00c9 poss\u00edvel perceber que a defesa da volta ao Estado Democr\u00e1tico de Direito ocorreu sem, no entanto, esses jornais se colocarem contra os princ\u00edpios que sustentaram a ditadura. A grande imprensa foi mais favor\u00e1vel ao projeto de abertura pol\u00edtica da ditadura, mas se contrap\u00f4s a outras for\u00e7as sociais que demandavam uma transi\u00e7\u00e3o mais acelerada e com maior participa\u00e7\u00e3o da sociedade. Muitos jornais defenderam uma anistia que n\u00e3o punisse os torturadores, refletindo o projeto de anistia da ditadura, que n\u00e3o era o mesmo projeto demandado pelos movimentos sociais que ocuparam o Brasil desde meados dos anos 70.<\/p>\n<p>No contexto da campanha das Diretas J\u00e1, por exemplo, alguns jornais surfaram nessa onda, como foi o caso da Folha de S.Paulo, que foi o primeiro jornal a encampar a luta pelas diretas. Era oportuno ser a favor da sa\u00edda dos militares do poder, mas muitos entenderam que o saldo de duas d\u00e9cadas de ditadura militar havia sido positivo para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assim, em termos de grande imprensa, esses jornais se colocaram a favor da redemocratiza\u00e7\u00e3o, mas sob certos termos. \u00c9 necess\u00e1rio analisar isso criticamente para n\u00e3o endossar uma narrativa que coloca a imprensa como defensora intransigente da democracia, uma vez que a quest\u00e3o \u00e9 mais complexa e envolve diversas camadas que precisam ser destacadas. Isso \u00e9 particularmente verdadeiro para a grande imprensa, pois, se considerarmos a imprensa alternativa, esses jornais estavam o tempo todo fazendo uma oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e contundente ao regime, embora n\u00e3o tivessem a mesma penetra\u00e7\u00e3o social e dissemina\u00e7\u00e3o que os ve\u00edculos da grande imprensa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que h\u00e1, ainda hoje, algum tipo de \u2018resqu\u00edcio\u2019 dessa rela\u00e7\u00e3o entre \u2018grande imprensa\u2019 e poder?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o diria que \u00e9 propriamente um resqu\u00edcio, mas sim um tra\u00e7o caracter\u00edstico da grande imprensa: a aproxima\u00e7\u00e3o com os donos do poder e seus interesses. Isso acontece n\u00e3o apenas durante a \u00e9poca da ditadura, mas tamb\u00e9m agora. A mesma imprensa que se autoproclama democr\u00e1tica e defensora dos princ\u00edpios da democracia, muitas vezes n\u00e3o hesita em apoiar candidatos que representam uma amea\u00e7a s\u00e9ria aos princ\u00edpios democr\u00e1ticos, desde que esses candidatos atendam aos seus interesses. Portanto, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade entre os grandes grupos de comunica\u00e7\u00e3o e os detentores do poder, e isso n\u00e3o \u00e9 algo novo.<\/p>\n<p><strong>Como a hist\u00f3ria da ditadura militar brasileira e sua rela\u00e7\u00e3o com a imprensa pode servir de b\u00fassola para o futuro, para que fen\u00f4menos como a pr\u00f3pria ditadura militar n\u00e3o se repitam no Brasil?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 essencial reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 democracia sem uma imprensa livre. Mas essa imprensa tamb\u00e9m n\u00e3o deve sustentar nem apoiar for\u00e7as pol\u00edticas que visem ao fim da democracia. Por muito tempo, acreditou-se que nossa democracia estava consolidada e que est\u00e1vamos em outro patamar, acreditando que fantasmas do passado n\u00e3o mais nos amea\u00e7ariam. No entanto, os \u00faltimos anos mostraram que a realidade \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Curiosamente, a mesma imprensa que apoiou a ditadura, durante o governo de Jair Bolsonaro, passou a enfrentar ataques sistem\u00e1ticos. Nos \u00faltimos anos, houve uma deteriora\u00e7\u00e3o significativa da liberdade de imprensa, com jornais sendo atacados e a atividade jornal\u00edstica se tornando mais desafiadora. Isso demonstra que a liberdade de imprensa n\u00e3o est\u00e1 garantida de forma absoluta e que, periodicamente, podemos enfrentar situa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s da ditadura militar. O desafio, portanto, passa pela defesa intransigente da democracia, pois sem democracia n\u00e3o h\u00e1 imprensa livre e vice-versa.<\/p>\n<p>www.revistaforum.com.br\/<span class=\"post-author-name change-utf\">Ivan Longo<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No marco de 60 anos do golpe militar no Brasil, F\u00f3rum entrevista o historiador Jo\u00e3o Te\u00f3filo, que crava: \u201cA grande imprensa foi, em geral, mais apoiadora da ditadura do que o contr\u00e1rio\u201d Quando se estuda a\u00a0ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), seja na escola, na universidade, por meio de livros ou filmes, a quest\u00e3o da\u00a0censura \u00e0 liberdade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36154,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[1171],"class_list":["post-36153","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-60-anos-do-golpe-militar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36153"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36155,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36153\/revisions\/36155"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36154"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}