{"id":36693,"date":"2024-05-17T17:12:52","date_gmt":"2024-05-17T20:12:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=36693"},"modified":"2024-05-17T17:12:52","modified_gmt":"2024-05-17T20:12:52","slug":"para-ailton-krenak-crise-nao-e-so-climatica-e-de-uma-sociedade-estragada-pela-monocultura-de-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2024\/05\/17\/para-ailton-krenak-crise-nao-e-so-climatica-e-de-uma-sociedade-estragada-pela-monocultura-de-tudo\/","title":{"rendered":"Para Ailton Krenak, crise n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 clim\u00e1tica, \u00e9 de uma sociedade &#8216;estragada&#8217; pela &#8216;monocultura de tudo&#8217;"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Intelectual fala sobre for\u00e7a da diversidade e de trazer &#8216;uma sinfonia de 325 l\u00ednguas&#8217; \u00e0 Academia Brasileira de Letras<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ou\u00e7a o \u00e1udio:<\/strong><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-36693-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/15-05-24-PROGRAMA-BEM-VIVER-BAIXA-QUALIDADE.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/15-05-24-PROGRAMA-BEM-VIVER-BAIXA-QUALIDADE.mp3\">https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/15-05-24-PROGRAMA-BEM-VIVER-BAIXA-QUALIDADE.mp3<\/a><\/audio>\n<p>A eros\u00e3o ecol\u00f3gica, a crise de indiferen\u00e7a e a robotiza\u00e7\u00e3o de todos afazeres da humanidade podem ser interrompidos se protegermos e\u00a0recuperarmos nossas l\u00ednguas maternas.<\/p>\n<p><strong>Ailton Krenak v\u00ea esta como a \u00fanica sa\u00edda.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA l\u00edngua m\u00e3e \u00e9 como se a gente estivesse tentando lembrar quem n\u00f3s ainda somos\u201d, explica o intelectual, ativista, escritor e mais recente membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) em entrevista ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/radioagencia\/podcasts\/bem-viver\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">programa\u00a0<em>Bem Viver<\/em><\/a>\u00a0desta quarta-feira (15).<\/p>\n<p>Krenak realiza neste final de semana, em S\u00e3o Paulo, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C69n_civPvE\/?img_index=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">evento<\/a>\u00a0com lideran\u00e7as e artistas ind\u00edgenas de diferentes territ\u00f3rios de todo pa\u00eds para tratar do apagamento hist\u00f3rico das l\u00ednguas maternas e tamb\u00e9m apontar os esfor\u00e7os para revitaliza\u00e7\u00e3o deste conhecimento.<\/p>\n<p><em>L\u00edngua M\u00e3e<\/em>\u00a0acontece nos dias 18 e 19 de maio no Museu das Culturas Ind\u00edgenas, em S\u00e3o Paulo, e no dia 22 deste m\u00eas, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. A entrada \u00e9 gratuita.<\/p>\n<p>Krenak explica que este evento pode ser considerado sua primeira a\u00e7\u00e3o como membro da Academia Brasileira de Letras, fato oficializado no \u00faltimo m\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o posso chegar na casa do Machado de Assis de m\u00e3os vazias. A\u00ed quando fui perguntado pelos os meus colegas, o que que eu estava levando, eu falei eu t\u00f4 trazendo as l\u00ednguas ind\u00edgenas\u201d<\/p>\n<p>Mas o escritor vai al\u00e9m. Ele defende que a perda deste conhecimento \u00e9 p\u00f4r em risco o futuro da humanidade. \u201cA perda das l\u00ednguas maternas vai nos tornar a todos uma presa f\u00e1cil do rob\u00f4, do GPT, onde todo mundo vai ficando idiota\u201d.<\/p>\n<p>O intelectual faz uma analogia com o sistema agr\u00edcola que domina o meio rural brasileiro, apontado por ele como respons\u00e1vel, em parte, pela devasta\u00e7\u00e3o ambiental e, consequentemente, da crise clim\u00e1tica que estamos vivendo.<\/p>\n<p>\u201cNo s\u00e9culo 20 [a sociedade] passou a produzir uma monocultura, uma monocultura de tudo. A monocultura de tudo\u00a0 se expressa n\u00e3o s\u00f3 na nossa forma de habitar o mundo, mas na forma de reproduzir tamb\u00e9m a humanidade, reproduzir os humanos. N\u00f3s estamos ficando humanos bem estragados\u201d.<\/p>\n<p>Por tanto, o Brasil vive uma \u201cmonocultura lingu\u00edstica\u201d, expressada no exterm\u00ednio das m\u00faltiplas l\u00ednguas faladas neste territ\u00f3rio antes de 1500, defende Krenak, lembrando que o mesmo aconteceu com a popula\u00e7\u00e3o africana trazida ao Brasil.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Porque a decis\u00e3o de p\u00f4r\u00a0<em>L\u00edngua M\u00e3e<\/em>\u00a0como nome do evento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ailton Krenak:<\/strong>\u00a0Essa iniciativa re\u00fane especialistas que, desde da d\u00e9cada de 1990, est\u00e3o engajados em um esfor\u00e7o global que \u00e9 a d\u00e9cada de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/08\/14\/aprender-idiomas-indigenas-e-por-fim-na-colonizacao-forcada-defende-professor-macuxi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">salvamento das l\u00ednguas minorit\u00e1rias<\/a>\u00a0no planeta amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como a quest\u00e3o do clima no planeta foi atingindo picos de alto risco, outros aspectos da ecologia humana, da vida, da cultura tamb\u00e9m, t\u00eam passado por uma esp\u00e9cie de eros\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os humanos, na verdade, estamos correndo um risco grande de perder n\u00e3o s\u00f3 as nossas diversas culturas lindas, express\u00f5es, mas de perder tamb\u00e9m a nossa capacidade de cogni\u00e7\u00e3o, de compreender, de entender o que est\u00e1 acontecendo ao nosso redor. N\u00f3s estamos ficando burros.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos agora na terceira edi\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada mundial de salvamento de l\u00ednguas minorit\u00e1rias amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 a terceira, cara, n\u00e3o \u00e9 a primeira.<\/p>\n<p>Universidades come\u00e7aram a desenvolver projetos, iniciativas voltadas a esse esfor\u00e7o de identificar onde o risco de extin\u00e7\u00e3o \u00e9 mais, digamos, imediato e, tamb\u00e9m, o que fazer.<\/p>\n<p>Na verdade, \u201co que fazer\u201d, at\u00e9 agora, ficou s\u00f3 nisso mesmo, no bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1. Mas tem um resultado capilar dessa hist\u00f3ria que s\u00e3o pequenas comunidades humanas que, motivadas por esse alerta global, come\u00e7aram a se esfor\u00e7ar domesticamente no conv\u00edvio com suas fam\u00edlias, a resgatar registros lingu\u00edsticos, fazer esfor\u00e7o local, fazer grava\u00e7\u00e3o das falas dos mais velhos, dos anci\u00e3os, que ainda s\u00e3o falantes desde a inf\u00e2ncia, que isso \u00e9 a l\u00edngua m\u00e3e.<\/p>\n<p>O termo l\u00edngua m\u00e3e vem exatamente disso: \u00e9 a m\u00e3e que ensina algu\u00e9m a falar uma l\u00edngua. Quem ensinou voc\u00ea a falar sua l\u00edngua n\u00e3o foi a escola, foi sua m\u00e3e, quando voc\u00ea estava mamando j\u00e1 estava aprendendo a falar uma l\u00edngua.<\/p>\n<p>Depois voc\u00ea come\u00e7ou a letrar, n\u00e9? Voc\u00ea come\u00e7ou a criar em cima dessa experi\u00eancia sens\u00edvel da l\u00edngua que voc\u00ea herdou da sua m\u00e3e mamando. Por isso que a gente est\u00e1 fazendo um evento chamado l\u00edngua m\u00e3e.<\/p>\n<p>A l\u00edngua m\u00e3e tem um sentido t\u00e3o especial nesse tempo de eros\u00e3o ecol\u00f3gica, cultural que a gente est\u00e1 vivendo no mundo. \u00c9 como se a gente estivesse tentando lembrar quem n\u00f3s ainda somos.<\/p>\n<p>Quem somos? Essa tal de humanidade, essa diversidade de povos espalhados pelo planeta, e que no s\u00e9culo 20 passou a produzir uma monocultura de tudo.<\/p>\n<p>A monocultura de tudo se expressa n\u00e3o s\u00f3 na nossa forma de habitar o mundo, mas na forma de reproduzir tamb\u00e9m a humanidade, reproduzir os humanos. N\u00f3s estamos ficando humanos bem estragados.<\/p>\n<p>E a pedra das l\u00ednguas maternas vai nos tornar a todos uma presa f\u00e1cil do rob\u00f4,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/02\/17\/chatgpt-entenda-como-funciona-a-inteligencia-artificial-do-momento-e-os-riscos-que-ela-traz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do GPT<\/a>, onde todo mundo vai ficando idiota.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que eu estou com essa pauta desde que eu falei na Academia Brasileira de Letras \u201caqui \u00e9 o Brasil, aqui n\u00e3o \u00e9 Portugal\u201d.<\/p>\n<p>Essa academia se esfor\u00e7a por ampliar a lusofonia. Eu quero trazer para c\u00e1 uma sinfonia com essas 325 l\u00ednguas.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o entrar na Academia Brasileira de Letras te incentivou a atuar mais? H\u00e1 um incentivo por estar em um espa\u00e7o criado por Machado de Assis?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sempre me expresso como um sujeito coletivo, assim como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/16\/com-emicida-e-conceicao-evaristo-brasil-e-convidado-de-honra-na-feira-internacional-do-livro-de-havana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Emicida<\/a>. Ele n\u00e3o \u00e9 um cantor, ele \u00e9 um sujeito coletivo, a arte dele, \u00e9 a arte que arrasta junto com ele toda a sua semelhan\u00e7a, digamos assim.<\/p>\n<p>Seja o pessoal da periferia, o pessoal da quebrada, o pessoal at\u00e9 do jazz, da arte. Eu estou falando do Emicida porque eu adoro ele. Mas eu sou tamb\u00e9m um sujeito [coletivo]. Eu n\u00e3o fico naquela pauta assim, \u201cah, os \u00edndios precisam demarcar a terra, ah, os \u00edndios t\u00eam os seus direitos na constituinte\u201d.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 fiz isso, agora eu estou interessado em ocupar outros espa\u00e7os de discuss\u00e3o sobre a infinita capacidade desses povos, dessas cosmogonias, esses povos em diferentes linguagens, teatro, cinema, dan\u00e7a, literatura, e no meu caso a literatura me fez pousar na academia, quer dizer,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/04\/06\/ailton-krenak-na-abl-rompe-com-era-iracema-e-pocahontas-na-literatura-diz-escritor-indigena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na casa do Machado de Assis<\/a>.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o posso chegar na casa do Machado de Assis de m\u00e3os vazias. A\u00ed quando fui perguntado pelos os meus colegas, o que que eu estava levando, eu falei eu estou trazendo as l\u00ednguas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Porque desde cedo me incomodava esse neg\u00f3cio de a gente ter a l\u00edngua portuguesa como a l\u00edngua nacional num pa\u00eds com uma diversidade \u00e9tnica t\u00e3o grande.<\/p>\n<p>Os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/07\/03\/por-que-e-importante-estudar-a-historia-da-africa-nas-escolas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">povos que vieram da \u00c1frica pra c\u00e1<\/a>, esse tanto de gente, cerca de 6 milh\u00f5es de pessoas que vieram arrastados da \u00c1frica para serem escravizados aqui, eles trouxeram dezenas de l\u00ednguas. N\u00e3o sobrou nada do registro dessas l\u00ednguas na comunica\u00e7\u00e3o ampla, plural do Brasil.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o nos terreiros, eles est\u00e3o nas casas de religi\u00e3o deles, eles est\u00e3o nos seus guetos, mas eles n\u00e3o est\u00e3o na cultura respeitada do tal do Brasil.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem italiano, voc\u00ea tem \u00e1rabe, voc\u00ea tem gente do mundo inteiro aqui e essas diferentes culturas, elas precisam ser elevadas. Elas n\u00e3o podem ficar plasmadas debaixo de uma ideia de que a l\u00edngua portuguesa \u00e9 a l\u00edngua do Brasil.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 cheio de l\u00edngua para todo lado. Ent\u00e3o a gente tem que despertar para isso. \u00c9 mais ou menos como voc\u00ea imaginar uma passagem t\u00e3o mon\u00f3tona onde todo mundo fala uma mesma l\u00edngua.<\/p>\n<p>\u00c9 um autoengano isso. \u00c9 claro que n\u00e3o. Est\u00e1 cheio de dialetos africanos, ind\u00edgenas e italianos. A l\u00edngua que se fala aqui n\u00e3o \u00e9 o portugu\u00eas,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/07\/02\/que-lingua-e-essa-desvendando-o-portugues-brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a gente fala brasileiro<\/a>.<\/p>\n<p>Tem uma l\u00edngua brasileira que \u00e9 elevada de sentidos que Guimar\u00e3es Rosa, por exemplo, no seu conto magn\u00edfico,\u00a0<em>Meu Tio o Iauaret\u00ea<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/10\/03\/os-interiores-de-guimaraes-rosa-a-sabedoria-popular-nas-estorias-do-escritor-mineiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O que o Guimar\u00e3es Rosa faz?<\/a>\u00a0Ele p\u00f5e a l\u00edngua Krenak, Maxacali, Terena, Guaiap\u00f3,\u00a0 Xavante\u2026 Ele p\u00f5e essas l\u00ednguas todas pra conversar dentro de um conto chamado\u00a0<em>Meu Tio o Iauaret\u00ea<\/em>. Voc\u00ea acredita nisso?<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe quem fala esse tanto de l\u00edngua? As on\u00e7as. A hist\u00f3ria do conto \u00e9 sobre um menino ind\u00edgena que \u00e9 agarrado numa dessas ca\u00e7adas que os brancos fazem, os bandeirantes paulistas, no Goi\u00e1s. Trouxeram um menino \u00edndio de l\u00e1, e esse menino \u00edndio \u00e9 vendido e largado numa fazenda.<\/p>\n<p>Ele cresce e o dono da fazenda d\u00e1 a ele a tarefa de matar on\u00e7as, \u201cdeson\u00e7ar\u201d o territ\u00f3rio. Isso \u00e9 coisa que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/11\/berco-das-aguas-cerrado-sofre-com-avanco-do-agronegocio-e-recebe-pouca-atencao-diz-professor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o agroneg\u00f3cio faz hoje, desmata, acaba com o Cerrado<\/a>, acaba floresta, acaba tudo e bota soja.<\/p>\n<p><em>Meu Tio o Iauaret\u00ea<\/em>\u00a0\u00e9 um ensaio lingu\u00edstico, art\u00edstico, pirante, genial, que bota o Guimar\u00e3es Rosa na mesma vibe do James Joyce.<\/p>\n<p>O Guimar\u00e3es fez o que o Joyce queria fazer, s\u00f3 que o Guimar\u00e3es teve espa\u00e7o, tempo e ambiente para fazer. E o Joyce, tadinho, estava na Europa. Eu acho que a Europa j\u00e1 tava dando sinal de exaust\u00e3o e surto quando ele fez aquilo. A Europa est\u00e1 surtando, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>A ci\u00eancia j\u00e1 explicou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/05\/11\/a-conta-chegou-a-tragedia-climatica-no-rio-grande-do-sul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o que aconteceu meteorologicamente<\/a>\u00a0para este n\u00edvel de chuva ter ca\u00eddo no Rio Grande do Sul em t\u00e3o pouco tempo e de forma in\u00e9dita. Mas queria te ouvir sobre como voc\u00ea explicaria o que est\u00e1 acontecendo j\u00e1 em todo planeta.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil tocar um assunto desse\u2026 Todo mundo tem alguma coisa para falar sobre uma desgra\u00e7a dessa no momento desse.<\/p>\n<p>Eu preferia n\u00e3o falar nada, porque em 1865, um homem ind\u00edgena l\u00e1 no norte da Am\u00e9rica, um cara chamado Seattle, ele pronunciou as palavras que ficaram gravadas com o t\u00edtulo de\u00a0<em>A carta do grande chefe<\/em>.<\/p>\n<p>Ele responde para o presidente dos Estados Unidos [Franklin Pierce]. Esse cara foi dar uma geral nos ind\u00edgenas, igual ainda fazem aqui, na Am\u00e9rica do Sul, e chegou e encontrou um sujeito que \u00e9 esse chefe Seattle, chefe do povo Duwamish.<\/p>\n<p>O presidente dos Estados Unidos falou: \u201cQuero comprar essa terra a\u00ed\u201d. A\u00ed ele [chefe Seattle] perguntou para o cara \u201cComo que voc\u00ea quer comprar essa terra, cara? Voc\u00ea vai terminar enterrado aqui, \u00f3, enfiado l\u00e1 embaixo no barro\u201d.<\/p>\n<p>Eu resumo o meu coment\u00e1rio sobre o Rio Grande do Sul com isso. Se ningu\u00e9m entendeu o mens\u00e1rio de 1865 \u00e9 in\u00fatil falar alguma coisa agora agora,\u00a0em 2024.<\/p>\n<p><strong>Seu livro mais recente se chama\u00a0<em>Um Rio, Um P\u00e1ssaro<\/em>. Ele re\u00fane dois textos, um de 1990 quando voc\u00ea fez uma viagem pala Amaz\u00f4nia com o fot\u00f3grafo japon\u00eas Hiromi Nagakura; e outro mais do ano passado. Neste voc\u00ea fala da ideia de neutralidade. Tem um trecho que voc\u00ea escreve: \u201cO que produziu a ideia de naturalidade foi uma longa hist\u00f3ria, de os humanos pensarem uma economia e um progresso desenvolvimentista. (&#8230;) Neutralidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de abismo sensorial. Quem vive a neutralidade vive uma experi\u00eancia atomizantes do ego, do ego\u00edsmo\u201d. O que voc\u00ea quis dizer com isso?<\/strong><\/p>\n<p>A gente podia at\u00e9 pensar que sin\u00f4nimo de neutralidade, nesse contexto, seria indiferen\u00e7a. Essa experi\u00eancia de neutralidade \u00e9 que permite voc\u00ea ver um cara morrendo em uma cal\u00e7ada no centro metropolitano, tipo Nova Iorque, S\u00e3o Paulo ou Lisboa, e passar como se aquilo n\u00e3o fosse um outro ser que foi jogado ali apodrecendo na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Tem uma coisa ali na cal\u00e7ada, n\u00e3o \u00e9 um ser, \u00e9 uma coisa. E essa neutralidade produziu esse tipo de rela\u00e7\u00e3o que os humanos t\u00eam com tudo que n\u00e3o \u00e9 exatamente igual a ele, que n\u00e3o confere com ele.<\/p>\n<p>Por exemplo, um branco acha que todo humano tem que ser branco. Vai ser muito raro voc\u00ea encontrar num contexto amplo pessoas brancas que acham que quem n\u00e3o \u00e9 branco \u00e9 gente.<\/p>\n<p>S\u00f3 se tiver passado por uma esp\u00e9cie de educa\u00e7\u00e3o sentimental, uma educa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, uma educa\u00e7\u00e3o gentil, mas mesmo assim ele vai ter que atravessar uma pele para ele chegar no outro e falar \u201c\u00e9 um outro ser humano que est\u00e1 aqui. Ele tem a possibilidade de experimentar as mesmas dores que eu, de experimentar o mesmo abismo, e se eu puder estender a m\u00e3o a ele, se eu puder olhar para ele de verdade, a gente pode fazer uma dan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Que \u00e9 dan\u00e7a da vida. Todos os organismos vivos dan\u00e7am, as c\u00e9lulas dan\u00e7am. N\u00e3o tem jeito: se voc\u00ea pegar um microsc\u00f3pio e olhar, as c\u00e9lulas est\u00e3o dan\u00e7ando. Tudo dan\u00e7a. A terra dan\u00e7a. Ent\u00e3o a vida \u00e9 essa maravilha e n\u00f3s conseguimos transformar a vida numa coisa, naquele corpo morrendo na cal\u00e7ada que a gente j\u00e1 fez virar uma coisa.<\/p>\n<p>Depois a gente faz isso com outros organismos, a gente faz com cachorro, com pato, com le\u00e3o\u2026.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/12\/12\/melhor-ministro-da-cultura-gil-foi-criticado-ate-por-artistas-apos-convite-de-lula-em-2003\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como diz a can\u00e7\u00e3o do Gil,<\/a>\u00a0abacateiro, acataremos no seu ato, mas tamb\u00e9m somos do mato como pato e le\u00e3o.<\/p>\n<p>Olha, para voc\u00eas ficarem uma po\u00e9tica dessa, de abacateiro, o mato, o pato e o le\u00e3o falarem a mesma l\u00edngua, terem a mesma linguagem, \u00e9 uma po\u00e9tica de existir, que n\u00e3o permite isolamento, que n\u00e3o permite voc\u00ea se tornar imperme\u00e1vel a nada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea, na verdade, \u00e9 um parangol\u00e9, voc\u00ea \u00e9 atravessado por tudo. O mundo sofre, voc\u00ea sofre, entendeu? O mundo ri, voc\u00ea rir.<\/p>\n<p>\u00c9 aquilo que eu falei, abrace e rob\u00f4, entendeu? Vai morar em marte. Tem um desgra\u00e7ado de um cara que anda por a\u00ed provocando crise no mundo, controlando todos os meios de disrup\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Essa monstruosidade que acho que pode colonizar outros planetas, se a gente n\u00e3o conseguir, suspender o c\u00e9u, como diz o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/17\/davi-kopenawa-yanomami-na-salgueiro-vai-ficar-na-historia-do-povo-da-floresta-e-da-cidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kopenawa Yanomami<\/a>, se a gente n\u00e3o conseguir dan\u00e7ar e suspender o c\u00e9u, se a gente continuar querendo ser l\u00f3gico, racional, proativo, empreendedor\u2026<\/p>\n<p>Se tem uma coisa que me d\u00e1 tristeza \u00e9 essa conversa fiada de empreendedorismo, que todo mundo reproduz isso como se fosse um mantra da idiotice moderna.\u00a0\u00c9 uma desgra\u00e7a isso, isso \u00e9 uma bab\u00e1 corporativa, esse neg\u00f3cio de empreendedorismo.<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea tem muita gente carente, gente abandonada por a\u00ed afora, que abra\u00e7a essa hist\u00f3ria de empreendedorismo como se fosse uma religi\u00e3o, uma esp\u00e9cie de salva\u00e7\u00e3o da lavoura, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Recentemente o presidente Lula mencionou voc\u00ea em uma postagem falando do seu livro\u00a0<em>Ideias Para Adiar o Fim do Mundo<\/em>. Voc\u00ea aceitaria um cargo no governo federal?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu ia agradecer o convite gentilmente, mas caberia um sonoro cruz credo.\u00a0De jeito nenhum, por favor. Eu at\u00e9 evito muita fric\u00e7\u00e3o com esse campo a\u00ed porque da\u00ed n\u00e3o sai nada para mim que acena para um mundo melhor.<\/p>\n<p>Tem pessoas que se esfor\u00e7am para dar dignidade a esse campo da pol\u00edtica, mas ele est\u00e1 dominado pela cretinice, n\u00e9? O mundo da pol\u00edtica \u00e9 dominado pela cretinice, em qualquer lugar do planeta.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos diante de uma mediocridade t\u00e3o radical na vida pol\u00edtica que voc\u00ea queria fazer pol\u00edtica regional, local chega a ser insano. \u00c9 mais mais ou menos voc\u00ea querer tapar o sol com a peneira.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Lucas Weber<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelectual fala sobre for\u00e7a da diversidade e de trazer &#8216;uma sinfonia de 325 l\u00ednguas&#8217; \u00e0 Academia Brasileira de Letras Ou\u00e7a o \u00e1udio: A eros\u00e3o ecol\u00f3gica, a crise de indiferen\u00e7a e a robotiza\u00e7\u00e3o de todos afazeres da humanidade podem ser interrompidos se protegermos e\u00a0recuperarmos nossas l\u00ednguas maternas. 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