{"id":36717,"date":"2024-05-20T18:31:42","date_gmt":"2024-05-20T21:31:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=36717"},"modified":"2024-05-20T18:31:42","modified_gmt":"2024-05-20T21:31:42","slug":"tragedia-gaucha-e-consequencia-de-um-plano-de-estado-minimo-defende-pesquisadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2024\/05\/20\/tragedia-gaucha-e-consequencia-de-um-plano-de-estado-minimo-defende-pesquisadora\/","title":{"rendered":"&#8216;Trag\u00e9dia ga\u00facha \u00e9 consequ\u00eancia de um plano de Estado m\u00ednimo&#8217;, defende pesquisadora"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Ap\u00f3s prever cheia pior que 1941, Mima Feltrin\u00a0diz que prefeitura de Porto Alegre e governo do RS terceirizam obriga\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 2023, Porto Alegre acabara de passar por sua mais grave enchente desde a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/05\/05\/as-maiores-cheias-no-rs-ocorreram-nas-mesmas-datas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">famosa e hist\u00f3rica de 1941<\/a>. \u00c0 \u00e9poca, para descren\u00e7a de muitos, a arquiteta e pesquisadora Mima Feltrin disse que, a qualquer momento, a capital ga\u00facha poderia viver uma inunda\u00e7\u00e3o superior \u00e0quela de oito d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;Basta conflitarem os ventos, a convers\u00e3o dos rios da Serra, uma s\u00e9rie de fatores clim\u00e1ticos podem causar essa mesma enchente&#8221;, afirmou textualmente em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/07\/porto-alegre-podera-ter-uma-enchente-igual-a-de-1941-a-qualquer-momento-afirma-pesquisadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista ao\u00a0<strong>Brasil de Fato RS<\/strong>, publicada em 7 de outubro de 2023<\/a>.<\/p>\n<p>Agora, quando as \u00e1guas do Gua\u00edba n\u00e3o somente bateram seu recorde de 1941, mas o fizeram mais de uma vez,\u00a0voltamos a conversar com ela. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC\/RS), com interc\u00e2mbio acad\u00eamico pela Universitat Internacional da Catalunya, Barcelona, ela hoje trabalha e estuda \u00e1reas como espa\u00e7os p\u00fablicos,\u00a0<em>waterfronts<\/em>\u00a0e desastres ambientais.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Acompanhe:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; No dia 7 de outubro de 2023, logo ap\u00f3s as\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2023\/09\/26\/com-fortes-chuvas-vento-granizo-e-formacao-de-ciclone-rs-esta-em-alerta-com-rios-em-elevacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cheias que devastaram o Vale do Rio Taquari<\/a>, distante 100 km da capital, disseste em entrevista do Brasil de Fato RS que Porto Alegre poderia ter uma enchente igual \u00e0 hist\u00f3rica de 1941. De onde veio aquela convic\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mima Feltrin &#8211;\u00a0<\/strong>Veio do meu estudo sobre as inunda\u00e7\u00f5es em Porto Alegre desde 2019, quando fiz meu trabalho de conclus\u00e3o de curso na PUC\/RS. J\u00e1 trabalhava as inunda\u00e7\u00f5es nesse projeto de TCC. Ent\u00e3o, para fazer o projeto, comecei a pesquisar diferentes bibliografias e encontrei estudos do professor Tucci [Carlos Tucci, pesquisador de previs\u00e3o e alerta de sistema h\u00eddricos, ex-professor do Instituto de Pesquisas Hidr\u00e1ulicas, da UFRGS] que, em 2008, publicou um artigo chamado &#8220;As \u00c1guas Urbanas&#8221;. E, nele, j\u00e1 disponibilizava dados que comprovam que a enchente de 1941 teve diferentes picos de \u00e1gua comparados \u00e0s anteriores. A partir de c\u00e1lculos hidrol\u00f3gicos, ele comprova que enchentes parecidas com essas e com a intensidade da mesma magnitude ou maior at\u00e9 \u2013 como as de 1941 e de 1967 \u2013 poderiam acontecer a qualquer momento.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o usar somente uma refer\u00eancia, fui buscar outras. A Nasa tamb\u00e9m consegue prever isso. A plataforma da Nasa, o\u00a0<a href=\"https:\/\/sealevel.nasa.gov\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Sea Level Rise<\/em><\/a>, disponibiliza par\u00e2metros e cotas das cidades, onde conseguimos fazer c\u00e1lculos que comprovam a magnitude de eventos clim\u00e1ticos e corroboraram essa hip\u00f3tese do professor Tucci.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, levando em conta os dados, consegui afirmar que poderia acontecer uma nova enchente a qualquer momento. Quando a gente tem ainda as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o aquecimento global e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/12\/o-que-o-desmatamento-da-amazonia-tem-a-ver-com-as-cheias-no-rio-grande-do-sul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desmatamento da Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0em curso, estamos ajudando a intensificar os fatores de novas inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Tua previs\u00e3o pareceu impactante, mas, diante do que estamos enfrentando agora, tornou-se at\u00e9 modesta. Quais os erros que aconteceram para tudo ficar ainda pior?<\/strong><\/p>\n<p>Desde o seu in\u00edcio,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/17\/enchente-em-porto-alegre-se-houvesse-manutencao-do-sistema-nada-disso-estaria-acontecendo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Porto Alegre teve uma rela\u00e7\u00e3o muito franca com o Lago Gua\u00edba<\/a>. Ele faz parte da hist\u00f3ria da cidade. Foi atrav\u00e9s dele que chegaram os imigrantes portugueses que colonizaram o centro da nossa capital, a regi\u00e3o do porto. Chamava-se Porto dos Casais e depois virou Porto Alegre. Com a intensifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social atrav\u00e9s do porto, houve a a necessidade de construir um cais maior e, para isso, aterraram boa parte do leito original do rio.<\/p>\n<p>\u00c9 o primeiro erro. Mudamos drasticamente a estrutura do rio, o tamanho da sua foz, o que hoje contribuiria para n\u00e3o ter uma inunda\u00e7\u00e3o. Quando aterramos toda a grande parte do porto do 4\u00ba. Distrito (regi\u00e3o Norte da capital), mudamos completamente o curso das \u00e1guas e n\u00e3o conseguimos mais prever o caminho que elas v\u00e3o fazer.<\/p>\n<p>Depois, por uma falta, acredito, de planejamento urbano deixou-se construir muito perto do rio Jacu\u00ed, casos das avenidas Castelo Branco e Edvaldo Pereira Paiva. Por mais que tenhamos diques nas avenidas para a preven\u00e7\u00e3o de enchentes, vemos que n\u00e3o se respeitou as \u00e1reas de mangues, a fauna e flora locais que, nas inunda\u00e7\u00f5es, ajudariam a escoar a \u00e1gua. Onde dever\u00edamos ter a natureza ajudando a \u00e1gua a escoar, constru\u00edmos com concreto.<\/p>\n<p><strong>Em julho de 2023, o prefeito Sebasti\u00e3o Melo (MDB) mandou derrubar mais de 400 \u00e1rvores no parque da Harmonia, localizado junto ao Gua\u00edba. Por que no Brasil anda-se na contram\u00e3o do que muitas cidades no mundo est\u00e3o fazendo, replantando \u00e1rvores e tornando mais verdes suas ruas e avenidas? De que modo decis\u00f5es como essa sinalizam futuros problemas para a cidade?<\/strong><\/p>\n<p>Eu me assustei bastante com a elei\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/14\/juizes-criticam-sebastiao-melo-por-dizer-que-pessoas-em-liberdade-provisoria-contaminam-abrigos-no-rs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sebasti\u00e3o Melo<\/a>. Desde 2008 estava comprovado que se poderia ter uma inunda\u00e7\u00e3o igual ou maior do que a de 1941. E me assustei porque n\u00e3o vi nenhuma men\u00e7\u00e3o a projetos de preven\u00e7\u00e3o de inunda\u00e7\u00f5es ou (para enfrentar) as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Como se Porto Alegre n\u00e3o tivesse chance de sofrer uma inunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ter uma orla que propusesse a renaturaliza\u00e7\u00e3o dessa flora e fauna, que seria a orla do Cais Mau\u00e1. Prevendo uma preserva\u00e7\u00e3o do centro e dos armaz\u00e9ns que s\u00e3o patrim\u00f4nio cultural da cidade. Poder\u00edamos ter um parque a c\u00e9u aberto que, ao mesmo tempo, fosse a pr\u00f3pria prote\u00e7\u00e3o contra inunda\u00e7\u00f5es. Como est\u00e1 sendo constru\u00eddo em Nova York com o Rebuild B Design, do escrit\u00f3rio BIG. Onde houve v\u00e1rias reuni\u00f5es com a popula\u00e7\u00e3o para saber das suas necessidades. A gente v\u00ea Porto Alegre numa l\u00f3gica completamente inversa.<\/p>\n<p>Onde poder\u00edamos ter parques temos pr\u00e9dios altos com helipontos, negando essa vista dos armaz\u00e9ns para o seu porto. Onde poder\u00edamos ter um sistema hidrovi\u00e1rio muito acentuado pelo potencial que Porto Alegre tem. Quando muitas cidades no mundo est\u00e3o derrubando os viadutos, Porto Alegre est\u00e1 construindo mais viadutos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me traz muito medo pensar que o futuro de Porto Alegre est\u00e1 na m\u00e3o de um projeto de cidade negacionista. Onde n\u00e3o se pensa e nem se pergunta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o que ela necessita. Mas se pergunta \u00e0s grandes empresas da cidade que est\u00e3o completamente omissas nesta crise clim\u00e1tica que vivemos hoje.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea disse tamb\u00e9m que, devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de acordo com os modelos de simula\u00e7\u00e3o hoje dispon\u00edveis, Porto Alegre estar\u00e1 debaixo d&#8217;\u00e1gua dentro de 400 anos. Fale um pouco mais sobre isso.<\/strong><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dessa plataforma que citei, o\u00a0<em>Sea Level Rise<\/em>, da Nasa, conseguimos ver a situa\u00e7\u00e3o das cidades em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel do mar e qual a proje\u00e7\u00e3o desse n\u00edvel aumentar ao longo dos anos. \u00c9 uma conta que, a partir desses dados, se pode fazer. Fiz essa conta em 2019 e acredito que, hoje, a previs\u00e3o \u00e9 ainda mais pessimista.<\/p>\n<p>Porto Alegre est\u00e1 10 metros acima do n\u00edvel do mar. De acordo com a Nasa, tamb\u00e9m sobe esse n\u00edvel em Porto Alegre (a base de) 2,5 cent\u00edmetros ao ano. Em 400 anos, seriam esses 10 metros.<\/p>\n<p>Junto a isso, proje\u00e7\u00f5es do\u00a0<a href=\"https:\/\/unhabitat.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Un-Habitat<\/a>\u00a0(Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Assentamentos Urbanos) revelam que, at\u00e9 2050, aproximadamente 90% das maiores cidades do mundo estar\u00e3o expostas ao aumento do n\u00edvel do mar. Ent\u00e3o, vem de novo a indaga\u00e7\u00e3o: Como estamos nos preparando para resolver esse problema real que hoje bateu na nossa porta?<\/p>\n<p>Para voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s desses mesmos dados disponibilizados pela NASA, daqui a 100 anos Veneza vai estar completamente submersa. Vemos que o Brasil est\u00e1 muito atrasado nisso. Porque a pr\u00f3pria Veneza j\u00e1 tem constru\u00eddo um sistema de prote\u00e7\u00e3o prevendo esse futuro. Porque, para eles, \u00e9 um prazo muito menor.<\/p>\n<p>Mas, se a gente for comparar tamb\u00e9m Porto Alegre com Nova York, ocorre que em Nova York vai acontecer (a inunda\u00e7\u00e3o) daqui a mil anos. Mas o plano de Nova York de contrainunda\u00e7\u00f5es est\u00e1 sendo constru\u00eddo desde 2014 e junto com a popula\u00e7\u00e3o, enquanto Porto Alegre est\u00e1 sofrendo agora o abalo dessas inunda\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, \u00e9 urgente se falar sobre isso.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos, o poder p\u00fablico, como ocorreu no governo Eduardo Leite (PSDB), resolveu afrouxar e terceirizar suas responsabilidades de fiscaliza\u00e7\u00e3o dos empreendimentos, instituindo uma esp\u00e9cie de &#8220;autolicenciamento&#8221; em que o empres\u00e1rio fiscaliza a si pr\u00f3prio. A seu ver, isso melhora ou agrava a situa\u00e7\u00e3o que vivemos?<\/strong><\/p>\n<p>Essa trag\u00e9dia que o Rio Grande do Sul est\u00e1 vivendo \u00e9 consequ\u00eancia de um plano de Estado m\u00ednimo, que tanto o (governador) Eduardo Leite quanto o Sebasti\u00e3o Melo defendem. No Estado m\u00ednimo n\u00e3o se v\u00ea uma preven\u00e7\u00e3o de problemas. Vemos uma desorganiza\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria gest\u00e3o da crise. O Estado m\u00ednimo terceiriza as suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, dando um exemplo, quando da licita\u00e7\u00e3o para o projeto do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/07\/consorcio-e-o-unico-a-participante-da-lance-unico-e-leva-o-cais-maua-de-porto-alegre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cais Mau\u00e1<\/a>, houve estudos e relat\u00f3rios de impacto ambiental feitos pelas empresas. E vemos que a empresa vencedora, por mais que tivesse feito estudos de impacto, seu pr\u00f3prio projeto n\u00e3o buscava preservar ou melhorar a fauna e a flora. Logo, fica muito dif\u00edcil deixar a responsabilidade final na m\u00e3o de quem prev\u00ea somente o lucro do neg\u00f3cio. Nossos governos n\u00e3o levaram essa emerg\u00eancia clim\u00e1tica seriamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o vemos um projeto do governo federal quanto aos desastres que acontecem no Sudeste, no Sul, no Norte, no Nordeste. Acho que \u00e9 reflexo de toda uma sociedade que desacreditava que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas iam assolar nosso territ\u00f3rio. \u00c9 preciso essa virada de chave geral.<\/p>\n<p>Meu grau de otimismo \u00e9 baixo porque a gente tem que, primeiro, mudar a nossa maneira de pensar. \u00a0Come\u00e7ando a n\u00e3o tratar o caso do Rio Grande do Sul isoladamente. O pa\u00eds vai ser assolado por diferentes desastres em diferentes lugares do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Precisa-se ter um planejamento e projetos que levem em considera\u00e7\u00e3o esses novos tempos. N\u00e3o s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es carimbadas que v\u00e3o nos ajudar. Cada cidade tem as suas caracter\u00edsticas e cada uma precisa de projetos especiais.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ter uma mesma solu\u00e7\u00e3o para um projeto em Porto Alegre e outro, por exemplo, em Canoas. \u00c9 diferente por mais que os munic\u00edpios estejam t\u00e3o pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil ter uma vis\u00e3o otimista quando nem se admitia que est\u00e1vamos propensos aos desastres ambientais e naturais acentuados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pelo aquecimento global e desmatamento da Amaz\u00f4nia. Alguns meses atr\u00e1s, metade do pa\u00eds estava discutindo se a terra era plana ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil ser otimista em tempos em que se tem que defender o \u00f3bvio. Precisa-se inverter completamente a l\u00f3gica. Aquela l\u00f3gica de pensar que desastres acontecem eventualmente e s\u00e3o eventos isolados. Come\u00e7ar a acreditar em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Vai ser um processo de longo prazo.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para tomar as mesmas atitudes que a gente vinha tomando. Planos prevendo constru\u00e7\u00e3o sobre matas ciliares, em zonas de florestamento. \u00c9 um processo do pa\u00eds querer lidar com esses desastres. Porque capacidade e pesquisadores qualificados a gente tem.<\/p>\n<p><strong>E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o das cidades atingidas? \u00c9 poss\u00edvel pensar que, em locais onde a \u00e1gua chegou a dois andares ou mais dos pr\u00e9dios \u2013 como no Vale do Taquari por duas vezes em sete meses \u2013 seja poss\u00edvel reconstruir as cidades no local onde estavam?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reconstruir as cidades nos mesmos locais onde existiam. A maioria delas surgiu \u00e0 beira dos rios. N\u00e3o se teve os planos diretores efetivos para n\u00e3o ter essa constru\u00e7\u00e3o. Ou havia mas foram violados.<\/p>\n<p>Vamos ter que criar at\u00e9 uma bibliografia nacional sobre o assunto. Foi uma das grandes dificuldades que encontrei na minha pesquisa de mestrado. N\u00e3o havia bibliografia nacional que se pudesse consultar na preven\u00e7\u00e3o de desastres.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode projetar para daqui a 50 anos mas levando em considera\u00e7\u00e3o daqui a 200, 300, 400 anos. \u00c9 um trabalho imenso. Vai depender dos nossos governos, da nossa popula\u00e7\u00e3o. Da maneira como v\u00e3o encarar essa cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Uma pesquisadora de p\u00f3s-desastre, a Joanna Dixon, j\u00e1 dizia, l\u00e1 em 2022, que o in\u00edcio imediato da reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o trauma pode levar a equ\u00edvocos na tomada de decis\u00f5es. Em fun\u00e7\u00e3o da falta de tempo para refletir sobre a melhor maneira de reconstruir.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso que acho que temos que levar em considera\u00e7\u00e3o nesse p\u00f3s-desastre. Solu\u00e7\u00f5es pensadas a longo prazo. Para que a gente n\u00e3o volte a sofrer com as inunda\u00e7\u00f5es. J\u00e1 existem dados, projetos, estudos que com certeza teriam minimizado ou barrado completamente essas inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es propostas ap\u00f3s a enchente de 1967, uma foi a abertura de um canal at\u00e9 o oceano Atl\u00e2ntico al\u00e9m de outros tipos de barreiras de prote\u00e7\u00e3o. Optou-se por aquela que era a mais r\u00e1pida de construir e de menor custo. Foi o Muro da Mau\u00e1. Foi uma solu\u00e7\u00e3o imediatista. Tenho medo que, agora, ocorra o mesmo tipo de solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acontece que, quando sofremos um desastre, os primeiros passos que se tem \u00e9 a emerg\u00eancia, o socorrismo, e depois, logo, providenciar alguma solu\u00e7\u00e3o. Mas a solu\u00e7\u00e3o tem que ser pensada com o tempo, para longo prazo, para serem tomadas as medidas certas. N\u00e3o sei se isso vai ser considerado.<\/p>\n<p>O Muro da Mau\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 teve o seu impacto enquanto barreira \u00e0s inunda\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m acaba sendo uma cicatriz no tecido urbano. Ele separa o centro hist\u00f3rico e a popula\u00e7\u00e3o da orla. Em 2019, fiz uma pesquisa entrevistando as pessoas no centro da cidade. Perguntava se elas sabiam o que tinha atr\u00e1s do muro. Mais da metade dos entrevistados n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, vemos que casas de bombas n\u00e3o tinham manuten\u00e7\u00e3o desde 2018. Que as comportas do muro n\u00e3o tinham manuten\u00e7\u00e3o e restauro havia anos. E colocam sacos de areia nas comportas para elas aguentarem as \u00e1guas do Gua\u00edba. O tamanho descaso com que \u00e9 tratado esse assunto. Coloca-se a vida das pessoas em risco, optando-se por um saco de areia como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o comportamento de uma prefeitura que vem negando a natureza. Vem negando as \u00e1reas p\u00fablicas e privatizando \u00e1reas importantes, como a \u00e1rea do Cais Mau\u00e1. Querendo tirar o muro para ter uma barreira de 1m20cm. Ainda bem que n\u00e3o deu tempo deles fazerem isso, sen\u00e3o o estrago teria sido muito maior.<\/p>\n<p>www.brasildefato.com.br\/Fonte: BdF Rio Grande do Sul<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s prever cheia pior que 1941, Mima Feltrin\u00a0diz que prefeitura de Porto Alegre e governo do RS terceirizam obriga\u00e7\u00f5es Em outubro de 2023, Porto Alegre acabara de passar por sua mais grave enchente desde a\u00a0famosa e hist\u00f3rica de 1941. \u00c0 \u00e9poca, para descren\u00e7a de muitos, a arquiteta e pesquisadora Mima Feltrin disse que, a qualquer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":36718,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[1188],"class_list":["post-36717","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-tragedias-rio-grande-do-sul"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36717"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36717\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36719,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36717\/revisions\/36719"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}