{"id":37356,"date":"2024-07-15T17:15:18","date_gmt":"2024-07-15T20:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=37356"},"modified":"2024-07-15T17:15:18","modified_gmt":"2024-07-15T20:15:18","slug":"precarizacao-do-trabalho-rural-impacta-mais-pessoas-negras-e-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2024\/07\/15\/precarizacao-do-trabalho-rural-impacta-mais-pessoas-negras-e-mulheres\/","title":{"rendered":"Precariza\u00e7\u00e3o do trabalho rural impacta mais pessoas negras e mulheres"},"content":{"rendered":"<p><strong>Relat\u00f3rio da Oxfam Brasil revela realidade perversa que repete l\u00f3gica de servid\u00e3o do passado escravocrata do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da Oxfam Brasil indica que mulheres e pessoas negras s\u00e3o as maiores v\u00edtimas das consequ\u00eancias da informalidade no trabalho rural. De acordo com o estudo, 69,6% das trabalhadoras e trabalhadores s\u00e3o negras e negros e 58,3% trabalham sem as garantias da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>A desigualdade tamb\u00e9m se expressa nos sal\u00e1rios. Segundo os dados levantados, homens negros ganham 59,8% e mulheres negras 61,6% a menos que a m\u00e9dia. A informalidade atinge 46,1% da popula\u00e7\u00e3o preta e parda ocupada.<\/p>\n<p>Mais de cem anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o em lei do regime que condenou milh\u00f5es de pessoas \u00e0 servid\u00e3o for\u00e7ada, o cen\u00e1rio revela uma realidade que tem profundas conex\u00f5es com esse passado. O padr\u00e3o de desigualdade, constru\u00eddo a partir da invas\u00e3o portuguesa ao territ\u00f3rio, persiste at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Gustavo Ferroni, coordenador de Justi\u00e7a Rural da Oxfam Brasil, afirma que o trabalho no campo \u00e9 &#8220;herdeiro direto&#8221; da l\u00f3gica de servid\u00e3o que caracteriza a escravid\u00e3o e constitui uma &#8220;m\u00e1quina de alimentar desigualdades&#8221;. Ele lembra que a m\u00e3o de obra rural do pa\u00eds s\u00f3 entrou no escopo das leis trabalhistas a partir do fim da d\u00e9cada de 1980, com a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o desafios que ao longo de mais de um s\u00e9culo n\u00e3o foram superados. Particularmente no caso dos trabalhadores rurais, a informalidade \u00e9 muito alta. Estamos falando de empregadores que comp\u00f5em o agroneg\u00f3cio, que dizem que \u00e9 o setor que mais contribui para o PIB [Produto Interno Bruto]. Mas que crescimento econ\u00f4mico \u00e9 esse se os trabalhadores est\u00e3o informais e recebem sal\u00e1rios muito baixos?&#8221;<\/p>\n<p>Sistematicamente marginalizada nos processos hist\u00f3ricos brasileiros, a for\u00e7a de trabalho do campo convive com a pobreza e a vulnerabilidade social cotidianamente. A maior parte dessas pessoas t\u00eam ocupa\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias e, muitas vezes, os sal\u00e1rios est\u00e3o abaixo do m\u00ednimo nacional.<\/p>\n<p><strong>Sal\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>A nota informativa da Oxfam Brasil identificou fatores que contribuem para a perpetua\u00e7\u00e3o dos baixos sal\u00e1rios e da desigualdade no campo. O primeiro deles \u00e9 a divis\u00e3o injusta de valores nas cadeias produtivas. A din\u00e2mica favorece o lucro de grandes produtores, o que afeta a pequena e m\u00e9dia produ\u00e7\u00e3o e a massa trabalhadora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, entidades de classe enfraquecidas tamb\u00e9m representam um grande obst\u00e1culo. A aus\u00eancia de negocia\u00e7\u00e3o coletiva com sindicatos e outros \u00f3rg\u00e3os representativos impulsiona a assimetria de poder entre quem emprega e quem trabalha. O sal\u00e1rio-m\u00ednimo inadequado tamb\u00e9m intensifica essa realidade.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio leva o meio rural a ser o que mais registra situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o, representando cerca de 90% dos casos. Mas essa \u00e9 a consequ\u00eancia mais radical da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho rural. Antes dela, uma s\u00e9rie de outras viola\u00e7\u00f5es acontecem, alerta o documento.<\/p>\n<p>Na lista est\u00e3o crimes como a servid\u00e3o por d\u00edvida, a restri\u00e7\u00e3o de liberdades, as condi\u00e7\u00f5es degradantes, os descontos ilegais e a viol\u00eancia. &#8220;Temos que lembrar que a pessoa precarizada no campo est\u00e1 trabalhando dentro da fazenda, em regi\u00f5es isoladas, \u00e0 merc\u00ea completa do seu empregador&#8221;, pontua Ferroni.<\/p>\n<p>&#8220;A simetria de poder no campo entre o empregador e o trabalhador n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel a nenhuma outra. Esse ambiente de trabalho no campo \u00e9 que cria as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para esse tipo de explora\u00e7\u00e3o\u201d, completa ele.<\/p>\n<p><strong>Recomenda\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A nota da Oxfam Brasil apresenta caminhos para supera\u00e7\u00e3o do problema, baseados em experi\u00eancias com trabalhadoras e trabalhadores rurais em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. O documento aponta que a participa\u00e7\u00e3o de todos os atores nas cadeias produtivas \u00e9 essencial para implementar as recomenda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os processos de di\u00e1logo precisam reconhecer e agir para diminuir a assimetria entre quem emprega e quem trabalha. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m garantir participa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria entre trabalhadores e trabalhadoras.<\/p>\n<p>Ainda na lista de recomenda\u00e7\u00f5es est\u00e3o a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico envolvendo diversas esferas de governo para solu\u00e7\u00f5es capilarizadas e efetivas. O trabalho dos sindicatos deve ser fortalecido, sem limita\u00e7\u00e3o de acesso a trabalhadoras e trabalhadores e a locais de trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Antes da reforma trabalhista j\u00e1 era dif\u00edcil. Depois dela, os sindicatos de trabalhadores assalariados rurais est\u00e3o enfrentando enormes desafios. Muitos empregadores se recusam a negociar&#8221;, alerta o especialista.<\/p>\n<p>Segundo ele, essa realidade prejudica as possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o para a massa trabalhadora. &#8220;Temos trabalhadores que j\u00e1 v\u00eam de camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, nessa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao empregador. N\u00e3o t\u00eam negocia\u00e7\u00e3o coletiva, vivem dentro da fazenda, ent\u00e3o qual a capacidade de reclamar e se recusar a negociar individualmente?&#8221;<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es coletivas regulares e o estabelecimento de Conven\u00e7\u00f5es ou Acordos Coletivos de Trabalho (CCT e ACT) s\u00e3o essenciais para reverter o cen\u00e1rio, segundo o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para Ferroni, &#8220;\u00e9 inaceit\u00e1vel que o setor mais rico da economia tenha trabalhadores informais num n\u00edvel de 60%, praticamente. O campo inteiro deveria ser coberto de negocia\u00e7\u00e3o coletiva&#8221;.<\/p>\n<p>www.cut.org.br\/Nara Lacerda, BdF<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relat\u00f3rio da Oxfam Brasil revela realidade perversa que repete l\u00f3gica de servid\u00e3o do passado escravocrata do Brasil Um relat\u00f3rio da Oxfam Brasil indica que mulheres e pessoas negras s\u00e3o as maiores v\u00edtimas das consequ\u00eancias da informalidade no trabalho rural. 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