{"id":4586,"date":"2019-02-06T16:47:23","date_gmt":"2019-02-06T18:47:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=4586"},"modified":"2019-02-06T16:56:36","modified_gmt":"2019-02-06T18:56:36","slug":"vale-sabia-de-problemas-na-barragem-e-omitiu-os-riscos-em-documento-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/02\/06\/vale-sabia-de-problemas-na-barragem-e-omitiu-os-riscos-em-documento-publico\/","title":{"rendered":"Vale sabia de problemas na barragem e omitiu os riscos em documento p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<div class=\"Post-header\">\n<div class=\"Post-header-grid\">\n<div class=\"Post-header-row\">\n<div class=\"Post-header-block\">\n<div class=\"Post-title-block\">\n<p><strong>Empresa sabia de problemas na barragem e omitiu os riscos em documento p\u00fablico<\/strong><\/p>\n<p>Breno Costa<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"Post-body\">\n<div class=\"Post-content-block-outer\">\n<div class=\"GridContainer Post-scroll-container\">\n<div class=\"GridRow\">\n<div class=\"Post-content-block pt\">\n<div class=\"Post-content-block-inner\">\n<div class=\"PostContent\">\n<div>\n<p><u>A VALE FOI ALERTADA<\/u>\u00a0sobre falhas nos procedimentos de controle e manuten\u00e7\u00e3o da barragem que se rompeu em Brumadinho, mas\u00a0omitiu as informa\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o. Em seu Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental, apresentado em 2017, a empresa cortou uma tabela importante que alertava para os riscos, produzida para um relat\u00f3rio de 2015. O documento de 2015 \u00e9 o mesmo que serviu de base para a vers\u00e3o mais recente, de 2017, apresentado sem as informa\u00e7\u00f5es sobre os riscos da barragem.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"Newsletter-shortcode Newsletter-shortcode-layout-full\">\n<div class=\"Newsletter-shortcode-container\">\n<div class=\"Newsletter-shortcode-link\">Os problemas na barragem foram identificados por uma consultoria contratada pela mineradora, a empresa Nicho Engenheiros Consultores Ltda, uma firma de Belo Horizonte com atua\u00e7\u00e3o nesse mercado desde 1990. O\u00a0<strong>Intercept<\/strong>\u00a0conversou com o dono da Nicho, o engenheiro S\u00e9rgio Augusto da Silva Roman, que assinou o estudo de impacto de Brumadinho como respons\u00e1vel t\u00e9cnico. A Vale precisava dos laudos para expandir a minera\u00e7\u00e3o em Brumadinho.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p>Questionado sobre a aus\u00eancia das informa\u00e7\u00f5es na vers\u00e3o divulgada ao p\u00fablico geral em 2017, S\u00e9rgio Roman diz que \u201cn\u00e3o foi por omiss\u00e3o, mas porque n\u00e3o cabia mesmo\u201d. Perguntado por que n\u00e3o cabia esse tipo de informa\u00e7\u00e3o mesmo depois da trag\u00e9dia ocorrida em Mariana, em 2015, o engenheiro justificou assim: \u201cA popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ia entender porcaria nenhuma\u201d.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-telhado-1548694695.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233718 alignleft\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-telhado-1548694695.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"28-01-2019-vale-telhado-1548694695\" width=\"580\" height=\"362\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\"><strong>\u201cEu vi \u00e1rvores enormes e pessoas desaparecerem sob a lama\u201d, contou Emerson dos Santos. Ele permaneceu na casa de sua fam\u00edlia para proteger o que restou dela de saques.<\/strong><\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Mauro Pimentel\/Getty Images<\/p>\n<\/div>\n<h3>Medidores danificados, drenos secos<\/h3>\n<p>O documento \u00e9 o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), exigido de qualquer empreendimento que afete o meio ambiente. A papelada \u00e9 a base dos processos de licenciamento. \u00c9 a partir do documento e de vistorias pr\u00f3prias e eventuais pedidos de esclarecimentos que os \u00f3rg\u00e3os de controle ambiental autorizam obras ou, se for o caso, determinam o cumprimento de \u201ccondicionantes\u201d \u2013 medidas pr\u00e1ticas que devem ser tomadas para que, a\u00ed sim, as licen\u00e7as necess\u00e1rias sejam dadas pelo governo. \u00c9 um processo lento, geralmente proporcional ao tamanho do empreendimento.<\/p>\n<p>Entre as mais de duas mil p\u00e1ginas redigidas a partir do trabalho de uma equipe de 27 profissionais, a Nicho listou falhas de seguran\u00e7a nas barragens da Vale em Brumadinho. Os problemas afetavam diretamente a Barragem I, a maior do complexo do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, justamente a que estourou no dia 25 despejando uma quantidade equivalente a 4.800 piscinas ol\u00edmpicas lotadas de lama t\u00f3xica sobre funcion\u00e1rios da pr\u00f3pria Vale e resid\u00eancias espalhadas na zona de minera\u00e7\u00e3o da empresa.<\/p>\n<p>O estudo de impacto descreve, a partir da p\u00e1gina 1.041, os m\u00e9todos geralmente usados na ind\u00fastria para controlar a seguran\u00e7a de barragens. Um monte de termos t\u00e9cnicos para basicamente dizer que alguns elementos s\u00e3o simples de observar (como fissuras superficiais e eros\u00f5es), enquanto outros, praticamente invis\u00edveis, demandam uma aten\u00e7\u00e3o muito maior e o apoio de instrumentos. O problema \u00e9 que, segundo a consultoria contratada pela Vale, os instrumentos da gigante mundial da minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o estavam em perfeitas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1043-1548693887.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233713 alignright\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1043-1548693887.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"\" width=\"697\" height=\"407\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\"><strong>Relat\u00f3rio de 2015 identificou medidores de press\u00e3o que n\u00e3o estavam funcionando.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Uma geringon\u00e7a chamada piez\u00f4metro \u00e9 essencial para a medi\u00e7\u00e3o do n\u00edvel da press\u00e3o exercida pelos rejeitos e pela \u00e1gua sobre a estrutura das barragens. O relat\u00f3rio diz que a Vale tinha 78 deles para medir diferentes pontos das barragens, mas quatro deles eram antigos (instalados oito anos antes) e \u201calguns foram danificados ou suspeita-se n\u00e3o estarem funcionando corretamente\u201d. A press\u00e3o dos rejeitos sobre a parede de conten\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente o motivo mais evidente do rompimento. Pelo relat\u00f3rio, portanto, a Vale n\u00e3o poderia ter certeza, \u00e0 \u00e9poca, de que a press\u00e3o estava sob controle, j\u00e1 que v\u00e1rios medidores eram antigos, estavam danificados ou sequer funcionavam. Perguntada, a empresa n\u00e3o respondeu se trocou os equipamentos.<\/p>\n<p>Outro instrumento importante s\u00e3o os drenos, que conseguem medir a vaz\u00e3o da \u00e1gua. Nesse caso, indica a Nicho nas suas observa\u00e7\u00f5es, \u201cv\u00e1rios drenos encontram-se secos\u201d \u2013 ou seja, n\u00e3o estavam medindo vaz\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p>Numa esp\u00e9cie de pux\u00e3o de orelha na mineradora, os especialistas da Nicho registraram que, \u201ccomo princ\u00edpio, a manuten\u00e7\u00e3o deve ser executada imediatamente ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o do problema evitando-se sua progress\u00e3o, conjuga\u00e7\u00e3o com outros e amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a das Barragens I e VI\u201d. Como os problemas foram encontrados naquele momento, era sinal, portanto, de que n\u00e3o havia rea\u00e7\u00e3o imediata da Vale aos problemas (ou ao menos sobre parte deles).<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1045-1548693890.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233714 alignleft\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1045-1548693890.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"\" width=\"627\" height=\"522\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\"><strong>Empresa que fez o estudo deu um pux\u00e3o de orelha na Vale.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Para apresentar \u00e0s autoridades ambientais o impacto que determinado empreendimento ter\u00e1 no meio ambiente (\u00e1rvores, rios, animais e tamb\u00e9m seres humanos), as mineradoras contratam empresas de consultoria independentes, com equipe formada por especialistas de diferentes \u00e1reas (de bi\u00f3logos a ge\u00f3logos, passando por engenheiros), para detalhar os poss\u00edveis impactos ambientais gerados pelas suas atividades. \u00c9 uma exig\u00eancia legal. Mas tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de conflito de interesses intr\u00ednseca j\u00e1 que, no fim das contas, o objetivo do estudo \u00e9 convencer o poder p\u00fablico a liberar as obras.<\/p>\n<p>No caso da Vale, que desde 2003 explode montanhas na regi\u00e3o do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o em busca de min\u00e9rio de ferro, a contratada para produzir os laudos \u00e9 a Nicho. Em agosto de 2015, portanto meses antes do rompimento da barragem da Samarco (controlada pela Vale) em Mariana, a Vale apresentou \u00e0s autoridades ambientais de Minas Gerais mais de 2 mil p\u00e1ginas redigidas pela Nicho detalhando todo o projeto de expans\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o de Brumadinho.<\/p>\n<p>O Copam (Conselho Estadual de Pol\u00edtica Ambiental, \u00f3rg\u00e3o de Minas Gerais respons\u00e1vel pela concess\u00e3o da licen\u00e7a) nunca pediu esclarecimentos sobre os problemas apontados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Barragem I.<\/p>\n<h3>Calhas entupidas e at\u00e9 formigas<\/h3>\n<p>O engenheiro S\u00e9rgio Augusto da Silva Roman, da Nicho, que assinou o estudo de impacto de Brumadinho como respons\u00e1vel t\u00e9cnico, explica que a observa\u00e7\u00e3o dos problemas se deu em vistoria presencial, mas que n\u00e3o caberia \u00e0 sua empresa fazer uma an\u00e1lise mais pormenorizada da estrutura. \u201cN\u00f3s que fazemos licenciamento s\u00f3 recebemos o projeto pronto. Pressup\u00f5e-se que todos os crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e de seguran\u00e7a tenham sido obedecidos\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cA gente faz observa\u00e7\u00e3o, [aponta que] tem tal problema. Mas dificilmente numa mina que j\u00e1 est\u00e1 operando o \u00f3rg\u00e3o ambiental vai dizer que n\u00e3o pode operar mais\u201d, afirma. A barragem que estourou estava em opera\u00e7\u00e3o desde a d\u00e9cada de 1950. Segundo Roman, caberia ao \u00f3rg\u00e3o t\u00e9cnico pedir \u00e0 Vale mais esclarecimentos, complementa\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, para fazer uma an\u00e1lise mais profunda antes de conceder a licen\u00e7a. \u201cSe o \u00f3rg\u00e3o ambiental diz que n\u00e3o tem problema, n\u00e3o sou eu que vou dizer que tem\u201d.<\/p>\n<p>Entre outros problemas encontrados, estavam tamb\u00e9m o ac\u00famulo de sedimentos em calhas onde deveria escorrer \u00e1gua pela encosta da barragem e a presen\u00e7a de formigueiros na estrutura inclinada que liga o topo dela ao ch\u00e3o (se h\u00e1 formigueiros, sinal de que as formigas estavam penetrando no solo).<\/p>\n<p>E, por fim, um outro problema de falta de preven\u00e7\u00e3o: a Vale n\u00e3o produzia relat\u00f3rios mensais de seguran\u00e7a das barragens. A empresa respons\u00e1vel pelo Estudo de Impacto Ambiental recomendou, ent\u00e3o, que a Vale ou empresa contratada por ela passasse a emitir \u201cmensalmente um parecer escrito sobre a condi\u00e7\u00e3o das barragens, \u00e0 luz dos resultados do monitoramento\u201d.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1046-1548693893.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233715 alignright\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-tabela-1046-1548693893.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"28-01-2019-tabela-1046-1548693893\" width=\"610\" height=\"770\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\"><strong>Relat\u00f3rio recomendou vistoria mensal da barragem.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Sobre o controle das barragens, a Vale afirmou em comunicado divulgado na \u00faltima sexta-feira que vinha fazendo inspe\u00e7\u00f5es quinzenais na barragem e registrando suas observa\u00e7\u00f5es em sistema controlado pela Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o federal criado recentemente para regular o setor. A \u00faltima inspe\u00e7\u00e3o foi realizada tr\u00eas dias antes do rompimento e, segundo a mineradora, \u201cn\u00e3o detectou nenhuma altera\u00e7\u00e3o no estado de conserva\u00e7\u00e3o da estrutura\u201d.<\/p>\n<p>Apesar dos problemas apontados, a empresa contratada pela Vale concluiu em 2015 que, \u201cde acordo com inspe\u00e7\u00f5es realizadas pela Pimenta de \u00c1vila Consultoria (2010), an\u00e1lises de documentos e monitoramento disponibilizados pela Vale, constata-se que a estrutura [da Barragem I], na situa\u00e7\u00e3o atual, se encontra em condi\u00e7\u00f5es adequadas de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<h3>\u2018A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai entender porcaria nenhuma\u2019<\/h3>\n<p>Dois anos depois do primeiro estudo, em maio de 2017, a Vale e a Nicho apresentaram aos \u00f3rg\u00e3os ambientais uma nova vers\u00e3o do documento, agora j\u00e1 batizado como Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental (RIMA). N\u00e3o era de fato um novo relat\u00f3rio. Era apenas uma vers\u00e3o resumida do estudo feito anteriormente, com as mesmas conclus\u00f5es e uma capa mais bonita. Em vez de 2.114 p\u00e1ginas, eram 238.<\/p>\n<p>Como a Vale explica, esse novo relat\u00f3rio \u201ctrata das principais conclus\u00f5es sobre a regi\u00e3o e o empreendimento, sendo apresentadas de forma resumida e clara para que a popula\u00e7\u00e3o entenda o projeto, bem como as consequ\u00eancias ambientais de sua implementa\u00e7\u00e3o\u201d. E sugere que as pessoas interessadas leiam o Estudo de Impacto Ambiental, com suas mais de duas mil p\u00e1ginas cheias de jarg\u00f5es do mundo da minera\u00e7\u00e3o \u2013 mas que s\u00f3 ficaria dispon\u00edvel para consulta p\u00fablica, segundo a pr\u00f3pria Vale, depois da aprova\u00e7\u00e3o do empreendimento pelos \u00f3rg\u00e3os competentes. A divulga\u00e7\u00e3o de estudos de impacto ambiental antes da aprova\u00e7\u00e3o do empreendimento \u00e9 vetada por uma resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Meio Ambiente, de 1986.<\/p>\n<p>Faria falta a leitura completa, porque, no resumo, a Vale e a Nicho esqueceram de informar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre as observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas feitas pela equipe de especialistas aos procedimentos de controle e manuten\u00e7\u00e3o das barragens. Na verdade, as barragens, embora sejam parte importante do projeto de expans\u00e3o, s\u00e3o comentadas apenas em uma p\u00e1gina do relat\u00f3rio (<a href=\"http:\/\/www.siam.mg.gov.br\/siam\/lc\/2015\/0024520040502015\/4938442017.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">p\u00e1g. 36<\/a>). E sem refer\u00eancias cr\u00edticas.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-vaca-1548693716.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233711 alignleft\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-vaca-1548693716.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\" alt=\"Dam Collapses in Brazil\" width=\"670\" height=\"518\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\"><strong>Animais ficaram presos na lama que tomou o C\u00f3rrego do Feij\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Pedro Vilela\/Getty Images<\/p>\n<\/div>\n<h3>Dinheiro extra\u00eddo da barragem<\/h3>\n<p>As barragens mereciam um maior destaque no relat\u00f3rio. A Vale pretendia aumentar seus lucros explorando os rejeitos depositados na Barragem I. Explicando de maneira simplificada: geralmente os restos n\u00e3o aproveitados do processo de transforma\u00e7\u00e3o do ferro bruto extra\u00eddo das montanhas em produto comercializ\u00e1vel vai para a lata de lixo \u2013 ou seja, para as chamadas barragem de rejeitos, uma esp\u00e9cie de fossa sanit\u00e1ria gigante a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Acontece que, desde antes da trag\u00e9dia ambiental de Mariana, a Vale tenta obter a aprova\u00e7\u00e3o do governo de Minas Gerais para poder mexer nessa barragem j\u00e1 lotada (e, portanto, inativa) para drenar rejeitos para uma nova etapa de processamento.<\/p>\n<p>Nesse novo processo, os rejeitos seriam transferidos a partir de um duto de cerca de 1,5 km de extens\u00e3o, a ser constru\u00eddo, para que fossem transformados em \u201cpellet feed\u201d (um min\u00e9rio super fino, com menos de 0,15 mm de espessura). Trata-se de um min\u00e9rio menos valorizado, mas, ainda assim, \u00e9 dinheiro. Como a equipe da Nicho Engenheiros citou no Estudo de Impacto Ambiental, um pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais analisou a import\u00e2ncia econ\u00f4mica desse reaproveitamento de rejeitos pelas mineradoras e apontou que essas interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas de forma \u201cque seja traduzida em maior margem de lucro\u201d.<\/p>\n<p>Antes que essa transfer\u00eancia pelo chamado rejeitoduto come\u00e7asse, a Vale pretendia colocar retroescavadeiras em cima da barragem (que \u00e9 resistente no topo) at\u00e9 quando fosse poss\u00edvel (ou seja, antes que as escavadeiras come\u00e7assem a afundar na lama movedi\u00e7a). Para que as escavadeiras pudessem fazer o trabalho em seguran\u00e7a, o n\u00edvel da \u00e1gua no fundo da barragem de rejeitos deveria ser diminu\u00eddo gradativamente.<\/p>\n<p>Como se viu, a Vale pretendia mexer num gigante adormecido. No in\u00edcio de dezembro passado, a companhia finalmente conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o para fazer isso. Pouco mais de um m\u00eas depois, a barragem inativa que a Vale teve autoriza\u00e7\u00e3o para colocar retroescavadeiras em cima se rompeu e sua lama t\u00f3xica matou dezenas de pessoas.<\/p>\n<h3>Tudo certo, segundo a Vale<\/h3>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es oficiais sobre o desastre ainda est\u00e3o apenas come\u00e7ando, ent\u00e3o n\u00e3o se tem informa\u00e7\u00e3o definitiva sobre os procedimentos de controle e preven\u00e7\u00e3o que vinham sendo efetivamente realizados pela Vale em Brumadinho. A mineradora tem dito que fez tudo certo e que as barragens eram seguras.<\/p>\n<p>Em comunicado divulgado horas ap\u00f3s o rompimento da barragem, a Vale informou que a estrutura \u201cpossu\u00eda Declara\u00e7\u00f5es de Condi\u00e7\u00e3o de Estabilidade emitidas pela empresa TUV SUD do Brasil, empresa internacional especializada em Geotecnia\u201d. A \u00faltima declara\u00e7\u00e3o tinha sido emitida em setembro passado, segundo a mineradora, referente \u201caos processos de Revis\u00e3o Peri\u00f3dica de Seguran\u00e7a de Barragens e Inspe\u00e7\u00e3o Regular de Seguran\u00e7a de Barragens\u201d. Ainda segundo o comunicado da Vale, \u201ca barragem possu\u00eda Fator de Seguran\u00e7a de acordo com as boas pr\u00e1ticas mundiais e acima da refer\u00eancia da Norma Brasileira\u201d.<\/p>\n<p><strong>Atualiza\u00e7\u00e3o: 29\/01, 19h50:<\/strong><\/p>\n<p>A Vale se manifestou sobre o teor desta reportagem mais de 24 horas depois de ela ter sido publicada. Em tr\u00eas par\u00e1grafos de resposta, dois repetem teor de comunicado oficial j\u00e1 divulgado publicamente pela companhia no mesmo dia do rompimento da barragem, e que j\u00e1 estavam parcialmente reproduzidos na reportagem. Um desses esclarecimentos \u00e9 sobre a inspe\u00e7\u00e3o recente feita pela empresa alem\u00e3 TUV SUD na estrutura da barragem \u2013 a mesma que teve dois\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2019\/01\/29\/engenheiros-que-prestaram-servico-a-vale-sao-presos-em-sp-apos-tragedia-em-brumadinho.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">funcion\u00e1rios presos<\/a>\u00a0nesta ter\u00e7a-feira pela Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>No outro par\u00e1grafo, a Vale \u201cnega veementemente as acusa\u00e7\u00f5es levianas, absurdas e totalmente infundadas de que teria realizado qualquer tipo de altera\u00e7\u00e3o nos documentos apresentados \u00e0s autoridades competentes\u201d. A mineradora afirma que o protocolo do Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental feito em 2017 foi decorrente de uma audi\u00eancia p\u00fablica realizada naquele ano.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o altera em nada o ponto central da reportagem: a Vale omitiu, no RIMA, as observa\u00e7\u00f5es negativas feitas no Estudo de Impacto Ambiental (que \u00e9 a vers\u00e3o completa e mais t\u00e9cnica, e de acesso restrito, do Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental) pela consultoria contratada pela pr\u00f3pria mineradora quanto aos procedimentos e instrumentos usados para garantir a seguran\u00e7a da Barragem I naquela \u00e9poca. Em nenhum momento a reportagem do Intercept afirmou que a Vale fez alguma altera\u00e7\u00e3o no documento apresentado, no que seria um ind\u00edcio de fraude. O que apuramos, e est\u00e1 documentado e confirmado pelo engenheiro respons\u00e1vel pelo processo de licenciamento, \u00e9 que informa\u00e7\u00f5es importantes sobre a seguran\u00e7a da barragem ficaram de fora do documento publicizado pela empresa \u00e0 comunidade afetada pelo empreendimento.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-bombeiros-1548694087.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-233717 alignleft\" src=\"https:\/\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/01\/28-01-2019-vale-bombeiros-1548694087.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90&amp;w=1000&amp;h=1500\" alt=\"28-01-2019-vale-bombeiros-1548694087\" width=\"401\" height=\"602\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\"><strong>Bombeiros se esfor\u00e7am para encontrar sobreviventes ap\u00f3s o rompimento da barragem.<\/strong><\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Mauro Pimentel\/Getty Images<\/p>\n<p>www.theintercept.com<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empresa sabia de problemas na barragem e omitiu os riscos em documento p\u00fablico Breno Costa A VALE FOI ALERTADA\u00a0sobre falhas nos procedimentos de controle e manuten\u00e7\u00e3o da barragem que se rompeu em Brumadinho, mas\u00a0omitiu as informa\u00e7\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o. Em seu Relat\u00f3rio de Impacto Ambiental, apresentado em 2017, a empresa cortou uma tabela importante que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4587,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[112,114],"class_list":["post-4586","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-crime-ambiental","tag-meio-ambiente"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4586","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4586"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4586\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4591,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4586\/revisions\/4591"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}