{"id":6728,"date":"2019-06-17T15:22:58","date_gmt":"2019-06-17T18:22:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=6728"},"modified":"2019-06-17T15:22:58","modified_gmt":"2019-06-17T18:22:58","slug":"deu-no-new-york-times-bolsonaro-deixou-28-milhoes-de-brasileiros-sem-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/06\/17\/deu-no-new-york-times-bolsonaro-deixou-28-milhoes-de-brasileiros-sem-medicos\/","title":{"rendered":"Deu no New York Times: Bolsonaro deixou 28 milh\u00f5es de brasileiros sem m\u00e9dicos"},"content":{"rendered":"<p><em>A reportagem \u00e9 de Shasta Darlington e Let\u00edcia Casado no New York Times.<\/em><\/p>\n<p>Todas as cadeiras de pl\u00e1stico estavam vazias na cl\u00ednica de sa\u00fade p\u00fablica. Os pacientes que entraram cambaleantes foram mandados embora, para voltar na quinta-feira \u2013 agora o \u00fanico dia da semana em que um m\u00e9dico est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Embu-Gua\u00e7u, esta pequena cidade brasileira que abriga 70.000 pessoas, recentemente ficou sem oito de seus 18 m\u00e9dicos do setor p\u00fablico, uma perda devastadora para a rede de cl\u00ednicas gratuitas da cidade, for\u00e7ando a escolhas dif\u00edceis sobre quem receber\u00e1 tratamento, quando isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 de partir o cora\u00e7\u00e3o\u201d, disse Fernanda Kimura, m\u00e9dica que coordena a designa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos para as cl\u00ednicas do departamento de sa\u00fade local. \u201cComo escolher qual crian\u00e7a atender?\u201d<\/p>\n<p>Os doentes e os feridos que foram dispensados naquele dia, num bairro oper\u00e1rio de Embu-Gua\u00e7u, representam apenas uma pequena fra\u00e7\u00e3o dos estimados 28 milh\u00f5es de pessoas em todo o Brasil cujo acesso \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica foi drasticamente reduzido, se n\u00e3o interrompido, segundo a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Munic\u00edpios, ap\u00f3s um embate entre o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e Cuba.<\/p>\n<p>Em novembro, Cuba anunciou que estava retirando os 8.517 m\u00e9dicos que havia enviado para regi\u00f5es pobres e remotas do Brasil.<\/p>\n<p>A sa\u00edda abrupta de milhares de m\u00e9dicos mostrou a Bolsonaro um dos seus primeiros grandes desafios pol\u00edticos \u2013 e testou sua capacidade de cumprir a promessa de encontrar rapidamente substitui\u00e7\u00f5es caseiras.<\/p>\n<p>\u201cEstamos formando em torno de 20 mil m\u00e9dicos por ano e a tend\u00eancia \u00e9 aumentar esse n\u00famero\u201d, disse Bolsonaro em novembro. \u201cPodemos resolver esse problema com esses m\u00e9dicos.\u201d<\/p>\n<p>Mas seis meses depois do in\u00edcio do seu mandato, o Brasil luta para substituir os m\u00e9dicos cubanos pelos m\u00e9dicos brasileiros: 3.847 postos m\u00e9dicos do setor p\u00fablico em quase 3.000 munic\u00edpios continuam sem substitutos.<\/p>\n<p>\u201cEm v\u00e1rios estados, as cl\u00ednicas de sa\u00fade e seus pacientes n\u00e3o t\u00eam m\u00e9dicos\u201d, disse Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. \u201c\u00c9 um passo atr\u00e1s. Impede diagn\u00f3sticos precoces, monitoramento de crian\u00e7as, gravidez e a continua\u00e7\u00e3o de tratamentos que j\u00e1 estavam em andamento. \u201d<\/p>\n<p>Durante sua campanha \u00e0 presid\u00eancia, Bolsonaro, um populista de direita, se comprometeu a fazer grandes mudan\u00e7as no programa Mais M\u00e9dicos, uma iniciativa inaugurada em 2013, quando o governo de esquerda estava no poder. O programa enviou m\u00e9dicos para as pequenas cidades brasileiras, aldeias ind\u00edgenas e bairros urbanos violentos e de baixa renda.<\/p>\n<p>Cerca de metade dos profissionais do Mais M\u00e9dicos eram de Cuba, e foram enviados para 34 aldeias ind\u00edgenas remotas e para os bairros mais pobres de mais de 4.000 vilas e cidades, lugares em que a maioria dos m\u00e9dicos brasileiros estabelecidos prefere n\u00e3o trabalhar.<\/p>\n<p>\u201cA disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos cubanos para trabalhar em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis tornou-se uma pedra angular do sistema de sa\u00fade p\u00fablica\u201d, disse a professora Bahia.<\/p>\n<p>O Brasil pagou em d\u00f3lares \u00e0 Cuba pelos m\u00e9dicos, tornando-os uma pauta de exporta\u00e7\u00e3o vital para os cofres da ilha. Mas a maior parte do dinheiro foi para o governo cubano, um acordo que Bolsonaro advertiu que mudaria.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos cubanos h\u00e1 muito queixam-se de receber apenas uma pequena parte do dinheiro pago pelo seu trabalho, e Bolsonaro disse que eles teriam que manter todo o seu sal\u00e1rio e levar suas fam\u00edlias para o Brasil. Eles tamb\u00e9m teriam que passar por exames de equival\u00eancia para provar suas qualifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cNossos irm\u00e3os cubanos ser\u00e3o libertados\u201d, disse Bolsonaro em uma proposta de campanha oficial apresentada na campanha eleitoral. \u201cAs fam\u00edlias deles poder\u00e3o migrar para o Brasil. E, se passarem pela revalida\u00e7\u00e3o, come\u00e7ar\u00e3o a receber a quantia inteira que estava sendo roubada pelos ditadores cubanos!<\/p>\n<p>Duas semanas depois de Bolsonaro ter ganho a presid\u00eancia em outubro, Cuba chamou todos os seus m\u00e9dicos de volta.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica gratuita \u00e9 um direito da legisla\u00e7\u00e3o brasileira, e o Mais M\u00e9dicos foi promulgado em 2013 pela presidente Dilma Rousseff em uma tentativa de fornecer assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e0s comunidades que n\u00e3o estavam sendo atendidas pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Por meio de uma rede de cl\u00ednicas gratuitas, o programa forneceu a 60 milh\u00f5es de brasileiros acesso a um m\u00e9dico de fam\u00edlia em sua comunidade pela primeira vez.<\/p>\n<p>Nos primeiros quatro anos de Mais M\u00e9dicos, o percentual de brasileiros que recebem cuidados prim\u00e1rios aumentou de 59,6% para 70%, de acordo com um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade, que coordenou a participa\u00e7\u00e3o de Cuba no programa.<\/p>\n<p>A retirada dos m\u00e9dicos cubanos pode reverter essa tend\u00eancia, com as consequ\u00eancias especialmente severas para os menores de 5 anos, potencialmente levando \u00e0 morte de at\u00e9 37.000 crian\u00e7as at\u00e9 2030, alertou o Dr. Gabriel Vivas, funcion\u00e1rio da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em fevereiro, parecia que Bolsonaro cumpriria sua promessa de preencher as vagas dos cubanos: o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade Nacional anunciou que todas as vagas deixadas pela retirada de Cuba haviam sido preenchidas por m\u00e9dicos brasileiros. Mas, em abril, milhares de novos recrutas haviam desistido ou deixado de comparecer ao trabalho em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Mais de 2.000 m\u00e9dicos cubanos optaram por permanecer no Brasil, desafiando o chamado para voltar para casa. Mas com o acordo especial com Cuba terminado, eles agora s\u00e3o proibidos de praticar medicina at\u00e9 passarem num exame \u2013 que o governo brasileiro n\u00e3o ofereceu desde 2017 e para o qual o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o marcou data.<\/p>\n<p>Luiz Henrique Mandetta, ministro da Sa\u00fade do Brasil, disse que o novo governo est\u00e1 trabalhando em um projeto de lei para garantir que as metas do Mais M\u00e9dicos sejam alcan\u00e7adas e os m\u00e9dicos substitu\u00eddos.<\/p>\n<p>\u201cMesmo que o programa tenha v\u00e1rios problemas, tem um lado positivo, que \u00e9, precisamente, diminuir a desigualdade na neglig\u00eancia com a sa\u00fade\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Mas Mandetta inicialmente disse que o projeto seria enviado ao Congresso entre abril e maio. Agora, o minist\u00e9rio diz que ser\u00e1 introduzido at\u00e9 o final de junho.<\/p>\n<p>Karel S\u00e1nchez foi um dos quatro m\u00e9dicos cubanos enviados para a remota regi\u00e3o de Cachoeira do Arari, na Amaz\u00f4nia brasileira. Ele esperou cinco meses depois que seu governo ordenou a retirada de todos os m\u00e9dicos cubanos, com a expectativa de que o sr. Bolsonaro respeitaria sua promessa de campanha de submet\u00ea-lo a um exame para que ele pudesse continuar a trabalhar e receber seu sal\u00e1rio integral.<\/p>\n<p>\u201cFiquei feliz quando Bolsonaro disse que n\u00e3o apoiaria uma ditadura \u201d, disse S\u00e1nchez.<\/p>\n<p>Em abril, o Dr. S\u00e1nchez desistiu e mudou-se para S\u00e3o Paulo, onde arruma dinheiro vendendo doces caseiros e trabalhando como encarregado de bagagens num aeroporto.<\/p>\n<p>\u201cAgora ele n\u00e3o fala sobre n\u00f3s, apenas o sil\u00eancio\u201d, disse S\u00e1nchez.<\/p>\n<p>Em Embu-Gua\u00e7u, Dr. Santa Cobas, o m\u00e9dico cubano que servia os residentes na cl\u00ednica agora aberta apenas \u00e0s quintas-feiras, ainda estava por perto e ansioso por trabalhar.<\/p>\n<p>Mas o Dr. Cobas est\u00e1 desempregado e as 4.000 pessoas que ele j\u00e1 cuidou n\u00e3o t\u00eam acesso a um m\u00e9dico local seis dias por semana.<\/p>\n<p>\u201cAgora acabamos fazendo a triagem o dia todo \u2013 decidindo quem precisa correr para outro hospital, que vai ver o m\u00e9dico visitante na quinta-feira e quem ter\u00e1 que esperar\u201d, disse Erica Toledo, enfermeira-chefe da cl\u00ednica Jardim Campestre, que foi inaugurada em 2015.<\/p>\n<p>\u201cO doutor estava aqui desde o primeiro dia, e foi a primeira vez que as pessoas se sentiram cuidadas por seu \u201cpr\u00f3prio\u201d m\u00e9dico \u201c, disse Toledo. \u201cElas realmente o amam.\u201d<\/p>\n<p>A secret\u00e1ria de sa\u00fade de Embu-Gua\u00e7u, doutora Maria Dalva, disse estar frustrada com 63% dos eleitores da cidades, que votaram em Bolsonaro, apesar de sua antipatia pelo Mais M\u00e9dicos.<\/p>\n<p>\u201cA taxa de mortalidade infantil caiu de 17% para 7% em cinco anos gra\u00e7as ao Mais M\u00e9dicos\u201d, disse o Dr. Dalva. \u201cEu disse \u00e0s pessoas para pensarem sobre isso antes de votarem.\u201d<\/p>\n<div class=\"bt-social-share bt-social-share-below\">www.ctb.org.br<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reportagem \u00e9 de Shasta Darlington e Let\u00edcia Casado no New York Times. 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