{"id":7302,"date":"2019-07-15T14:38:30","date_gmt":"2019-07-15T17:38:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=7302"},"modified":"2019-07-15T14:43:23","modified_gmt":"2019-07-15T17:43:23","slug":"sem-merenda-quando-ferias-escolares-significam-fome-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/07\/15\/sem-merenda-quando-ferias-escolares-significam-fome-no-brasil\/","title":{"rendered":"Sem merenda: quando f\u00e9rias escolares significam fome no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O pano de prato vermelho adorna h\u00e1 dias a tampa do fog\u00e3o e n\u00e3o existe expectativa de que ele seja retirado dali em breve: n\u00e3o h\u00e1 comida para preparar no barraco em que Alessandra, de 36 anos, mora com cinco filhos &#8211; o mais velho de nove anos e o menor de 16 dias. As crian\u00e7as, em f\u00e9rias escolares, pulam e correm agitadas, se escondem entre as vielas, e Alessandra sabe que em breve chegar\u00e1 o momento em que elas v\u00e3o pedir para almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8220;Me corta o cora\u00e7\u00e3o eles quererem um p\u00e3o e eu n\u00e3o ter. J\u00e1 coloquei os meninos na escola pra isso mesmo, por causa da merenda. Um pouquinho de arroz sempre algu\u00e9m me d\u00e1, mas nas f\u00e9rias complica&#8221;, afirma Alessandra, que, desempregada, coleta latinhas na favela de Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo, onde mora. No dia da entrevista \u00e0 BBC News Brasil, os filhos de Alessandra iriam recorrer \u00e0 casa da av\u00f3 para conseguir se alimentar.<\/p>\n<p>O drama de Alessandra n\u00e3o \u00e9 incomum. As f\u00e9rias escolares &#8211; quando muitas crian\u00e7as deixam de ter o acesso di\u00e1rio \u00e0 merenda &#8211; intensificam a vulnerabilidade social de muitas fam\u00edlias em todo o pa\u00eds. Embora variem em conte\u00fado e qualidade &#8211; \u00e0s vezes s\u00e3o apenas bolacha ou p\u00e3o, em outras, s\u00e3o refei\u00e7\u00f5es completas de arroz, feij\u00e3o, legumes e carne &#8211; as merendas ocupam fun\u00e7\u00e3o importante no dia a dia de certos alunos. Para essas crian\u00e7as, nos per\u00edodos sem aulas \u00e9 que a fome, uma amea\u00e7a ao longo de todo ano, se torna uma realidade a ser enfrentada.<\/p>\n<p>No Parano\u00e1 Parque, conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida que fica a 25 minutos de dist\u00e2ncia do Pal\u00e1cio do Planalto, em Bras\u00edlia, as crian\u00e7as passam os dias livres empinando pipa, de est\u00f4mago vazio. &#8220;No final da tarde, elas me pedem, &#8216;tia, tem um p\u00e3ozinho a\u00ed para mim?&#8217; Se chega p\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o, acaba tudo em um minuto&#8221;, conta Maria Aparecida de Souza, l\u00edder comunit\u00e1ria no bairro.<\/p>\n<figure data-format=\"horizontal\">\n<figure id=\"attachment_7303\" aria-describedby=\"caption-attachment-7303\" style=\"width: 389px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7303\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/download-2-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"389\" height=\"218\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7303\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;No final da tarde elas me pedem, &#8216;tia, tem um p\u00e3ozinho a\u00ed para mim?&#8217; Se chega p\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o, acaba tudo em um minuto&#8221;, conta Maria Aparecida de Souza (de p\u00e9), l\u00edder comunit\u00e1ria no bairro Imagem: Arquivo Pessoal\/BBC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi ali que, em 2017, um menino, na \u00e9poca com oito anos, desmaiou de fome durante as aulas e virou not\u00edcia nacional. Ele estudava em um col\u00e9gio a 30 km de dist\u00e2ncia de sua casa, onde recebia como refei\u00e7\u00e3o apenas bolacha e suco. De l\u00e1 para c\u00e1, a situa\u00e7\u00e3o dos quase 30 mil moradores da \u00e1rea n\u00e3o parece ter melhorado.<\/figure>\n<p>&#8220;\u00c9 muito desemprego, m\u00e3es com cinco, seis ou oito filhos que n\u00e3o t\u00eam nada dentro de casa. Nem mesmo colch\u00e3o, g\u00e1s para cozinhar ou cobertor para este frio. Nas f\u00e9rias, algumas mulheres n\u00e3o t\u00eam o que dar aos filhos. Tenho 48 anos, sempre trabalhei nisso (assist\u00eancia comunit\u00e1ria), e nunca vi a coisa t\u00e3o ruim quanto est\u00e1 agora. Temos aqui no bairro 285 fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria total&#8221;, diz Souza.<\/p>\n<h3>&#8216;Se eu pagar a presta\u00e7\u00e3o da casa, n\u00e3o temos o que comer&#8217;<\/h3>\n<p>Embora n\u00e3o haja estudos nacionais que indiquem o tamanho da inseguran\u00e7a alimentar durante o per\u00edodo de f\u00e9rias escolares, uma s\u00e9rie de indicadores comprova a evolu\u00e7\u00e3o da pobreza no pa\u00eds e o modo como ela incide sobre as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>De acordo com a Funda\u00e7\u00e3o Abrinq, que fez c\u00e1lculos a partir de dados do IBGE, 9 milh\u00f5es de brasileiros entre zero e 14 anos do Brasil vivem em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza.<\/p>\n<p>O Sistema de Vigil\u00e2ncia Alimentar e Nutricional do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (Sisvan) identificou, no ano retrasado, 207 mil crian\u00e7as menores de cinco anos com desnutri\u00e7\u00e3o grave no Brasil.<\/p>\n<figure data-format=\"horizontal\">\n<p><figure style=\"width: 401px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/8a\/2019\/07\/15\/testemunhos-de-pessoas-em-areas-de-vulnerabilidade-social-indicam-que-a-merenda-escolar-acaba-sendo-a-garantia-de-consumo-minimo-de-alimentos-durante-o-ano-letivo-para-parte-das-criancas-diz-1563185196782_v2_750x421.jpgx\" alt=\"Eduardo Aigner\/MDS\/BBC\" width=\"401\" height=\"225\" data-crop=\"{\" data-src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/8a\/2019\/07\/15\/testemunhos-de-pessoas-em-areas-de-vulnerabilidade-social-indicam-que-a-merenda-escolar-acaba-sendo-a-garantia-de-consumo-minimo-de-alimentos-durante-o-ano-letivo-para-parte-das-criancas-diz-1563185196782_v2_750x421.jpg\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">&#8216;Testemunhos de pessoas em \u00e1reas de vulnerabilidade social indicam que (a merenda escolar) acaba sendo a garantia de consumo m\u00ednimo de alimentos durante o ano letivo para parte das crian\u00e7as&#8217;, diz especialista; acima, merenda de escola cearense, em foto de arquivo Imagem: Eduardo Aigner\/MDS\/BBC<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>A mais recente pesquisa de Seguran\u00e7a Alimentar do IBGE, de 2013, apontava que uma a cada cinco fam\u00edlias brasileiras tinha restri\u00e7\u00f5es alimentares ou preocupa\u00e7\u00e3o com a possibilidade de n\u00e3o ter dinheiro para pagar comida.<\/p>\n<p>Se a pesquisa fosse feita hoje, a fam\u00edlia da faxineira Marinalva Maria de Paula, de 57 anos, se enquadraria nessa condi\u00e7\u00e3o. Com uma renda de R$ 360 mensais para tr\u00eas adultos e uma crian\u00e7a, ela se v\u00ea cotidianamente frente a decis\u00f5es dram\u00e1ticas:<\/p>\n<p>&#8220;Se eu pagar a presta\u00e7\u00e3o do apartamento ou a conta de \u00e1gua, n\u00e3o temos o que comer. Quando a situa\u00e7\u00e3o aperta, prefiro dar comida pra minha neta e durmo com fome&#8221;, conta Marinalva, que teme despejo do pr\u00e9dio do Conjunto Habitacional (COHAB) em que mora, em S\u00e3o Paulo, por falta de pagamento do valor do im\u00f3vel e do condom\u00ednio.<\/p>\n<figure data-format=\"vertical\">\n<p><figure style=\"width: 262px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/f8\/2019\/07\/15\/marinalva-e-a-neta-em-busca-de-doacoes-para-garantir-a-alimentacao-da-familia-1563185424226_v2_450x600.jpgx\" alt=\"Mariana Sanches\/BBC\" width=\"262\" height=\"349\" data-crop=\"{\" data-src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/f8\/2019\/07\/15\/marinalva-e-a-neta-em-busca-de-doacoes-para-garantir-a-alimentacao-da-familia-1563185424226_v2_450x600.jpg\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Marinalva e a neta em busca de doa\u00e7\u00f5es para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Imagem: Mariana Sanches\/BBC<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption>A vasilha de arroz funciona como um term\u00f4metro da afli\u00e7\u00e3o de Marinalva: no dia da entrevista, restavam apenas dois dedos de cereal no pote. Com as f\u00e9rias da crian\u00e7a, de 3 anos, a comida que av\u00f3 consegue manter nos arm\u00e1rios acaba mais cedo e \u00e9 preciso partir em busca de doa\u00e7\u00f5es. O fen\u00f4meno que acontece na casa da faxineira j\u00e1 havia sido identificado pelo Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase) em 2008, quando um ter\u00e7o dos titulares do Bolsa Fam\u00edlia declaravam em pesquisa que a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia piorava durante as f\u00e9rias escolares.<\/figure>\n<p>&#8220;Quando minha filha me deu essa neta pra criar, ela me disse: &#8216;m\u00e3e, ou voc\u00ea pega a menina, ou eu vou matar ela de fome&#8217;. Eu aceitei e agora estou nessa situa\u00e7\u00e3o. Passo as noites acordada pensando, vou vivendo de pinguinho. Minha neta levanta de manh\u00e3 e quer o p\u00e3o dela, e eu me viro e me rebolo, porque na escola ela recebe e em casa eu n\u00e3o posso dizer pra ela que n\u00e3o tem p\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Marinalva n\u00e3o consegue emprego formal h\u00e1 quatro anos. Ela est\u00e1 muito longe de atingir a renda m\u00ednima familiar, estimada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos) em R$ 4.214, 62, para suprir sem car\u00eancias as necessidades com alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, higiene, transporte, lazer e previd\u00eancia dos quatro integrantes da casa. O valor, calculado em julho, equivale a quatro vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo atual, de R$ 998.<\/p>\n<h3>Fome e obesidade nas escolas p\u00fablicas<\/h3>\n<p>Na outra ponta do problema, professores e gestores escolares em diferentes partes do pa\u00eds confirmaram presenciar situa\u00e7\u00f5es de fome \u00e0 BBC News Brasil. A pedido dos profissionais, alguns entrevistados n\u00e3o ser\u00e3o identificados para n\u00e3o expor ou estigmatizar escolas e alunos.<\/p>\n<p>&#8220;De fato h\u00e1 uma crise no pa\u00eds e a percep\u00e7\u00e3o de que o aluno vai para a escola para comer \u00e9 real, a gente \u00e9 que aproveita a ida dele para ensinar&#8221;, afirmou Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato dos professores da rede estadual paulista (Apeoesp) e deputada estadual (PT-SP).<\/p>\n<p>Na favela carioca do Complexo da Mar\u00e9, a coordenadora do Projeto Uer\u00ea, Yvonne de Mello, que oferece refei\u00e7\u00f5es e aulas complementares a alunos de 6 a 18 anos, corrobora as palavras de Maria Izabel: &#8220;Neste ano e no ano passado, tenho recebido crian\u00e7as que n\u00e3o conseguem aprender de maneira nenhuma. N\u00e3o porque t\u00eam defici\u00eancia mental, mas porque n\u00e3o se alimentaram direito. Tive duas crian\u00e7as no Uer\u00ea que desmaiaram. (A crian\u00e7a) come\u00e7a a passar mal, a vomitar. Quando vai ver, n\u00e3o houve alimenta\u00e7\u00e3o no dia anterior&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Na periferia de Bel\u00e9m (PA), Lilia Melo, professora do ensino m\u00e9dio, conta que a col\u00f4nia de f\u00e9rias da escola p\u00fablica onde ensina ganhou ades\u00f5es depois que passou a oferecer lanches.<\/p>\n<p>&#8220;Esses dias, servi bolo com suco e vi um dos alunos levantando em dire\u00e7\u00e3o a sua mochila. Depois percebi que ele deixou de comer para guardar para mais tarde. Perguntei por que, e ele n\u00e3o disse nada. Dei mais um peda\u00e7o e ele comeu. Na sa\u00edda ele revelou: &#8216;professora, t\u00f4 levando pro meu irm\u00e3o&#8217;. Ele tem um irm\u00e3o de quatro anos. Ent\u00e3o, h\u00e1 aqueles que levam &#8216;para mais tarde&#8217; mas que no fundo querem garantir para seus familiares.&#8221;<\/p>\n<figure data-format=\"horizontal\">\n<p><figure style=\"width: 413px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/04\/2019\/07\/15\/nove-milhoes-de-criancas-brasileiras-entre-zero-e-14-anos-do-brasil-vivem-em-situacao-de-extrema-pobreza-acima-iniciativa-de-2010-em-belo-horizonte-que-ofereceu-merenda-a-alunos-durante-as-ferias-1563185657276_v2_750x421.jpgx\" alt=\"Gercom Barreiro\/Prefeitura de Belo Horizonte\/BBC\" width=\"413\" height=\"232\" data-crop=\"{\" data-src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/04\/2019\/07\/15\/nove-milhoes-de-criancas-brasileiras-entre-zero-e-14-anos-do-brasil-vivem-em-situacao-de-extrema-pobreza-acima-iniciativa-de-2010-em-belo-horizonte-que-ofereceu-merenda-a-alunos-durante-as-ferias-1563185657276_v2_750x421.jpg\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Nove milh\u00f5es de crian\u00e7as brasileiras entre zero e 14 anos do Brasil vivem em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza; acima, iniciativa de 2010 em Belo Horizonte que ofereceu merenda a alunos durante as f\u00e9rias Imagem: Gercom Barreiro\/Prefeitura de Belo Horizonte\/BBC<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption>Em escolas de S\u00e3o Paulo, a inseguran\u00e7a alimentar aparece mesmo durante o ano letivo, ap\u00f3s poucos dias sem aula. &#8220;Percebo que na segunda-feira os alunos chegam com muita fome, n\u00e3o comeram o suficiente no fim de semana. O card\u00e1pio da segunda n\u00e3o \u00e9 um dos preferidos deles, mas, ainda assim, as crian\u00e7as comem mais do que a m\u00e9dia dos outros dias&#8221;, afirma o diretor de uma unidade de ensino na zonal sul.<\/figure>\n<p>Um professor da rede p\u00fablica paulistana relembra o caso de uma aluna do per\u00edodo noturno que, sem comida em casa, trazia o filho menor para tamb\u00e9m se servir da merenda. &#8220;Com certeza algumas crian\u00e7as no per\u00edodo de f\u00e9rias ficam desprovidas de uma refei\u00e7\u00e3o&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>&#8220;Testemunhos de pessoas em \u00e1reas de vulnerabilidade social realmente indicam que (a merenda escolar) acaba sendo a garantia de consumo m\u00ednimo de alimentos durante o ano letivo para parte das crian\u00e7as&#8221;, explica \u00e0 reportagem Elisabetta Recine, professora e coordenadora do Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia. &#8220;Considerando as proje\u00e7\u00f5es de que a pobreza e extrema pobreza devem aumentar, as crian\u00e7as devem sofrer as consequ\u00eancias disso.&#8221;<\/p>\n<p>Simultaneamente \u00e0 fome, h\u00e1 outro problema a ser enfrentado: as crian\u00e7as brasileiras est\u00e3o cada vez mais obesas, incluindo as de baixa renda. O excesso de peso n\u00e3o revela uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade. \u00c9, na verdade, sinal do contr\u00e1rio disso &#8211; h\u00e1 um aumento expressivo do consumo de alimentos baratos e ultraprocessados, ricos em calorias mas pobres em nutrientes, aponta um estudo publicado neste m\u00eas pela Escola de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o Centro de Integra\u00e7\u00e3o de Dados e Conhecimentos para Sa\u00fade da Fiocruz Bahia.<\/p>\n<p>Com isso, uma parte ainda pequena, mas preocupante das crian\u00e7as de baixa renda, enfrenta uma dupla carga: a desnutri\u00e7\u00e3o aliada \u00e0 obesidade.<\/p>\n<p>&#8220;A obesidade tem crescido e vem atingindo cada vez mais a popula\u00e7\u00e3o menos favorecida socioeconomicamente&#8221;, diz em comunicado Natanael Silva, um dos autores da pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;A inseguran\u00e7a alimentar transcende a quantidade de comida&#8221;, agrega Maria Paula de Albuquerque, pediatra nutr\u00f3loga do Centro de Recupera\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Nutricional (Cren), entidade que atua em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h3>Desnutri\u00e7\u00e3o atrapalha o ensino?<\/h3>\n<figure data-format=\"horizontal\">\n<p><figure style=\"width: 369px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/b9\/2019\/07\/15\/em-conjunto-habitacional-do-df-ha-maes-que-nao-tem-o-que-dar-de-comer-aos-filhos-nas-ferias-acima-merenda-em-escola-brasiliense-1563185777068_v2_750x421.jpgx\" alt=\"Andr\u00e9 Borges\/Ag\u00eancia Brasil\/BBC\" width=\"369\" height=\"207\" data-crop=\"{\" data-src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/b9\/2019\/07\/15\/em-conjunto-habitacional-do-df-ha-maes-que-nao-tem-o-que-dar-de-comer-aos-filhos-nas-ferias-acima-merenda-em-escola-brasiliense-1563185777068_v2_750x421.jpg\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Em conjunto habitacional do DF, h\u00e1 &#8216;m\u00e3es que n\u00e3o t\u00eam o que dar de comer aos filhos nas f\u00e9rias&#8217;; acima, merenda em escola brasiliense Imagem: Andr\u00e9 Borges\/Ag\u00eancia Brasil\/BBC<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption>Para evitar que alunos famintos tenham dificuldade de aprendizagem, algumas escolas instituem um r\u00e1pido lanche antes do in\u00edcio das aulas, assim as crian\u00e7as conseguem esperar pelas refei\u00e7\u00f5es sem perder o foco no conte\u00fado em classe.<\/figure>\n<p>Diferentes pesquisas acad\u00eamicas indicam que o ac\u00famulo de defici\u00eancias nutricionais &#8211; seja causado pela fome, seja pelo consumo de alimentos de baixa qualidade &#8211; pode causar impacto na habilidade de aprendizado infantil. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil afirmar que a nutri\u00e7\u00e3o seja a causa espec\u00edfica e \u00fanica de problemas no desenvolvimento infantil, quando a crian\u00e7a sofre tamb\u00e9m com um sistema educacional que n\u00e3o \u00e9 adequado e com a falta de est\u00edmulos. Mas \u00e9 um entre tantos fatores desse ciclo de pobreza cruel&#8221;, aponta Albuquerque.<\/p>\n<p>Ela ressalta, por\u00e9m, que esse ciclo pode ser rompido, permitindo que mesmo crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade atinjam seu potencial. &#8220;Ainda que viva em situa\u00e7\u00f5es adversas, a crian\u00e7a \u00e9 um infinito de possibilidades. Seu c\u00e9rebro tem enorme plasticidade para absorver novos h\u00e1bitos. \u00c9 importante, por\u00e9m, fortalecer tamb\u00e9m quem cuida delas. N\u00e3o conseguimos melhorar a condi\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a sem melhorar tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p><em>*Colaborou Amanda Rossi<\/em><\/p>\n<p>www.bbc.com\/<span class=\"byline__name\">Paula Adamo Idoeta e Mariana Sanches<\/span><span class=\"byline__title\">Da BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pano de prato vermelho adorna h\u00e1 dias a tampa do fog\u00e3o e n\u00e3o existe expectativa de que ele seja retirado dali em breve: n\u00e3o h\u00e1 comida para preparar no barraco em que Alessandra, de 36 anos, mora com cinco filhos &#8211; o mais velho de nove anos e o menor de 16 dias. 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