{"id":7318,"date":"2019-07-15T15:20:42","date_gmt":"2019-07-15T18:20:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=7318"},"modified":"2019-07-15T15:24:06","modified_gmt":"2019-07-15T18:24:06","slug":"existe-alguma-ligacao-entre-crise-economica-e-aumento-nas-taxas-de-suicidio-ao-redor-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/07\/15\/existe-alguma-ligacao-entre-crise-economica-e-aumento-nas-taxas-de-suicidio-ao-redor-do-mundo\/","title":{"rendered":"Existe alguma liga\u00e7\u00e3o entre crise econ\u00f4mica e aumento nas taxas de suic\u00eddio ao redor do mundo?"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"title-link__title\"><span style=\"font-size: 16px;\">Dados da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) apontam que, a cada 40 segundos, algu\u00e9m comete suic\u00eddio no mundo.<\/span><\/h3>\n<p><i>Se voc\u00ea est\u00e1 deprimido e tem pensamentos suicidas, ligue para o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) por meio do n\u00famero 188. As liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o gratuitas para todo o Brasil.<\/i><\/p>\n<p class=\"story-body__introduction\">Os caminhos que levam ao suic\u00eddio s\u00e3o variados, mas uma palavra define o quadro que antecede a decis\u00e3o de tirar a pr\u00f3pria vida: crise, seja ela de qualquer natureza.<\/p>\n<p>Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) apontam que, a cada 40 segundos, algu\u00e9m comete suic\u00eddio no mundo. Majoritariamente fruto de instabilidade emocional e ps\u00edquica, para que contribuem diversos fatores, o suic\u00eddio \u00e9 considerado um dos mais graves problemas de sa\u00fade p\u00fablica, tanto em pa\u00edses em desenvolvimento como nos desenvolvidos.<\/p>\n<p>O quanto, por\u00e9m, crises econ\u00f4micas influenciam esse cen\u00e1rio?<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-48808913\">O que a morte de um poeta aos 32 anos ensina sobre a piora da sa\u00fade mental p\u00f3s Primavera \u00c1rabe<\/a><\/li>\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-47441793\">Quem s\u00e3o os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>A press\u00e3o do cotidiano exp\u00f5e pessoas de diferentes faixas et\u00e1rias a situa\u00e7\u00f5es-limite e testam a resili\u00eancia de todos em lidar com uma situa\u00e7\u00e3o adversa. Crises conjugais, doen\u00e7as e dores cr\u00f4nicas, problemas de relacionamento, o medo da viol\u00eancia, a perda de um emprego ou a de um ente querido: cada um responde de uma forma \u00e0s adversidades. Quando algum evento externo mobiliza uma popula\u00e7\u00e3o inteira, o quadro se torna mais sombrio.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot wsoj-component\" data-variation=\"default-0\"><\/div>\n<p>A BBC News Brasil ouviu a psiquiatra Alexandrina Meleiro, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos e Preven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio (Abeps), reuniu dados da psicologia social, \u00edndices da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e analisou estudos americanos, europeus e japoneses para entender qual a rela\u00e7\u00e3o entre suic\u00eddio e cen\u00e1rio econ\u00f4mico adverso.<\/p>\n<p>O Brasil vive nos \u00faltimos anos um cen\u00e1rio de instabilidade econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. Para Meleiro, o clima negativo prejudica a sa\u00fade mental dos brasileiros, mas precisa ser visto em perspectiva.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1, de fato, um aumento no n\u00famero de casos de depress\u00e3o e de ansiedade em momentos de crise econ\u00f4mica. O suic\u00eddio \u00e9 a resposta fatal a um problema de sa\u00fade mental que, de alguma forma, n\u00e3o p\u00f4de ser solucionado. Embora a crise econ\u00f4mica seja fator de risco reconhecido pelos \u00f3rg\u00e3os internacionais de sa\u00fade, ela n\u00e3o responde sozinha pelo aumento no \u00edndice. A maioria das pessoas est\u00e1 enfrentando a crise econ\u00f4mica, sob press\u00e3o social e mental, e est\u00e1 sobrevivendo&#8221;, afirma a psiquiatra.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<figure style=\"width: 409px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AA55\/production\/_107850634_mendigoafp.jpg\" alt=\"Morador de rua em Londres\" width=\"409\" height=\"230\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagemAFP Image caption Crise econ\u00f4mica pode agravar quadro de depress\u00e3o, mas n\u00e3o responde sozinha por eleva\u00e7\u00e3o em suic\u00eddios<\/figcaption><\/figure>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><strong>A crise e o desespero<\/strong><\/figure>\n<p>Segundo dados de 2016 da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, quase 80% dos suic\u00eddios s\u00e3o reportados em na\u00e7\u00f5es de rendas baixa e m\u00e9dia, e parte significativa dos casos ocorre em zonas distantes dos grandes centros.<\/p>\n<p>Apesar disso, o suic\u00eddio nas grandes cidades chama mais a aten\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Ocorr\u00eancias em vias p\u00fablicas, pra\u00e7as e pontes s\u00e3o mais vis\u00edveis e reportadas, o que nos leva a um dos principais problemas da divulga\u00e7\u00e3o de casos de suic\u00eddio, apontado por Alexandrina Meleiro: ele acaba sendo um fator de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Durante a Grande Depress\u00e3o, grave crise econ\u00f4mica americana ocorrida a partir da quebra da Bolsa de 1929 em Nova York, tornou-se comum relacionar a fal\u00eancia financeira a tentativas de suic\u00eddio. O per\u00edodo ficou marcado no imagin\u00e1rio popular pelas cenas e narrativas, registradas pela imprensa americana, de tentativas de suic\u00eddio em lugares p\u00fablicos.<\/p>\n<p>No entanto, para os psic\u00f3logos americanos David Lester e Bijou Yang, autores de\u00a0<i>The economy and suicide &#8211; economic perspectives on suicide<\/i>\u00a0(<i>Economia e suic\u00eddio &#8211; uma perspectiva econ\u00f4mica do suic\u00eddio<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre, de 1997), essa imagem n\u00e3o corresponde exatamente \u00e0 realidade do per\u00edodo. Os altos \u00edndices de suic\u00eddio registrados no pa\u00eds, entre 1925 e 1932, se justificam pelo fato de que foi justamente nessa \u00e9poca que os Estados americanos passaram a informar ao governo as causas de morte de sua popula\u00e7\u00e3o. No ano de 1929, os suic\u00eddios n\u00e3o foram mais ou menos altos do que sempre foram. No momento subsequente, sim.<\/p>\n<p>Na obra, Lester e Yang revisaram as taxas de suic\u00eddio nos EUA entre 1940 e 1994. Em uma abordagem que integrou aspectos econ\u00f4micos e sociol\u00f3gicos, afirmaram que recess\u00f5es podem impactar e ampliar o comportamento suicida, sobretudo em faixas et\u00e1rias e grupos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Conclu\u00edram que as taxas de suic\u00eddio n\u00e3o explodiram durante os booms e colapsos econ\u00f4micos do pa\u00eds, como havia sido previsto pelo soci\u00f3logo franc\u00eas \u00c9mile Durkheim, autor de &#8220;O Suic\u00eddio&#8221;, publicado no final do s\u00e9culo 19; que a taxa de desemprego tinha impacto prejudicial significativo entre homens brancos, embora desemprego n\u00e3o seja um fator t\u00e3o prevalente para suic\u00eddio fora dos Estados Unidos (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o); e que, surpreendentemente, a taxa de div\u00f3rcio foi a \u00fanica vari\u00e1vel que teve impacto consistente entre todos os grupos sociais.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 418px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4AFC\/production\/_107769191_929e3ad7-12bf-453e-9df3-239ab1d7125e.jpg\" alt=\"Homem no metr\u00f4\" width=\"418\" height=\"235\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagem\u00a0AMANDA MONT&#8217;ALV\u00c3O VELOSO Image caption<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Quando algum evento externo mobiliza uma popula\u00e7\u00e3o inteira, o quadro se torna mais sombrio<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O que o caso grego ensina<\/h2>\n<p>&#8220;Os felizes s\u00e3o iguais; os infelizes o s\u00e3o cada um a sua maneira&#8221; &#8211; no romance\u00a0<i>Anna Karenina<\/i>, Liev Tolst\u00f3i falava de fam\u00edlias, mas a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 precisa em rela\u00e7\u00e3o aos dados de suic\u00eddio pelo mundo.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre estresse emocional devido \u00e0 recess\u00e3o e a problemas financeiros pode levar a quadros suicidas. Alguns grupos sociais e et\u00e1rios s\u00e3o mais atingidos que outros, e a predisposi\u00e7\u00e3o a determinados transtornos tamb\u00e9m \u00e9 um dado relevante.<\/p>\n<p>De modo geral e a despeito de exce\u00e7\u00f5es, a economia dos pa\u00edses viveu um momento euf\u00f3rico entre os anos 1990 e meados de 2000. Mesmo com percal\u00e7os, a consolida\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia proporcionou aos seus membros um salto na qualidade de vida &#8211; houve queda ou estabilidade no n\u00famero de suic\u00eddios at\u00e9 entre grupos mais suscet\u00edveis, como o da terceira idade.<\/p>\n<p>O esfacelamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991, provocou mudan\u00e7as profundas entre as ex-rep\u00fablicas. Saltavam \u00e0 vista as elevadas taxas de suic\u00eddio entre os pa\u00edses independentes, como a pr\u00f3pria R\u00fassia e a Litu\u00e2nia. Pa\u00edses do Leste Europeu e b\u00e1lticos, uma zona de conflito nos anos 1990, tamb\u00e9m registraram alta dos suic\u00eddios. Fora dali, s\u00f3 o Jap\u00e3o se destaca negativamente. Ele \u00e9 um caso \u00e0 parte: um pa\u00eds altamente desenvolvido e de expectativa de vida alta, que apresenta n\u00fameros preocupantes nesses \u00edndices.<\/p>\n<p>Um estudo publicado em 2013 pelo British Medical Journal estima que quase 4.900 suic\u00eddios a mais do que o esperado ocorreram em 2009, meses depois da crise econ\u00f4mica global de 2008, reunindo as estat\u00edsticas de 54 pa\u00edses, a maioria europeus. Homens jovens desempregados e homens com idade entre 45 e 64 anos foram os grupos mais suscet\u00edveis.<\/p>\n<p>A OMS n\u00e3o tinha particular preocupa\u00e7\u00e3o com suic\u00eddio entre os gregos antes dos anos 2000 &#8211; a na\u00e7\u00e3o tinha uma das taxas mais baixas do mundo at\u00e9 a crise de 2008, que jogou parte do mundo em um beco sem sa\u00edda. No bloco europeu, a Gr\u00e9cia teve de aplicar um duro plano de austeridade em troca de empr\u00e9stimos, junto ao FMI, para tentar sanar a d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<figure style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/23EC\/production\/_107769190_315bcf0f-a22b-4268-a0f2-126cda088c80.jpg\" alt=\"Gr\u00e9cia\" width=\"433\" height=\"243\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagemBBC WORLD SERVICE Image captionNo bloco europeu, a Gr\u00e9cia teve de aplicar um duro plano de austeridade em troca de empr\u00e9stimos, junto ao FMI, para tentar sanar a d\u00edvida p\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 2011, a taxa de desemprego no pa\u00eds passava de 16% (entre os jovens, o \u00edndice superava 45%). Um estudo publicado em 2018, a partir de registros forenses da cidade de Creta, no per\u00edodo entre 1999 e 2013, revelou um quadro bastante semelhante ao observado na an\u00e1lise dos americanos Lester e Yang. Apesar de a crise atingir em cheio os jovens desempregados, o \u00edndice de suic\u00eddio sofreu ligeiro aumento entre essa parcela da popula\u00e7\u00e3o, nos piores anos da crise econ\u00f4mica (entre 2009 e 2013).<\/figure>\n<p>O que chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a alta no n\u00famero de suic\u00eddios entre homens entre 40 e 64 anos (ou mais), especialmente numa regi\u00e3o da cidade com poucos ambulat\u00f3rios e com d\u00e9ficit de leitos hospitalares para pacientes com problemas de sa\u00fade mental (estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, s\u00edndrome do p\u00e2nico, depress\u00e3o e ansiedade).<\/p>\n<p>Alexandrina Meleiro v\u00ea o exemplo grego como uma s\u00edntese razo\u00e1vel de o que acontece em momentos de crise econ\u00f4mica. Problemas financeiros impactam desse modo um grupo populacional espec\u00edfico: desempregados e homens acima dos 40 anos que, ao perder poder de compra e redu\u00e7\u00e3o na renda perdem status e se veem obrigados a viver com menos.<\/p>\n<p>&#8220;Foi esse o grupo mais atingido durante o confisco dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios e o congelamento da poupan\u00e7a do Plano Collor, em 1990. Veja, n\u00e3o foi uma crise econ\u00f4mica, foi uma medida que tinha a inten\u00e7\u00e3o de resolver a superinfla\u00e7\u00e3o e que, no final das contas, desestabilizou ainda mais a economia. Muita gente perdeu o ch\u00e3o, foi \u00e0 fal\u00eancia, perdeu bens, teve de repensar os gastos com escola, viagem, alimenta\u00e7\u00e3o. Isso tudo faz adoecer, nos deprime. E muitos empres\u00e1rios e pais de fam\u00edlia n\u00e3o suportaram.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 um componente de g\u00eanero importante. O grupo de homens adultos \u00e9 mais vulner\u00e1vel porque procura menos ajuda m\u00e9dica quando passa por momentos de crise, seja ela emocional, amorosa (conjugal) ou financeira.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o pessoas que muitas vezes se envergonham de pedir ajuda, que n\u00e3o t\u00eam capacidade de enfrentamento. A mulher deprime, chora, se entristece, mas acessa uma rede de apoio &#8211; amigos, familiares, comunidades religiosas, m\u00e9dicos. Ela se permite mostrar-se fr\u00e1gil. Muitas vezes o homem tem recursos para procurar tratamento, mas o estigma faz com que ele n\u00e3o o procure.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Jap\u00e3o tem \u00edndices de suic\u00eddio mais altos do que em outros pa\u00edses desenvolvidos<\/h2>\n<p>Os \u00edndices de suic\u00eddio no Jap\u00e3o est\u00e3o muito acima dos registrados em outras na\u00e7\u00f5es desenvolvidas. J\u00e1 eram altos, mas foram diretamente impactados pela desigualdade social decorrente das crises econ\u00f4micas e por quest\u00f5es morais relacionadas \u00e0 culpa pelo fracasso.<\/p>\n<p>Soci\u00f3logos que estudam os altos \u00edndices de suic\u00eddio no Jap\u00e3o avaliam que o elo entre a tradi\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds, em que h\u00e1 forte senso de grupo e familismo autorit\u00e1rio, foi agravado pela crise econ\u00f4mica dos anos 1990. A rela\u00e7\u00e3o entre desemprego e fal\u00eancia financeira cria um embara\u00e7o p\u00fablico de enfrentar os problemas por conta pr\u00f3pria. Muitos n\u00e3o aguentam a press\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<p><figure style=\"width: 467px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E354\/production\/_107769185_28cc2039-eec7-4b9b-960a-b04d2c795f52.jpg\" alt=\"Jovem\" width=\"467\" height=\"311\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Direito de imagemGETTY IMAGES Image captionOs \u00edndices de suic\u00eddio no Jap\u00e3o est\u00e3o muito acima dos registrados em outras na\u00e7\u00f5es desenvolvidas<\/figcaption><\/figure><\/figure>\n<p>Em meio aos mitos sobre a resili\u00eancia japonesa e um pouco de folclore, os resultados emp\u00edricos mostram que vari\u00e1veis socioecon\u00f4micas explicam a incid\u00eancia de suic\u00eddio no Jap\u00e3o. A recente epidemia de suic\u00eddio est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 recess\u00e3o econ\u00f4mica da chamada &#8220;d\u00e9cada perdida&#8221; dos anos 1990, ap\u00f3s a explos\u00e3o da bolha.<\/p>\n<p>A crise financeira de 1997, que atingiu em cheio os pa\u00edses asi\u00e1ticos, fez aumentar os registros de suic\u00eddio em quase todos os pa\u00edses da regi\u00e3o, como Tail\u00e2ndia, Indon\u00e9sia, Coreia do Sul e Mal\u00e1sia. Mas o Jap\u00e3o foi o pa\u00eds em que o aumento foi mais acentuado. Pior: o \u00edndice manteve-se alto mesmo ap\u00f3s a retomada econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Promulgada em 2006, a Lei de Preven\u00e7\u00e3o ao Suic\u00eddio criada pelo governo lan\u00e7ou diretrizes e a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica para tentar conter a depress\u00e3o e o suic\u00eddio entre fatias populacionais mais vulner\u00e1veis. Os n\u00fameros t\u00eam apresentado queda ano a ano.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Teorias sobre o suic\u00eddio<\/h2>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 um a\u00e7\u00e3o que revela conflito e ambival\u00eancia. \u00c9 um fato social perturbador, cercado de tabus, motivado por causas sociais, interpessoais e pessoais, sobre as quais h\u00e1 poucas certezas.<\/p>\n<p>A medicina e as ci\u00eancias sociais t\u00eam estudado as causas do suic\u00eddio ao longo do tempo. Entre os grandes especialistas no tema destacam-se os trabalhos do franc\u00eas \u00c9mile Durkheim e do suicid\u00f3logo americano Edwin Shneidman (1918-2009).<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do psiquiatra portugu\u00eas Carlos Braz Saraiva, professor da faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, em Portugal, Durkheim possui uma vis\u00e3o &#8220;macro, por fora&#8221; sobre o assunto, em que o determinismo social desempenha um papel importante na condu\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo \u00e0 medida extrema. Para Durkheim, &#8220;todo o comportamento humano, desde o sentir, o pensar, o agir&#8221;, seria determinado pela sociedade. Fatores macrossociais s\u00e3o essenciais \u00e0 nossa esp\u00e9cie greg\u00e1ria e cooperativa. Desse modo, religi\u00e3o, fam\u00edlia, profiss\u00e3o e acesso aos bens da sociedade capitalista, como parte da macroestrutura, ditariam comportamentos e sensa\u00e7\u00f5es, em detrimento do psiquismo do indiv\u00edduo enquanto membro isolado da sociedade.<\/p>\n<p>Shneidman, tido como o pai da suicidologia, pensa o suic\u00eddio a partir de uma vis\u00e3o &#8220;micro, por dentro&#8221;. Para ele, o suic\u00eddio \u00e9 o resultado de um conflito interior, a conflu\u00eancia de um m\u00e1ximo de dor, um m\u00e1ximo de perturba\u00e7\u00e3o e um m\u00e1ximo de press\u00e3o &#8211; chamada de &#8220;modelo c\u00fabico&#8221;, a formula\u00e7\u00e3o de Shneidman leva em conta as viv\u00eancias e os atritos entre o mundo interior e o exterior.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace alignleft\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17A9D\/production\/_107852969_homemdeprimidospl.jpg\" alt=\"Homem deprimido\" width=\"485\" height=\"273\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">SCIENCE PHOTO LIBRARY<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">O grupo de homens adultos \u00e9 mais vulner\u00e1vel porque procura menos ajuda m\u00e9dica quando passa por momentos de crise, seja ela emocional, conjugal ou financeira<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;No Ocidente, o suic\u00eddio \u00e9 um ato de autoaniquila\u00e7\u00e3o, melhor compreendido como uma doen\u00e7a multidimensional num indiv\u00edduo carente que acredita ser o suic\u00eddio a melhor solu\u00e7\u00e3o para resolver um problema&#8221;, afirmou, na obra\u00a0<i>A psychological approach to suicide<\/i>\u00a0(<i>Uma abordagem psicol\u00f3gica do suic\u00eddio<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de 1987.<\/p>\n<p>A partir dos anos 1960, modelos sist\u00eamicos e biol\u00f3gicos combinavam an\u00e1lises de diversos autores \u00e0s descobertas sobre a qu\u00edmica do c\u00e9rebro e ao estudo das fam\u00edlias em torno de um ente suicida. Dessa forma, entra em cena o papel dos meios sociais &#8220;disfuncionais&#8221;, al\u00e9m de o suic\u00eddio tamb\u00e9m passar a ser observado como o \u00e1pice de uma doen\u00e7a com causas neuroqu\u00edmicas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Desafios do s\u00e9culo 21<\/h2>\n<p>No mundo todo, o suic\u00eddio tem aumentado entre os mais jovens, especialmente na popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 29 anos, de todos os g\u00eaneros. Muito cobrados e despreparados para lidar com as press\u00f5es, os que nasceram ap\u00f3s os anos 2000 aprenderam que, se a satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o for imediata, ela n\u00e3o existe. &#8220;Entre esse grupo ocorre uma crescente desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida e a banaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria morte. Adolescentes s\u00e3o mais impulsivos, \u00e9 algo j\u00e1 descrito na literatura. Mas tudo ficou mais intenso e imediato por causa das novas tecnologias.&#8221;<\/p>\n<p>No Brasil, outro grupo extremamente vulner\u00e1vel \u00e9 o de jovens negros. Segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro, houve um aumento de 12% na taxa de suic\u00eddio de negros de at\u00e9 29 anos, entre 2012 a 2016. O \u00edndice \u00e9 45% superior ao registado entre indiv\u00edduos brancos de mesma faixa et\u00e1ria. O recorte racial tem sido bastante discutido entre os acad\u00eamicos. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, n\u00e3o havia informa\u00e7\u00e3o sobre ra\u00e7a nas fichas das inscri\u00e7\u00f5es de mortalidade. O racismo imp\u00f5e aos negros mais vulnerabilidade nas ruas e ambientes sociais, al\u00e9m de interferir na autoestima.<\/p>\n<p>A terceira idade sempre foi um fator de risco e apresenta, em registros hist\u00f3ricos, uma tend\u00eancia maior \u00e0 depress\u00e3o e ao suic\u00eddio. Para cada 4 adolescentes que decidem tirar a pr\u00f3pria vida, 200 idosos fazem o mesmo.<\/p>\n<p>Meleiro entende que n\u00e3o vivemos uma era mais ou menos desequilibrada. &#8220;Vivemos uma era de f\u00e1cil acesso aos meios letais, isso sim. Ter acesso a um meio letal, armas de fogo ou drogas, \u00e9 fator alt\u00edssimo de risco, tanto que m\u00e9dicos, policiais militares e ex\u00e9rcito s\u00e3o os profissionais mais expostos a esse risco. \u00c9 preciso reduzir o acesso \u00e0s armas e \u00e0s drogas e oferecer tratamento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico aos que sofrem com ansiedade e depress\u00e3o&#8221;, opina.<\/p>\n<p>Outro dado menosprezado \u00e9 o que est\u00e1 relacionado ao suic\u00eddio de cont\u00e1gio e aos sobreviventes do suic\u00eddio, aqueles que presenciaram a cena ou que perderam algu\u00e9m. &#8220;Essas pessoas precisam de um atendimento especial. S\u00e3o membros do corpo de bombeiros, policiais, socorristas, familiares, psiquiatras. O enlutado precisa ter um espa\u00e7o para desabafar, porque vive sobretudo um conflito, um misto de culpa e raiva bastante dif\u00edcil de lidar.&#8221; O Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suic\u00eddio do Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida oferece amplo atendimento e aconselhamento aos que sofrem com essa perda abrupta.<\/p>\n<p><i>Se voc\u00ea est\u00e1 deprimido e tem pensamentos suicidas, ligue para o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) por meio do n\u00famero 188. As liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o gratuitas para todo o Brasil.<\/i><\/p>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Ol\u00edvia Fraga<\/span><span class=\"byline__title\">De S\u00e3o Paulo para a BBC News Brasil<\/span><\/div>\n<div>\n<div class=\"byline\">www.bbc.com\/portuguese<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dados da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) apontam que, a cada 40 segundos, algu\u00e9m comete suic\u00eddio no mundo. Se voc\u00ea est\u00e1 deprimido e tem pensamentos suicidas, ligue para o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) por meio do n\u00famero 188. As liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o gratuitas para todo o Brasil. 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