{"id":7569,"date":"2019-07-25T18:39:44","date_gmt":"2019-07-25T21:39:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=7569"},"modified":"2019-07-25T23:10:09","modified_gmt":"2019-07-26T02:10:09","slug":"os-brasis-de-sebastiana-e-isabella-duas-geracoes-de-mulheres-que-resistem-ao-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/07\/25\/os-brasis-de-sebastiana-e-isabella-duas-geracoes-de-mulheres-que-resistem-ao-racismo\/","title":{"rendered":"Os Brasis de Sebastiana e Isabella: Duas gera\u00e7\u00f5es de Mulheres que resistem ao Racismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, conhe\u00e7a hist\u00f3rias marcadas pela luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<section class=\"text vertical-spacing\"><em>Por Rute Pina<\/em><em>Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo (SP) | 25 de Julho de 2019<\/em><strong>Anos 1910<\/strong><\/p>\n<p>Quando Sebastiana Neves Satil nasceu, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil ainda n\u00e3o havia completado nem tr\u00eas d\u00e9cadas \u2014 s\u00f3 havia 28 anos desde a assinatura da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/05\/13\/130-anos-de-uma-abolicao-inacabada\/\">Lei \u00c1urea<\/a>\u00a0que encerrou, em tese, um ciclo de segrega\u00e7\u00e3o racial no pa\u00eds. Mulher negra de pele retinta, ela atravessaria um s\u00e9culo de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Prestes a completar 103 anos, dona Sebastiana n\u00e3o se exime de viver novas experi\u00eancias como, por exemplo, andar pela primeira vez de avi\u00e3o. Na viagem para Goi\u00e2nia (GO) em 2016, ela fez quest\u00e3o de conhecer a cabine e toda a tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vontade de estar em novos lugares pode ser explicada, em parte, por uma impossibilidade que se fez presente por muitos anos. Nascida em Ituiutaba, uma pequena cidade no pontal do tri\u00e2ngulo mineiro, as mem\u00f3rias da juventude de Sebastiana que mais ecoam, at\u00e9 hoje, s\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAntigamente, preto aqui era muito escorra\u00e7ado\u201d, ela inicia seu relato ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, pelo telefone. \u201cSe a gente ia na igreja n\u00e3o podia ficar do lado dos ricos. Tinha lado a igreja. A gente ficava todos [negros] de um lado e os ricos do outro. Era assim\u201d, lembra.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373227422_09f1a3f23c_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373227682_2f1d16dc65_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\u201cSe a gente chegasse em um lugar que tivesse elevador, a gente s\u00f3 podia subir no elevador de servi\u00e7o. Se o de servi\u00e7o tivesse ocupado, tinha que subir de escada. No outro n\u00e3o tinha ningu\u00e9m para subir, mas ainda assim n\u00e3o poderia subir porque a gente era preto.\u201dSebastiana nasceu 27 de julho de 1916. Come\u00e7ou a trabalhar ainda crian\u00e7a, aos 9 anos, como empregada dom\u00e9stica, na mesma fazenda onde seu pai trabalhava. E ela recorda que as trabalhadoras deveriam evitar os mesmos ambientes dos patr\u00f5es, se elas n\u00e3o estivessem servindo.\u201cQuando eles estavam conversando, n\u00e3o podia nem falar que estava morrendo ou um &#8216;ai&#8217;, eles n\u00e3o deixavam\u201d, conta. \u201cNingu\u00e9m era chamado por nome. Enquanto eles estavam almo\u00e7ando ou jantando, era uma campainha que botavam na mesa. Batia a campainha e empregada ia atender o que que era, o porqu\u00ea a patroa tava chamando.\u201d<\/p>\n<p>Ela conta que muitos trabalhavam sem ganhar dinheiro, s\u00f3 para comer. \u201cEscravid\u00e3o acabou, mas a gente v\u00ea que ainda tem muita gente por escravo. Muito preconceito. Muita diferen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"subtitle vertical-spacing\">\n<h2 class=\"text\">CLUBE DE RESIST\u00caNCIA<\/h2>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Com espa\u00e7os t\u00e3o segregados, Sebastiana diz que se revoltava com a falta lugares de conviv\u00eancia e de lazer para a comunidade negra. \u201cA cidade era pequena. N\u00e3o podia ir ao cinema porque era s\u00f3 de branco. A gente n\u00e3o podia nada, era uma cidade bem atrasada.\u201d\u201cEu fiquei com raiva daquilo, me juntei com um pessoal e fundei um clube. E o prefeito arranjou um lugar afastado onde n\u00e3o tinha nada. Um lugar sujo. Meu pai e meu primo tiraram a sujeira e eu pedia ao pessoal para me ajudar. E eu fiz um clube l\u00e1 na minha terra para gente ter onde se divertir.\u201dO lugar em quest\u00e3o \u00e9 o Clube Palmeira, fundado em 1938 e que existe at\u00e9 hoje em Ituiutaba (MG).<\/p>\n<p>A fundadora conta que, no decorrer dos anos, o local foi alvo de den\u00fancias. \u201cEu me sacrifiquei para ter esse lugar para a gente se divertir, depois que a gente melhorou, disseram que a gente fazia barulho, que ficava cantando, tocando instrumento e povo n\u00e3o dormia\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Depois das den\u00fancias, a Prefeitura cedeu um terreno para a inaugura\u00e7\u00e3o oficial do clube, em 1945. Atualmente, o espa\u00e7o f\u00edsico da entidade est\u00e1 interditado por conta de uma a\u00e7\u00e3o judicial movida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do estado, com a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cpolui\u00e7\u00e3o sonora\u201d. Integrantes da diretoria do clube tentam retomar as atividades do local com o apoio da Funda\u00e7\u00e3o Municipal Zumbi dos Palmares.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373228267_511e0c0717_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373228702_4e986b89ef_o.png\" alt=\" \" width=\"390\" height=\"219\" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"subtitle vertical-spacing\">\n<h2 class=\"text\">VIDA CARIOCA<\/h2>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Mas esse cap\u00edtulo do clube Sebastiana n\u00e3o chegou a participar, pois se mudou para o Rio de Janeiro em 1941. Na capital carioca, onde passou a maior parte de sua vida e vive at\u00e9 hoje, Sebastiana trabalhou para uma fam\u00edlia na rua Martim Ferreira, em Botafogo.E mesmo agora em maiores centros urbanos do pa\u00eds, o racismo, ao contr\u00e1rio do que pensava, n\u00e3o era atenuado. Ela lembra de levar os filhos das patroas em festas de anivers\u00e1rio e ter que ficar do lado de fora esperando. \u201cAs meninas entravam e eu ficava do lado de fora, para eles n\u00e3o saberem que tinha empregada l\u00e1\u201d, relata.Sebastiana trabalhou como dom\u00e9stica at\u00e9 os 30 anos, quando casou com Alceu Satil, um servidor p\u00fablico, e passou a se dedicar ao lar. Observando cal\u00e7adas, muros e ruas de pedras da grande cidade, dona Sebastiana enxerga o registro trabalho for\u00e7ado dos negros, que est\u00e3o em cada canto do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cVeio muito escravo da \u00c1frica, que eles mandavam buscar para trabalhar aqui. O trabalho dos escravos&#8230; cal\u00e7amento, carregamento de pedra. No dia que voc\u00ea vier aqui, eu n\u00e3o t\u00f4 podendo porque j\u00e1 t\u00f4 velha, mas vou mandar a C\u00e9lia te mostrar muita coisa que os escravos faziam.\u201d<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373229647_e81bdb6404_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373229937_3ba5d01ee5_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Fot\u00f3grafa e designer, C\u00e9lia Satil \u00e9 a filha de Sebastiana. E uma coisa que emociona a m\u00e3e \u00e9 ver onde suas filhas conseguiram chegar. C\u00e1rmen, que faleceu aos 50 anos ap\u00f3s um acidente vascular cerebral (AVC), se formou na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro. J\u00e1 C\u00e9lia, que acompanha a m\u00e3e em cada passo, \u00e9 formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o pela Universidade C\u00e2ndido Mendes (UCAM). \u201cAt\u00e9 hoje, eu fico boba ainda quando eu vejo o servi\u00e7o, uma reuni\u00e3o dela&#8230; Eu nem fico satisfeita, fico maluca\u201d, diz com orgulho que pulsa na voz.Sebastiana n\u00e3o teve a oportunidade de estudar: \u201cEu n\u00e3o tenho instru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. Nenhuma. Meus pais eram pobres, moravam na ro\u00e7a. Eu n\u00e3o estudei a n\u00e3o ser assinar meu nome. Mas eu tenho muita intelig\u00eancia porque meu pai era muito inteligente.\u201dEm um s\u00e9culo de vida, outra coisa que sensibiliza a mineira \u00e9 pisar em espa\u00e7os que jamais imaginaria. H\u00e1 tr\u00eas anos, o clube Fluminense foi um deles. Em 2016, ela participou em uma festa do anivers\u00e1rio do Sindicato dos Engenheiros (Senge-RJ), em que ela entrou pelo hall principal do sal\u00e3o nobre. \u201cEles n\u00e3o deixavam eu entrar nem na porta, agora estou dentro do clube, andando, como se fosse uma madame\u201d, brinca.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373100026_c38093e04c_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373231252_d72e96af83_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"subtitle vertical-spacing\">\n<h2 class=\"text\">ANOS 2000<\/h2>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">As marcas do racismo e do preconceito no Brasil ultrapassam gera\u00e7\u00f5es e as mulheres negras ainda enfrentam in\u00fameros desafios. Noventa anos separam o nascimento de Dona Sebastiana da menina Isabella Nicoly Cerqueira Trindade, de 12 anos.O filme favorito de Isabella \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0365545\/\">Felicidade por um fio<\/a>. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o conhece?&#8221;, ela me pergunta com surpresa. A menina, ent\u00e3o, conta animada o enredo: uma mulher negra, que desde a inf\u00e2ncia ouviu os mais diversos insultos, come\u00e7a a trilhar uma trajet\u00f3ria de aceita\u00e7\u00e3o de seu cabelo.&#8221;Ela cresceu com a m\u00e3e falando que ela tinha que alisar o cabelo porque meninas bonitas tinham o cabelo liso&#8221;, relata. &#8220;Um dia ela se libertou e raspou o cabelo. Ela teve olhares negativos, mas ela se sentiu mais firme, melhor e empoderada.&#8221;<\/p>\n<p>Isabella tem vocabul\u00e1rio que impressiona para a idade. E a escolha do filme preferido \u2014 um longa estadunidense lan\u00e7ado em 2018 \u2014 tamb\u00e9m diz muito sobre sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria: h\u00e1 um ano, menina est\u00e1 \u00e0 frente da coordena\u00e7\u00e3o do grupo Naturalmente Cacheadas, na Escola Estadual Prof. Leila Mara Avelino, em Sumar\u00e9 (SP).<\/p>\n<p>O coletivo foi criado em 2017 e teve in\u00edcio porque meninas entre 10 e 13 anos estavam come\u00e7ando, muito cedo, a alisar seus cabelos cacheados ou crespos.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373101231_2f77c1c7bf_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373101546_e9e0605682_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Foi ent\u00e3o que um grupo de alunas negras aplicou uma pesquisa com 317 estudantes do col\u00e9gio. Deles, 48% afirmavam j\u00e1 ter feito piadas sobre o cabelo das colegas, e 30% das alunas declararam ter sido v\u00edtima desses coment\u00e1rios ofensivos.O projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y83NLwF3AYg\">\u201cCabelo, autoestima e constru\u00e7\u00e3o da identidade da menina negra\u201d<\/a>recebeu 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Desafio Criativos da Escola e tamb\u00e9m foi reconhecido no Cear\u00e1.Quando Isabella foi transferida para a escola e teve contato com o projeto, que percebeu que n\u00e3o estava s\u00f3. No col\u00e9gio anterior, uma institui\u00e7\u00e3o particular onde era a \u00fanica menina negra da sala e se sentia exclu\u00edda.<\/p>\n<p>\u201cComigo n\u00e3o foram v\u00e1rias vezes, mas j\u00e1 aconteceu de algu\u00e9m falar do meu cabelo, da minha pele. Foram algumas vezes, mas eu abaixei a cabe\u00e7a pra isso e chorei. Ent\u00e3o, eu me arrependo, porque eu poderia ter erguido minha cabe\u00e7a e n\u00e3o ter chorado, porque eu sentiria que teria sido melhor pra mim, sabe?\u201d, diz.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373233037_86f4705d56_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373102671_7fa1048dae_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Palavras depreciativas ou ofensivas referente \u00e0 ra\u00e7a ou cor est\u00e3o presentes nas escolas e universidades. Em 2018, foi registrado um caso de inj\u00faria racial a cada cinco dias em estabelecimentos de ensino fundamental, m\u00e9dio e superior do estado, segundo dados da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do estado de S\u00e3o Paulo.Isabella lamenta que a escola s\u00f3 atende at\u00e9 o ensino fundamental. E, por enquanto, n\u00e3o quer nem pensar que vai ter que escola. &#8220;Eu fiquei maravilhada com que elas faziam l\u00e1, com os assuntos [quest\u00f5es raciais]. E com a ideia mesmo que elas tiveram. Eu nunca imaginei que eu ia chegar numa escola que, tipo, ia ter tanta representatividade da mulher negra. E eu fiquei muito feliz com isso.&#8221;E comenta a diferen\u00e7a que isso fez para sua vida. &#8220;Eu me sinto melhor, sabe? Eu sinto que eu n\u00e3o estou sozinha. Que se eu chorar, vai ter algu\u00e9m para me apoiar. E se eu sofrer, se algu\u00e9m falar mal do meu cabelo, da minha cor, eu sei que n\u00e3o sou a \u00fanica e que as meninas est\u00e3o l\u00e1 e elas v\u00e3o me ajudar&#8221;, diz a pr\u00e9-adolescente, com a voz embargada e os olhos marejados.<\/p>\n<p>Na escola, suas mat\u00e9rias preferidas s\u00e3o portugu\u00eas, artes e uma disciplina chamada Projeto de Vida, voltada a projetos educativos interdisciplinares e que pensem no futuro. Isabella, por exemplo, quer ser pediatra. \u201cSe eu sonhar, um dia chega\u201d, sorri.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"subtitle vertical-spacing\">\n<h2 class=\"text\">REPRESENTATIVIDADE QUE IMPORTA<\/h2>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">O grupo Naturalmente Cacheadas \u00e9 resultado de um contexto de profus\u00e3o das discuss\u00f5es sobre representatividade. O clube juvenil est\u00e1 dentro da grade da escola e as alunas se re\u00fanem toda segunda-feira, quando tamb\u00e9m compartilham o que aprenderam sobre esse assunto com outros estudantes.\u201cA gente fala, principalmente, sobre a aceita\u00e7\u00e3o, o empoderamento e a autoestima&#8221;, conta a garota de 12 anos, que j\u00e1 enxerga frutos do projeto com meninas da escola. Elas est\u00e3o assumindo seus cabelos cacheados e crespos, \u00e9 incr\u00edvel!&#8221;<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373234387_c15579e453_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373104376_2a7d2c0804_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Neste contexto que Isabella aprendeu palavras que ela hoje d\u00e1 a defini\u00e7\u00e3o sem titubear, por exemplo: \u201cEmpoderamento vem muito da autoaceita\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o se aceitar, como voc\u00ea \u00e9, voc\u00ea n\u00e3o vai ter empoderamento, sabe? Se voc\u00ea se achar feia, como voc\u00ea vai ser empoderada? O empoderamento \u00e9 voc\u00ea ser forte, saber que voc\u00ea \u00e9 capaz. Que voc\u00ea consegue e chega l\u00e1.\u201dAl\u00e9m do filme favorito, protagonizado por uma atriz negra, a menina cita cantores negros como Bruno Mars e Pharrell Williams como seus preferidos. Mas, mesmo com a amplia\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias para popula\u00e7\u00e3o negra se enxergar em produtos, palcos e telas, ainda h\u00e1 grande caminho a ser trilhado.Na ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, por exemplo. Uma an\u00e1lise da Ag\u00eancia Nacional do Cinema, publicada no ano passado, mostrou que o cinema comercial brasileiro \u00e9 quase totalmente dirigido por homens brancos.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373105696_1b3ac651ce_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48373236632_8dc3126f79_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">De 142 longas-metragens brasileiros lan\u00e7ados comercialmente em salas de exibi\u00e7\u00e3o no ano de 2016, 97,2% foram dirigidos por pessoas brancas. As mulheres comandaram 19,7% dos filmes e os homens negros apenas 2,1%. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.J\u00e1 um levantamento da campanha \u201cCad\u00ea Nossa Boneca?\u201d, realizado pela ONG Avante em mar\u00e7o do ano passado, apontou que apenas 7% das bonecas fabricadas no Brasil s\u00e3o negras. Do total dos 762 modelos produzidos pelos fabricantes associados \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Fabricantes de Brinquedos, apenas 53 eram pretos.Hoje, Isabella j\u00e1 n\u00e3o brinca mais com bonecas e prefere jogar bets e esconde-esconde na rua com as primas e amigas. Mas se lembra de uma boneca especificamente: \u201cMinha m\u00e3e buscava sempre me dar apoio para que eu n\u00e3o abaixasse a cabe\u00e7a, mas eu sempre ganhei bonecas brancas de outras pessoas. Mas eu nunca gostei muito de boneca assim&#8230; Mas eu tinha uma que era muito bonita. Ela era negra e tinha outra bonequinha que vinha junto. Ai, ela era t\u00e3o linda\u201d, lembra com um suspiro.<\/p>\n<p>O que aconteceu com a boneca? Isabella conta que foi doada. E n\u00e3o lembra para quem. Mas espera que tenha sido doada para outra menina negra, que possa se enxergar em espa\u00e7os assim como ela se encontrou.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\"><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong>\u00a0<strong>Reportagem:<\/strong>\u00a0Rute Pina |\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o de texto e \u00e1udio:<\/strong>Anelize Moreira |\u00a0<strong>Sonoplastia:<\/strong>\u00a0Andr\u00e9 Paroche |\u00a0<strong>Dados:<\/strong>\u00a0Pamela Oliveira |\u00a0<strong>Artes:<\/strong>Gabi Lucena |\u00a0<strong>Fotos:<\/strong>\u00a0Arquivo Pessoal C\u00e9lia Satil |\u00a0<strong>Coordena\u00e7\u00e3o de Jornalismo:<\/strong>Vivian Fernandes e Daniel Giovanaz |\u00a0<strong>Coordena\u00e7\u00e3o de Multim\u00eddia:<\/strong>\u00a0Jos\u00e9 Bruno Lima |\u00a0<strong>Coordena\u00e7\u00e3o de R\u00e1dio:<\/strong>\u00a0Camila Salmazio<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48372719642_91c9b1df8a_o.png\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48372720602_5e11d0c7a4_o.png\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, conhe\u00e7a hist\u00f3rias marcadas pela luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o Por Rute PinaBrasil de Fato | S\u00e3o Paulo (SP) | 25 de Julho de 2019Anos 1910 Quando Sebastiana Neves Satil nasceu, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil ainda n\u00e3o havia completado nem tr\u00eas d\u00e9cadas \u2014 s\u00f3 havia 28 anos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7580,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[203],"class_list":["post-7569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-contra-a-discriminacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7569"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7582,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7569\/revisions\/7582"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}