{"id":7622,"date":"2019-07-29T15:23:57","date_gmt":"2019-07-29T18:23:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=7622"},"modified":"2019-07-29T15:23:57","modified_gmt":"2019-07-29T18:23:57","slug":"saude-depressao-e-suicidio-a-servico-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/07\/29\/saude-depressao-e-suicidio-a-servico-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade &#8211; Depress\u00e3o e suic\u00eddio a servi\u00e7o do capitalismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"dd-m-display dd-m-display--small dd-m-background-energized-light\">\n<div class=\"wrap\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-10 col-md-10 col-lg-offset-1 col-md-offset-1\">\n<p class=\"dd-m-text dd-m-text--big font-MerriWeather\"><strong>Estudo anal\u00edtico feito por especialistas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) mostra que cada vez mais o adoecimento mental dos trabalhadores tem servido para gerar lucros para o sistema econ\u00f4mico capitalista<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"dd-m-display dd-m-display--top-30 dd-m-background-stable\">\n<div class=\"wrap\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"dd-l-content dd-l-content--medium\">\n<p>A causa de quase um ter\u00e7o, 30,67%, dos casos de afastamento no trabalho e pagamentos de aux\u00edlio-doen\u00e7a \u00e9 transtorno mental provocado pelo ambiente de trabalho. Os dados s\u00e3o de um levantamento feito em 2017 pelo Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o, tratada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) como o \u2018mal do s\u00e9culo\u2019, al\u00e9m do stress e a ansiedade s\u00e3o algumas dessas doen\u00e7as que est\u00e3o afetando trabalhadores e trabalhadoras e podem levar ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Esses e outros transtornos mentais s\u00e3o resultados de um processo de explora\u00e7\u00e3o em que o trabalhador \u00e9 submetido ao seu limite, a fim de atender aos interesses das corpora\u00e7\u00f5es. E quando o trabalhador n\u00e3o atende, \u00e9 substitu\u00eddo, o que hoje se chama de rotatividade, concluiu Estudo do Laborat\u00f3rio de Teoria Social, Filosofia e Psican\u00e1lise da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP &#8211; (Latesfip).<\/p>\n<p>\u201cOs transtornos mentais s\u00e3o \u2018produzidos\u2019 pelo sistema para atender a interesses do capitalismo, com base em pesquisas n\u00e3o confi\u00e1veis e divulga\u00e7\u00f5es por meio da parceria entre ind\u00fastria farmac\u00eautica e m\u00eddia\u201d, afirma o psicanalista Christian Dunker,\u00a0 professor da USP.<\/p>\n<p>Dessa forma, n\u00e3o somente trabalhadores e trabalhadoras como a sociedade num geral, s\u00e3o induzidos ao stress como forma de \u2018extra\u00e7\u00e3o de produtividade\u2019, explica.<\/p>\n<p>De acordo com o professor, o neoliberalismo descobriu que o sofrimento pode ser gerenciado e capitalizado para fazer o trabalhador aumentar a produtividade. E essa descoberta \u00e9 antiga. Ocorreu na d\u00e9cada de 1970, quando as telefonistas foram a uma experi\u00eancia capitalista que consistia na sobrecarga de trabalho para ver onde conseguiram chegar. Com medo de perder o emprego, ficaram esgotadas, estressadas. A solu\u00e7\u00e3o para o capitalismo foi simples: demitir e contratar novas trabalhadoras para explor\u00e1-las at\u00e9 seus limites.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>Neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma teoria macroecon\u00f4mica. \u00c9 tamb\u00e9m um dispositivo psicol\u00f3gico aliado a um discurso moral aplicado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sofrimento para se obter desempenho<\/p>\n<footer>&#8211; Christian Dunker<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>A ideologia neoliberal, afirma o professor, aliena os cidad\u00e3os induzindo-os a aceitar que quanto mais s\u00e3o pressionados, mais eles produzem e, portanto, mais inseridos no sistema eles permanecem.<\/p>\n<h4><strong>Mundo moderno<\/strong><\/h4>\n<p>Nesse contexto, as novas tecnologias, sejam as redes sociais ou os aplicativos de gest\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, como o Uber, s\u00e3o elementos chave.<\/p>\n<p>\u201cTecnologias afetam as rela\u00e7\u00f5es privadas e p\u00fablicas porque diminuem o tempo das pessoas consigo mesmas. Ao mesmo tempo aumentam a necessidade de mostrar aos outros uma imagem que querem construir de si\u201d, explica Dunker.<\/p>\n<p>E o neoliberalismo capitalista se aproveita dessa realidade, j\u00e1 que as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, as rela\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas entre as pessoas n\u00e3o interessam ao mundo do trabalho. Assim, toda \u2018novidade\u2019, como networking ou redes sociais, que consiga paralisar a experi\u00eancia da intimidade ou que torne o cidad\u00e3o mais \u2018individual\u2019 se torna um instrumento do capitalismo, no objetivo de explorar capacidade produtiva desse cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudo feito pelo Latesfip sobre os problemas mentais provocados nos trabalhadores resultou no livro\u00a0<em>O Neoliberalismo como Gest\u00e3o do Sofrimento.\u00a0<\/em>A pesquisa<em>,\u00a0<\/em>\u00a0feita com a participa\u00e7\u00e3o dos alunos, utilizou como m\u00e9todo uma an\u00e1lise hist\u00f3rica do processo de desenvolvimento econ\u00f4mico mundial e constatou que as patologias apresentadas pelos trabalhadores, como os transtornos mentais, n\u00e3o eram fruto individual, com causas \u2018pr\u00f3prias\u2019 ou personalizadas dos pacientes, mas eram decorr\u00eancia do meio social e profissional em que viviam.<\/p>\n<h4><strong>Sociedade<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cO sujeito \u00e9 educado a pensar: \u2018Eu lutando, vou passar em uma faculdade e vou ter um trabalho melhor, assim vou ficar satisfeito\u2019\u201d, diz Cristian para explicar porque o trabalhador se submete a press\u00f5es, cobran\u00e7as de metas e excesso de trabalho.<\/p>\n<p>E como a sociedade tamb\u00e9m cobra posturas dos indiv\u00edduos, tanto quanto ele mesmo, a expectativa criada sobre o campo pessoal, o social e o profissional \u00e9 enorme e prejudicial \u00e0 sa\u00fade porque \u00e9 constru\u00edda a partir do que outras pessoas demonstram, em especial, nas redes sociais. \u201cTrata de uma apenas ilus\u00e3o de perspectiva. O que acontece, na verdade n\u00e3o acontece\u201d, diz Dunker.<\/p>\n<h4><strong>Moderna explora\u00e7\u00e3o do trabalhador<\/strong><\/h4>\n<p>Todas as transforma\u00e7\u00f5es sociais geradas pelo capitalismo ao longo dos tempos tiveram influ\u00eancia direita nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, conclu\u00edram os estudiosos da USP.<\/p>\n<p>A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o \u00e9 novidade. O trabalho sem prote\u00e7\u00e3o social, sem direitos, tamb\u00e9m n\u00e3o. Mas, particularmente, as transforma\u00e7\u00f5es vistas no Brasil foram de uma espantosa velocidade, diz Dunker se referindo \u00e0 reforma Trabalhista que \u2018legalizou\u2019 as rela\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 recente e os efeitos desse desmonte, em especial na sa\u00fade do trabalhador, n\u00f3s veremos de forma muito acentuada daqui h\u00e1 cinco ou dez anos\u201d.<\/p>\n<p>A reforma Trabalhista foi uma a\u00e7\u00e3o neoliberal que mudou o que se entende como sendo fun\u00e7\u00e3o no trabalho, diminuindo o conceito do \u201ctrabalho coletivo\u201d e trazendo a carga de \u201cindividualismo\u201d onde a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 o foco, diz o professor.<\/p>\n<p>\u201cE o trabalhador comprou a ideia de que ele \u00e9 um patr\u00e3o em potencial. Quando se fala em tirar direitos, ele pensa que vai ter mais liberdade de empreender, de competir\u201d, pontua.<\/p>\n<blockquote class=\"dd-blockquote\"><p>O golpe foi \u2018perfeito\u2019 porque vendeu a ilus\u00e3o de que, se continuasse como antes, o trabalhador seria prejudicado e ao mesmo tempo criou um inimigo que seria o potencial aliado desse trabalhador.<\/p>\n<footer>&#8211; Christian Dunker<\/footer>\n<\/blockquote>\n<p>Paralelamente, os m\u00e9todos de gest\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho para \u2018aumentar a efici\u00eancia e a produtividade\u2019 t\u00eam contribu\u00eddo para o aumento dos transtornos mentais dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o que acontece nos call-centers, diz Dunker. \u201cS\u00e3o m\u00e1quinas de sofrimento, onde h\u00e1 um \u2018ditador\u2019, exercendo press\u00e3o com viol\u00eancia psicol\u00f3gica sobre os trabalhadores, dizendo a eles a todo momento o que e como devem fazer e qual resultado devem apresentar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO n\u00famero do desemprego \u00e9 grande e cada vez mais pessoas se sujeitam a trabalhos prec\u00e1rios para sobreviverem. Isso \u00e9 extors\u00e3o e tende a piorar\u201d, afirma Cristian Dunker. Para ele, este \u00e9 o momento em que as informa\u00e7\u00f5es, an\u00e1lises e dados dispon\u00edveis devem ter papel importante para a revers\u00e3o do n\u00famero de casos de transtornos mentais causados pela explora\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Para os estudiosos da USP, o maior desafio \u00e9 usar os dados das pesquisas para promover uma transforma\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 que o contexto econ\u00f4mico atual, no Brasil, indica uma piora nos quadros.<\/p>\n<h4>Debate na Am\u00e9rica Latina<\/h4>\n<p>Al\u00e9m de promover minicursos em v\u00e1rios locais do pa\u00eds, abertos \u00e0 toda a sociedade para debater o tema, o Latesfip participar\u00e1 da 5\u00aa Jornada de Investiga\u00e7\u00e3o: Neoliberalismo, Corpos e Cl\u00ednicas de Transforma\u00e7\u00e3o, em Montevid\u00e9o, no Uruguai, de 9 a 11 de setembro de 2019.<\/p>\n<p>A atividade contar\u00e1 com a participa\u00e7\u00e3o de conferencistas internacionais. Nelson da Silva Jr, Vladimir Safatle e Christian Dunker, da USP, participar\u00e3o, contribuindo com as pesquisas feitas no trabalho Neoliberalismo e Gest\u00e3o do Sofrimento Ps\u00edquico: An\u00e1lise, Diagn\u00f3stico e Estrat\u00e9gias de Cuidado.<\/p>\n<p><a class=\"dd-lightbox\" href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/urugyau.jpeg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.cut.org.br\/images\/cache\/systemuploadsckurugyaujpeg-677x851xfit-09762.jpeg\" alt=\"\" width=\"677\" height=\"851\" \/><\/a><\/p>\n<h4><strong>Dados sobre su\u00edcidio<\/strong><\/h4>\n<p>No mundo todo, uma pessoa comete suic\u00eddio a cada tr\u00eas segundos. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Psiqui\u00e1trica da Am\u00e9rica Latina, no Brasil, a cada 45 minutos uma pessoa tira a pr\u00f3pria vida. O suic\u00eddio \u00e9 tamb\u00e9m a principal causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos de idade.<\/p>\n<p>O Brasil ocupa o 8\u00ba lugar em n\u00fameros absolutos e a 113\u00aa posi\u00e7\u00e3o na m\u00e9dia mundial, embora se acredite que haja subnotifica\u00e7\u00e3o dos casos. De 2007 a\u00a02016, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 106.374 pessoas morreram dessa forma.<\/p>\n<p>www.cut.org.br \/ Escrito por: Andre Accarini<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo anal\u00edtico feito por especialistas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) mostra que cada vez mais o adoecimento mental dos trabalhadores tem servido para gerar lucros para o sistema econ\u00f4mico capitalista A causa de quase um ter\u00e7o, 30,67%, dos casos de afastamento no trabalho e pagamentos de aux\u00edlio-doen\u00e7a \u00e9 transtorno mental provocado pelo ambiente de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7623,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[68],"class_list":["post-7622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-saude-do-trabalhador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7622"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7624,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7622\/revisions\/7624"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7623"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}