{"id":8659,"date":"2019-09-14T10:19:44","date_gmt":"2019-09-14T13:19:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=8659"},"modified":"2019-09-14T10:19:44","modified_gmt":"2019-09-14T13:19:44","slug":"de-pedreiro-a-universitario-bati-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/09\/14\/de-pedreiro-a-universitario-bati-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estudo\/","title":{"rendered":"De pedreiro a universit\u00e1rio: &#8220;Bati a laje da universidade onde hoje estudo&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"  author  \" data-src=\"mouseover\">\n<figure id=\"attachment_8660\" aria-describedby=\"caption-attachment-8660\" style=\"width: 169px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8660 size-medium\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062010042_v2_450x800-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062010042_v2_450x800-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062010042_v2_450x800.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8660\" class=\"wp-caption-text\">Elcimar Moreira da Silva, estudante de F\u00edsica da UFF, bateu a laje da universidade onde hoje estuda no noroeste do RJ Imagem: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"p-author\">Quando ingressou pela primeira vez em um dos campus da UFF (Universidade Federal Fluminense) em 2009, Elcimar Moreira da Silva tinha 22 anos, mas n\u00e3o levava livros ou cadernos. Seu objetivo ali era outro: fora chamado pelo pai para bater a laje e fazer o ch\u00e3o da expans\u00e3o da unidade em Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, no noroeste fluminense.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"text\">\n<p>Sob um calor excruciante, ele trabalhou tanto que chegou a passar mal. Bateu pedra e encheu os carrinhos de brita e areia por dois dias. Por cada um desses dias de trabalho pesado ganhou &#8220;uns R$ 30, R$ 40&#8221;, que foram revertidos para abastecer a despensa vazia da casa onde morava com a fam\u00edlia.<\/p>\n<div class=\"related-content-hyperlink with-image\">\n<div class=\"related-content \" data-audience-print=\"{&quot;label&quot;:&quot;visualizado-3-chamadas&quot;,&quot;component&quot;:&quot;related-content-editorial&quot;}\" data-audience-print-visible=\"1568466236664\" data-audience-print-url=\"educacao.uol.com.br\/noticias\/2019\/09\/10\/de-pedreiro-a-universitario-bati-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estudo.htm\" data-audience-print-sent=\"true\">\n<p>Quando ingressou pela primeira vez em um dos campus da UFF (Universidade Federal Fluminense) em 2009, Elcimar Moreira da Silva tinha 22 anos, mas n\u00e3o levava livros ou cadernos. Seu objetivo ali era outro: fora chamado pelo pai para bater a laje e fazer o ch\u00e3o da expans\u00e3o da unidade em Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, no noroeste fluminense.<\/p>\n<p>Sob um calor excruciante, ele trabalhou tanto que chegou a passar mal. Bateu pedra e encheu os carrinhos de brita e areia por dois dias. Por cada um desses dias de trabalho pesado ganhou &#8220;uns R$ 30, R$ 40&#8221;, que foram revertidos para abastecer a despensa vazia da casa onde morava com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, Elcimar sequer imaginava que, dez anos depois, se tornaria um dos universit\u00e1rios que pisariam no ch\u00e3o que ajudou a construir: ele \u00e9 hoje um dos alunos da UFF e cursa o segundo semestre de F\u00edsica, \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o com a qual sempre sonhou.<\/p>\n<p>Minha vontade era de falar para todo o mundo: &#8216;Sabe esse ch\u00e3o que a gente est\u00e1 pisando aqui? Eu que ajudei a construir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8661\" aria-describedby=\"caption-attachment-8661\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8661 size-medium\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062057528_v2_450x600-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062057528_v2_450x600-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062057528_v2_450x600.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8661\" class=\"wp-caption-text\">Elcimar da Silva no campus da UFF onde estuda F\u00edsica Imagem: Arquivo Pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar de atualmente estar desempregado, Elcimar sai todos os dias do munic\u00edpio de Miracema, onde mora, para o campus que ele e seus familiares ajudaram a construir, em Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua, a fim de mergulhar em c\u00e1lculos matem\u00e1ticos complexos e no estudo aprofundado da rela\u00e7\u00e3o entre mat\u00e9ria e energia em todas as suas possibilidades \u2014de part\u00edculas subat\u00f4micas \u00e0 imensid\u00e3o do Universo.<\/p>\n<p>Elcimar contou ao\u00a0<strong>UOL<\/strong>\u00a0como chegou aos bancos de uma universidade p\u00fablica. Leia o depoimento dele a seguir:<\/p>\n<h3>&#8220;Enchemos os carrinhos de brita e areia debaixo do sol&#8221;<\/h3>\n<p>&#8220;O ano era 2009 e eu estava me formando no ensino m\u00e9dio. Eu tinha 22 anos. Meu pai era pedreiro e trabalhava em obras, e nessa estavam trabalhando ele, um dos meus irm\u00e3os e meu tio. Na hora de bater a laje, eles precisaram de outras pessoas, ent\u00e3o chamaram eu e meu irm\u00e3o. Eu sabia que era o pr\u00e9dio da UFF, mas n\u00e3o tinha muita ideia do que estava por vir.<\/p>\n<p>Quando cheguei, vi aquela obra enorme! Aquele monte de areia. Era muita areia, uma montanha. Fiquei impressionado. J\u00e1 havia ido a outras obras com meu pai, mas nunca tinha visto uma daquela propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a encher os carrinhos de brita e areia debaixo do sol, do calor insuport\u00e1vel. Foi um sofrimento. Eu e meu irm\u00e3o, a gente era os menorzinhos ali. Todo mundo \u2014os funcion\u00e1rios que estavam ali\u2014 olhava com preconceito porque sabia que a gente n\u00e3o pertencia \u00e0quele lugar. Porque eu era um nada, eu n\u00e3o tinha nada. Eles achavam que a gente n\u00e3o pertencia \u00e0quele ambiente, sei l\u00e1. Achavam que a gente n\u00e3o ia aguentar aquilo porque o servi\u00e7o era muito pesado, muito puxado. Mas n\u00f3s continuamos. Era uma laje enorme, de altura e comprimento.<\/p>\n<p>A\u00ed n\u00f3s fomos almo\u00e7ar um prat\u00e3o de comida no bandej\u00e3o. Todo mundo comendo saladinhas, mas eu e meu irm\u00e3o n\u00e3o: n\u00f3s enchemos nossos pratos de arroz e feij\u00e3o, com muita comida mesmo.<\/p>\n<p>At\u00e9 passamos mal depois do almo\u00e7o. Fui ao banheiro, passei mal, me deu uma tontura, mas melhorei e voltei a trabalhar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8664\" aria-describedby=\"caption-attachment-8664\" style=\"width: 354px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8664\" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-com-os-colegas-de-classe-1568068472578_v2_750x421-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-com-os-colegas-de-classe-1568068472578_v2_750x421-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-com-os-colegas-de-classe-1568068472578_v2_750x421.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8664\" class=\"wp-caption-text\">Elcimar da Silva, de moletom cinza \u00e0 direita, e seus colegas de turma na UFF Imagem: Arquivo Pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O dia foi indo e a gente l\u00e1, batendo a laje, muito cansado. Quando terminou o turno, n\u00f3s fomos embora e foi um al\u00edvio. Eu e meu irm\u00e3o fomos pra casa e apagamos, dormimos na hora. Foi um trabalho pesado, debaixo do sol. Est\u00e1vamos exaustos. No dia seguinte, fomos para a UFF para mais um dia de servi\u00e7o. Batemos a laje.<\/p>\n<p>Eu acho que nos pagaram uns R$ 30, R$ 40 por dia. N\u00f3s pegamos nosso dinheiro suado e entregamos para o nosso pai encher a despensa vazia. Eu queria mesmo era ajudar&#8221;.<\/p>\n<h3><strong>&#8220;Entrei por cotas raciais, mas entraria por nota tamb\u00e9m&#8221;<\/strong><\/h3>\n<p>&#8220;Passaram-se alguns anos desde a constru\u00e7\u00e3o. Eu acabei atrasando os estudos e completando o ensino m\u00e9dio um pouco mais tarde do que a maioria. Ent\u00e3o eu fui fazer o Enem [Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio]. Meu sonho sempre foi fazer F\u00edsica. Eu queria muito ingressar na universidade, mas achava que n\u00e3o ia conseguir o que eu queria, que era F\u00edsica. At\u00e9 pensei em Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Eu tenho uma filha de seis anos e tinha que trabalhar. Achei que n\u00e3o ia dar certo, pois alegria de pobre dura pouco. Mas eu passei no vestibular de F\u00edsica em 2018, passei pelo processo seletivo e meu nome foi um dos escolhidos.<\/p>\n<p>Eu entrei pelas cotas raciais, mas entraria por nota tamb\u00e9m, pois tirei nota suficiente para entrar. A nota de corte n\u00e3o era muito alta, n\u00e3o. Acho que s\u00f3 a gente que \u00e9 meio maluco gosta de F\u00edsica.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e foi comigo para eu me matricular. Entr\u00e1vamos de sala em sala levando a documenta\u00e7\u00e3o e me registrando. E eu pensando que n\u00e3o ia dar certo, n\u00e3o estava acreditando. Como eu disse, alegria de pobre dura pouco.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sala de entregar pap\u00e9is faltaram duas folhas, e eu fui correndo, desesperado, para tirar as c\u00f3pias. Quando voltei e entreguei, o mo\u00e7o me disse: &#8216;Parab\u00e9ns. Voc\u00ea est\u00e1 na UFF!&#8217;. A\u00ed a ficha caiu. Eu tinha conseguido! Eu consegui! Foi incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o consigo nem explicar direito o sentimento, a felicidade que foi ter aquela certeza de que eu estava na universidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8663\" aria-describedby=\"caption-attachment-8663\" style=\"width: 208px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8663 \" src=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062152474_v2_450x800-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"208\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062152474_v2_450x800-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.sinposba.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/elcimar-moreira-da-silva-estudante-de-fisica-da-uff-bateu-a-laje-da-universidade-onde-hoje-estuda-1568062152474_v2_450x800.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8663\" class=\"wp-caption-text\">O estudante diz que o trabalho como pedreiro prejudica o desempenho em sala de aula &#8211; Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<h3>&#8220;Me senti um craque de futebol&#8221;<\/h3>\n<p>Quando pisei na UFF pela primeira vez como aluno, eu pensei: &#8216;Cara, nem parece que foi esse lugar em que eu bati a laje&#8217;. Era um sentimento de orgulho muito grande.<\/p>\n<p>Eu sempre quis ser jogador de futebol e, para mim, a sensa\u00e7\u00e3o foi de ter conseguido isso. De um sonho muito grande realizado. Eu me senti um craque naquela hora.<\/p>\n<p>Minha vontade era de falar para todo o mundo: &#8216;Sabe esse ch\u00e3o que a gente est\u00e1 pisando aqui? Eu que ajudei a construir&#8217;. Sensa\u00e7\u00f5es assim a gente tem que aproveitar ao m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Todos os dias eu pego transporte da cidade onde eu moro, Miracema, para o campus da UFF, em Santo Ant\u00f4nio de P\u00e1dua. N\u00e3o \u00e9 um trajeto muito comprido n\u00e3o, s\u00e3o uns 14 km de dist\u00e2ncia entre as cidades. Estou no segundo semestre agora.<\/p>\n<p>No come\u00e7o eu tive um pouco de dificuldade porque o tempo da universidade e a maneira como o conhecimento \u00e9 passado n\u00e3o s\u00e3o como no ensino m\u00e9dio. \u00c9 muito mais corrido, exige mais do aluno e muito mais tempo de estudos. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o tive uma base muito forte em Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Mas agora eu j\u00e1 me ambientei, j\u00e1 sei como \u00e9 a correria da minha universidade, estou mais preparado. Eu conquistei isso.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m preciso dizer que eu encontrei companheirismo dentro da minha sala.<\/p>\n<p>Minha turma \u00e9 muito unida e isso ajudou muito na minha adapta\u00e7\u00e3o. Os professores s\u00e3o fora de s\u00e9rie. Eu gostaria de agradecer esse pessoal, de algum jeito, porque eu n\u00e3o imaginava um dia estar conversando com doutores. E hoje eu estou.<\/p>\n<p>Cada cantinho do estado do Rio eu tenho dentro da sala. Ent\u00e3o eu fiz amigos que eu nunca imaginei fazer. Para mim est\u00e1 sendo uma experi\u00eancia sensacional, apesar de todos os obst\u00e1culos. Sem falar do apoio da minha fam\u00edlia. Eles sabem que F\u00edsica \u00e9 super dif\u00edcil e eu tenho sempre o apoio deles.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que me magoa na UFF \u00e9 ver as pessoas sendo demitidas. Tinham 35 funcion\u00e1rios, da jardinagem \u00e0 seguran\u00e7a e limpeza. Agora s\u00f3 tem sete. Tem gente que fica tr\u00eas meses sem receber. Apesar de estar feliz l\u00e1 dentro, eu vejo o drama de muitas pessoas por l\u00e1. S\u00e3o muitas coisas se passando e eu fico muito triste. Triste mesmo.&#8221;<\/p>\n<h3>&#8220;O trabalho como pedreiro atrapalha nos estudos&#8221;<\/h3>\n<p>Ainda trabalho como pedreiro e o meu trabalho atrapalhou muito tamb\u00e9m nos meus estudos. Muitas vezes pego um servi\u00e7o, entro cedo e saio no final do dia, vou para a aula por volta das 18h, saio 22h, chego em casa \u00e0s 23h.<\/p>\n<p>Tenho muito pouco tempo para estudar. Mas aproveito esse tempo estudando, fazendo contas, muitas vezes falando sozinho [Elcimar ri]. \u00c9 uma rotina muito pesada porque, al\u00e9m do cansa\u00e7o f\u00edsico, o cansa\u00e7o mental \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p>Trabalhar em obras cansa muito fisicamente e, quando eu vou \u00e0s aulas fisicamente cansado, meu desempenho fica l\u00e1 embaixo. Eu tentei conseguir um trabalho mais leve, que n\u00e3o tomasse tanto esfor\u00e7o f\u00edsico. Quase consegui, mas n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>Agora estou desempregado, estamos sem oportunidade na minha cidade, e est\u00e1 bem complicado. Tenho filha, tenho fam\u00edlia. Mas, de vez em quando, pego um servi\u00e7o menor ou outro.<\/p>\n<p>Desde que entrei na UFF, eu tenho muito orgulho de mim. A percep\u00e7\u00e3o muda na universidade e voc\u00ea muda muito. Meu senso cr\u00edtico j\u00e1 se ampliou bastante. Estou me sentindo muito bem e orgulhoso.<\/p>\n<p>O que eu posso dizer \u00e9, se alguma pessoa puder tirar alguma li\u00e7\u00e3o que seja v\u00e1lida, ela seria: n\u00e3o desista dos sonhos. Eu n\u00e3o acreditava porque j\u00e1 disse a voc\u00ea, alegria de pobre dura pouco. Mas eu tinha uma ponta de esperan\u00e7a. Ah, se tinha. Foi essa ponta de esperan\u00e7a que me botou l\u00e1. Depende de voc\u00ea mesmo, do nosso esfor\u00e7o. De acreditar que \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou muito ligado em pol\u00edtica, mas acredito que o incentivo [do governo] ajudou muito e abriu portas. Tem que continuar sendo dessa forma porque gera muita oportunidade para as pessoas mais pobres. Apesar de eu n\u00e3o ser muito engajado nessa parte pol\u00edtica, eu acho que ela, a pol\u00edtica [que permite o acesso dos mais pobres \u00e0s universidades], trouxe muitos benef\u00edcios para as pessoas.<\/p>\n<p>Tenho sonhos e planos para o futuro. Eu pretendo seguir na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para dar aulas. \u00c9 uma das coisas que mais me deixa feliz. Tem pessoas que gostam de lidar com pessoas e eu sou uma delas. Tenho alegria de estudar F\u00edsica e quero transmitir o meu conhecimento desse jeito mais leve e mais alegre.<\/p>\n<p>Quanto a meu pai, ele morreu um ano depois de ter me levado para bater a laje. Ele n\u00e3o chegou a ver eu entrando como aluno na universidade onde eu fiz o ch\u00e3o junto com ele dez anos antes. Minha m\u00e3e tem muito orgulho de mim por eu ter entrado. Tenho certeza de que meu pai teria tamb\u00e9m. Foi ele quem me ajudou a construir tudo isso.&#8221;<\/p>\n<p>www.educacao.uol.com.br \/ Marina Lang<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando ingressou pela primeira vez em um dos campus da UFF (Universidade Federal Fluminense) em 2009, Elcimar Moreira da Silva tinha 22 anos, mas n\u00e3o levava livros ou cadernos. 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