{"id":9751,"date":"2019-11-01T14:57:54","date_gmt":"2019-11-01T17:57:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/?p=9751"},"modified":"2019-11-01T14:58:36","modified_gmt":"2019-11-01T17:58:36","slug":"ford-fecha-em-sao-bernardo-na-ultima-assembleia-lembrancas-lagrimas-e-incerteza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinposba.org.br\/index.php\/2019\/11\/01\/ford-fecha-em-sao-bernardo-na-ultima-assembleia-lembrancas-lagrimas-e-incerteza\/","title":{"rendered":"Ford fecha em S\u00e3o Bernardo: na \u00faltima assembleia, lembran\u00e7as, l\u00e1grimas e incerteza"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\"><strong>Desemprego &#8211; Multinacional encerrou nesta quarta (30) suas atividades no munic\u00edpio; pela unidade, passaram 100 mil trabalhadores<\/strong><\/p>\n<div>A \u00faltima assembleia dos funcion\u00e1rios da Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, no ABC paulista, durou 78 minutos. No ano em que completa seu centen\u00e1rio no Brasil, a multinacional norte-americana\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/03\/07\/ford-anuncia-fim-de-fabrica-e-governo-cruza-os-bracos-denunciam-trabalhadores-em-ato\/\">encerrar\u00e1 nesta quarta (30) as atividades na f\u00e1brica de S\u00e3o Bernardo, que adquiriu em 1967<\/a>\u00a0e por onde passaram pelo menos 100 mil trabalhadores, segundo Rafael Marques, ex-presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos. Os \u00faltimos caminh\u00f5es sair\u00e3o da linha de montagem.\u00a0A produ\u00e7\u00e3o de carros terminou em junho. Os aproximadamente 650 funcion\u00e1rios que ainda permanecem ser\u00e3o dispensados a partir de quinta-feira, na base de 100 por dia. Parte do pessoal administrativo continuar\u00e1 trabalhando no local, at\u00e9 mar\u00e7o, quando haver\u00e1 transfer\u00eancia para o bairro paulistano da Vila Ol\u00edmpia.<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/03\/07\/ford-anuncia-fim-de-fabrica-e-governo-cruza-os-bracos-denunciam-trabalhadores-em-ato\/\"><strong>:: Leia tamb\u00e9m: Governo federal lava as m\u00e3os para a sa\u00edda da Ford de S\u00e3o Bernardo (SP) ::<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Na despedida, que reuniu trabalhadores na ativa, aposentados e outros que deixaram a empresa nos \u00faltimos meses, muito choro, abra\u00e7os e uma dose de incerteza. Existe a expectativa de que a Caoa compre a \u00e1rea e mantenha a f\u00e1brica funcionando. Segundo o presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC, Wagner Santana, o Wagn\u00e3o, as bases do acordo est\u00e3o tra\u00e7adas, inclusive do ponto de vista salarial. Estaria faltando apenas a aprova\u00e7\u00e3o de uma linha de financiamento por parte do BNDES. \u201cN\u00e3o h\u00e1 outra explica\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser a falta de decis\u00e3o pol\u00edtica de quem manda no BNDES\u201d, afirmou, logo depois da assembleia. \u201cN\u00e3o duvido que haja press\u00f5es do governo federal para n\u00e3o liberar o financiamento\u201d, disse ainda no carro de som, para aproximadamente mil trabalhadores. Para ele, pode haver, inclusive, resist\u00eancia das pr\u00f3prias montadoras multinacionais contra uma empresa de ve\u00edculos nacional.<\/p>\n<p>A Ford anunciou o fechamento da f\u00e1brica em fevereiro.\u00a0Representantes dos trabalhadores foram aos Estados Unidos conversar com a dire\u00e7\u00e3o mundial da empresa, sem sucesso.\u00a0Em setembro, em cerim\u00f4nia no Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, a Caoa oficializou sua inten\u00e7\u00e3o de comprar a f\u00e1brica instalada no bairro do Tabo\u00e3o. Desde ent\u00e3o, as negocia\u00e7\u00f5es avan\u00e7aram, mas esbarraram no \u201c1%\u201d, como diz Wagn\u00e3o. A assessoria da Caoa diz que n\u00e3o h\u00e1 novidades por enquanto. Procurado por meio da assessoria, o BNDES n\u00e3o se manifestou at\u00e9 a conclus\u00e3o deste texto.<\/p>\n<p>O l\u00edder metal\u00fargico informou que h\u00e1 um acordo coletivo praticamente pronto. \u201cAs bases salariais est\u00e3o estabelecidas\u201d, adiantou. Os poss\u00edveis futuros contratados receberiam o equivalente a 70% dos atuais. Inicialmente, a produ\u00e7\u00e3o seria apenas de caminh\u00f5es \u2013 o que exigiria, no primeiro momento, de 800 a 850 trabalhadores, mas segundo Wagn\u00e3o a Caoa manifestou a inten\u00e7\u00e3o de fabricar autom\u00f3veis tamb\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Nos livros<\/p>\n<p>\u201cDaqui a cinco, 10 anos, isto aqui vai estar nos livros\u201d, afirmou Adalto de Oliveira, o Sapinho, do Comit\u00ea Sindical de Empresa (CSE) da Ford, na f\u00e1brica desde 1993, anos em que os metal\u00fargicos se organizaram para a campanha de combate \u00e0 fome ent\u00e3o comandada pelo soci\u00f3logo Herbert de Souza, o Betinho. Ele lembrou que ali foi conquistada a primeira comiss\u00e3o de f\u00e1brica da categoria, ainda em 1981, e ali se aprendeu \u201co significado da palavra solidariedade\u201d. Sapinho afirmou que a Caoa pode comprar a unidade: \u201cAqui tem trabalhadores e trabalhadoras qualificados\u201d. Quando foi pedir desculpas \u201cpor alguma falha que n\u00f3s tivemos\u201d, n\u00e3o conseguiu terminar a frase.<\/p>\n<p>O deputado Teon\u00edlio Monteiro da Costa, o Barba (PT), ex-funcion\u00e1rio da Ford (de 1990 a 2015, depois de cinco anos de Volkswagen), tamb\u00e9m teve dificuldade para concluir o discurso. \u201cS\u00e3o momentos importantes da nossa vida. Ela n\u00e3o vai parar aqui. N\u00f3s vamos nos encontrar em outros lugares. O sindicato lutou demais para manter essa f\u00e1brica no ABC\u201d, afirmou, lembrando que a empresa j\u00e1 queria encerrar atividades em 1998, quando demitiu 2.800 funcion\u00e1rios na v\u00e9spera do Natal \u2013 parte dos cortes foi revertida. \u201cA luta n\u00e3o se encerra aqui.\u201d<\/p>\n<p>Ele criticou veto do governador Jo\u00e3o Doria (PSDB) \u00e0 parte do projeto que resultou na Lei 17.185, sancionada neste m\u00eas e publicada na edi\u00e7\u00e3o do dia 22 no\u00a0<em>Di\u00e1rio Oficial do Estado<\/em>, sobre o programa IncentivAuto, de est\u00edmulo a montadoras. \u201cComo o governador n\u00e3o entende de pol\u00edtica industrial, ele vetou a parte mais importante para n\u00f3s\u201d, afirmou o deputado, referindo-se a artigo que trata de investimentos e outros itens. Ele tenta negociar a derrubada do veto.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m se emocionou foi o vereador paulistano Alfredo Alves Cavalcante, o Alfredinho (PT), outro ex-funcion\u00e1rio da Ford. \u201cToda despedida \u00e9 triste. Eu devo muito a essa milit\u00e2ncia, a esses trabalhadores que est\u00e3o aqui.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Garoto de recados<\/p>\n<p>Atual presidente do Instituto Trabalho, Ind\u00fastria e Desenvolvimento (TID), Rafael Marques observou que pelo menos a produ\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es era lucrativa,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2019\/03\/caso-ford-reativa-debate-sobre-futuro-da-industria-brasileira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o que torna menos compreens\u00edvel a decis\u00e3o da Ford.<\/a>\u00a0\u201c\u00c9 uma coisa que tem de ser explicada\u201d, comentou, ao mesmo tempo em que criticava o atual presidente da companhia para a Am\u00e9rica do Sul, Lyle Waters, que teria vindo para o Brasil \u201cpor maldade\u201d, preocupando-se mais com o retorno para acionistas do que com o futuro da f\u00e1brica. Um futuro que deve ser objeto de aten\u00e7\u00e3o de toda a regi\u00e3o: \u201cUma gigante do ABC est\u00e1 indo embora. A regi\u00e3o tem de se preparar para outra gigante n\u00e3o ir\u201d.<\/p>\n<p>Waters foi chamado de \u201cgaroto de recados\u201d pelo atual presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos, que apontou a predomin\u00e2ncia do mercado financeiro nas decis\u00f5es. \u201cO (verdadeiro) dono (da Ford) \u00e9 um acionista para quem pouco importa se voc\u00ea faz carro ou se faz pipoca. Ele \u00e9 dono de um papel. E, por alguns centavos de d\u00f3lar, \u00e9 ele quem determina o que vai acontecer com a sua vida\u201d, disse Wagn\u00e3o. \u201cEsse modelo \u00e9 defendido pelo atual governo, porque a prioridade deles \u00e9 atender ao dono do papel e n\u00e3o o trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Agora, est\u00e1 nas m\u00e3os do governo, acrescenta Wagn\u00e3o. \u201cFizemos o nosso papel. N\u00f3s ainda n\u00e3o desistimos dessa hist\u00f3ria, n\u00f3s acreditamos. Onde a gente podia intervir, ou meter o p\u00e9 na porta, n\u00f3s intervimos. O futuro dos trabalhadores e das trabalhadoras depende \u00fanica e exclusivamente de uma decis\u00e3o pol\u00edtica do BNDES, portanto do governo federal. O que eu desejo, o que voc\u00eas desejam, \u00e9 que algum iluminado desse governo tenha coragem de tomar uma decis\u00e3o em favor do emprego\u201d, afirmou o sindicalista, encerrando a assembleia \u00e0s 9h16.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Despedida<\/p>\n<p>Parte dos trabalhadores entrou para seu pen\u00faltimo dia de expediente. A partir de novembro, bater\u00e3o ponto apenas funcion\u00e1rios administrativos e de setores como manuten\u00e7\u00e3o. Rodinhas se formaram no p\u00e1tio do estacionamento. Colegas se abra\u00e7avam e lembravam de hist\u00f3rias na f\u00e1brica, que em seu melhor momento chegou a ter aproximadamente 10 mil funcion\u00e1rios \u2013 neste ano, eram pouco mais de 4 mil. \u201cFiz muita amizade aqui. Muita assembleia, muita passeata\u2026 \u00c9 triste\u201d, dizia Mauro C\u00e9sar C\u00e2ndido, 53 anos, que se aposentou em junho, depois de exatos 30 anos de Ford. Vindo de Dourados (MS), ele trocou o trabalho na ro\u00e7a por uma vaga no Pr\u00e9dio 90 (Montagem). \u201cChegamos a fazer 75 carros por hora e 5 carros por hora\u201d, lembrou, sobre os momentos de alta e de crise.<\/p>\n<p>A partir de 2016, depois de um processo interno de reestrutura\u00e7\u00e3o, Mauro se alternava entre a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis e de caminh\u00f5es. Durante 10 dos 30 anos, trabalhou \u00e0 noite. Apenas o adicional noturno, conta, j\u00e1 dava para as despesas do mercado. Os tempos s\u00e3o outros agora, e ele teme, principalmente, pelos mais jovens. \u201cN\u00e3o tem para onde correr, n\u00e3o. Estou vendo o pessoal a\u00ed cabisbaixo. Amanh\u00e3 \u00e9 o \u00faltimo dia deles. A gente tem esperan\u00e7a de que as coisas melhorem, mas voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea uma luz no horizonte.\u201d<\/p>\n<p>Casado e com uma filha de 19 anos, que busca trabalho como comiss\u00e1ria de bordo, Mauro sofreu uma queda brusca na renda com a aposentadoria e ainda est\u00e1 se adaptando. Gosta de sair com a fam\u00edlia e andar de bicicleta. Morador de Mau\u00e1, tamb\u00e9m na regi\u00e3o do ABC, ele pensa em se mudar para o interior. \u201cComo diz meu sogro, S\u00e3o Paulo \u00e9 bananeira que deu cacho\u201d, diz o ex-oper\u00e1rio, saindo lentamente do p\u00e1tio e ainda cumprimentando alguns colegas. \u00c0s 10h, contavam-se 21 pessoas conversando por ali.<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Vitor Nuzzi\/\u00a0Rede Brasil Atual<\/div>\n<div class=\"place-and-time\">\n<div class=\"place\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desemprego &#8211; Multinacional encerrou nesta quarta (30) suas atividades no munic\u00edpio; pela unidade, passaram 100 mil trabalhadores A \u00faltima assembleia dos funcion\u00e1rios da Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, no ABC paulista, durou 78 minutos. 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